Há oitenta anos que vivemos uma espécie de bolha: a de que a democracia liberal, com todas as suas imperfeições, seria suficientemente robusta para resistir a qualquer crise internacional. Acreditámos que bastava votar, alternar governos e confiar nas instituições internacionais. Mas talvez o maior erro tenha sido acreditar que a democracia era um dado adquirido, e não um organismo vivo que exige vigilância permanente.
Hoje, são muitos os sinais do que nos parecia impensável. A erosão — quase impercetível — das normas democráticas tornou‑se um fenómeno global. A normalização da desinformação, o desprezo pelas instituições, a transformação da política em espetáculo e a crescente tentação de líderes que preferem o atalho da autoridade ao caminho árduo do consenso, tornou-se o expediente.
A democracia não morre num dia. Morre em pequenas concessões: um ataque à imprensa aqui, uma lei que restringe direitos ali. Morre quando o cidadão se cansa, ou o debate se torna tóxico, ou a verdade se fragmenta em versões personalizadas. Morre quando começamos a achar que “talvez seja preciso alguém forte para pôr ordem nisto”.
As palavras recentes de Kristalina Georgieva — alertando os governos para “pensarem no impensável” — não são apenas sobre geopolítica. São sobre a fragilidade das nossas próprias estruturas. Fareed Zakaria já o dizia há anos: as instituições que julgávamos inabaláveis estão menos preparadas para o futuro do que gostaríamos de admitir.
A democracia não desaparece por força de um inimigo externo. Desaparece porque os seus guardiões, todos nós, deixamos de acreditar nela.
Estaremos a assistir ao seu ocaso? E estaremos dispostos a defendê-la?
A história é clara: nenhuma democracia sobrevive por inércia. Sobrevive quando os cidadãos decidem que vale a pena lutar por ela — todos os dias.
A democracia está a testar-nos. E a questão que fica, nua e crua, é esta: estaremos à altura.
Luís Soares Almeida
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