Há frases que são como aqueles avisos simples que aparecem no momento certo. Curtas, diretas e difíceis de ignorar. Uma delas pertence ao filósofo estoico Sêneca. Não há nada pior do que seguirmos alegremente no caminho errado.
A frase é quase irritante pela sua simplicidade. Errar é normal. Quem nunca escolheu o restaurante errado ou a fila errada no supermercado. Faz parte da vida. O problema começa quando continuamos no erro com uma confiança invejável.
Imagine a seguinte situação. Está a montar um móvel novo lá em casa. Segue as instruções, aperta parafusos, encaixa peças e, a meio do processo, começa a surgir aquela suspeita incómoda de que algo não está bem. Uma tábua parece estar ao contrário, um buraco não coincide com o parafuso certo. Mesmo assim continua. Talvez no passo seguinte tudo faça sentido. Talvez o manual esteja mal desenhado. Talvez no final até ninguém repare.
Agora substitua esse móvel por qualquer outra coisa da vida moderna.
Todos conhecemos exemplos. A aplicação nova que prometia simplificar tudo e acabou por complicar tarefas simples. A reunião que foi marcada para resolver um problema urgente e que terminou com três novas reuniões agendadas para discutir o mesmo problema. O sistema que veio “modernizar” um serviço e que, curiosamente, obrigou toda a gente a aprender novas formas de contornar as dificuldades que criou.
E depois há aquele clássico universal. O famoso “isto agora no início é estranho, mas depois vai melhorar”. Às vezes melhora. Outras vezes transforma-se numa daquelas soluções que toda a gente sabe que não funciona muito bem, mas que ninguém quer mudar porque já deu demasiado trabalho implementá-la.
Curiosamente, este fenómeno não acontece por falta de inteligência. Muitas vezes acontece exatamente pelo contrário. Há boas intenções, há esforço, há vontade de fazer melhor. Só que, em algum momento, o caminho escolhido não era o mais acertado. E reconhecer isso implica parar, rever e, em alguns casos, voltar atrás.
E voltar atrás continua a ser uma das coisas mais difíceis para o ser humano.
Talvez por orgulho. Talvez por hábito. Ou talvez porque, depois de investir tanto tempo a defender uma ideia, admitir que afinal não era bem aquilo custa mais do que continuar a acreditar nela.
É aqui que a frase de Sêneca ganha ainda mais força. O problema raramente está no erro inicial. O verdadeiro risco começa quando seguimos em frente com entusiasmo, ignorando os pequenos sinais que sugerem que talvez fosse melhor reconsiderar.
A vida moderna está cheia desses sinais. Um processo que demora cada vez mais tempo. Uma decisão que cria três novos problemas. Uma solução que precisa constantemente de explicações para provar que afinal está a funcionar.
Mesmo assim seguimos. Às vezes por teimosia. Outras vezes por simples inércia. E, não raras vezes, com um sorriso confiante de quem acredita que tudo está exatamente como devia.
Talvez por isso esta frase escrita há dois mil anos continue tão atual. Porque nos lembra uma verdade simples e profundamente humana.
Errar é inevitável. Corrigir o erro é sensato. Agora seguir alegremente no caminho errado.
Isso já não é distração. É escolha.
Carlos Pinheiro