O Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, já iniciou a aplicação de um método inovador de neuro-modulação transcarniana não invasiva destinado ao tratamento de doentes com Doença de Machado-Joseph, tendo sido já intervencionados 17 utentes provenientes de várias ilhas dos Açores.
A informação consta da resposta do Governo Regional a um requerimento apresentado pelo Grupo Parlamentar do Chega na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.
De acordo com o documento enviado ao parlamento regional, o equipamento encontra-se atualmente instalado, testado e clinicamente operacional no Hospital do Divino Espírito Santo desde outubro de 2025, depois de concluído o processo de formação dos profissionais de saúde e da atualização do software necessário ao funcionamento do sistema.
Até ao momento, foram tratados 17 doentes diagnosticados com Doença de Machado-Joseph, tendo sido intervencionados utentes provenientes das ilhas das Flores, Pico e São Miguel. O Governo Regional indica ainda que já se encontram agendadas intervenções para doentes das ilhas Graciosa e Santa Maria, num esforço de assegurar uma cobertura progressiva e equitativa do acesso a este tratamento especializado em todo o arquipélago.
O serviço dispõe axtualmente de dez profissionais de saúde habilitados a operar o equipamento de neuro-modulação, estando em curso novos processos de formação destinados a reforçar a capacidade de resposta clínica.
Segundo os dados apresentados, o Hospital do Divino Espírito Santo tem capacidade para tratar até quatro doentes por mês através desta técnica, que está a ser aplicada no âmbito de um projeto piloto clínico desenvolvido no serviço de Medicina Física e Reabilitação da unidade hospitalar.
O protocolo clínico actualmente utilizado prevê ciclos de tratamento constituídos por dez sessões consecutivas de estimulação, com duração aproximada de 90 minutos por sessão. Após esta fase inicial, os doentes são reavaliados para determinar a necessidade de sessões de manutenção ou novos ciclos terapêuticos.
O processo de acesso ao tratamento inicia-se com a referenciação dos doentes para consulta de Medicina Física e Reabilitação, podendo essa referenciação ser efetuada através do Sistema de Informação da Região Autónoma dos Açores (SIRA) ou por encaminhamento clínico hospitalar. Após a triagem médica e avaliação clínica, os doentes diagnosticados com Doença de Machado-Joseph são posteriormente agendados para consulta específica, onde é definido o plano terapêutico e a eventual indicação para neuro-modulação.
Segundo o Governo Regional, encontram-se actualmente referenciados outros doentes para avaliação nesta área, estando em curso processos clínicos destinados a estabelecer o momento adequado para o início do tratamento, em função da situação clínica de cada utente e da disponibilidade do serviço.
A monitorização dos resultados clínicos faz igualmente parte do projeto piloto. O plano prevê a aplicação de escalas de avaliação clínicas antes e após os ciclos de tratamento, permitindo medir o impacto da intervenção na evolução dos sintomas e na qualidade de vida dos doentes. Por se tratar de um estudo clínico, os dados recolhidos estão sujeitos às regras de protecção de dados e ao dever de confidencialidade, não estando prevista a divulgação pública individualizada dos resultados.
A técnica utilizada baseia-se na estimulação magnética transcraniana repetitiva, uma abordagem não invasiva que utiliza campos magnéticos para modular a atividade do sistema nervoso central. O método tem sido estudado internacionalmente como potencial estratégia terapêutica para diversas patologias neurológicas e psiquiátricas, incluindo a Doença de Machado-Joseph.
A Doença de Machado-Joseph, também conhecida como actaxia espinocerebelosa tipo 3, é uma doença neurodegenerativa hereditária relativamente prevalente nos Açores. Caracteriza-se por uma degeneração progressiva do cerebelo e de outras estruturas do sistema nervoso, provocando sintomas como perda de coordenação motora, alterações da marcha, dificuldades de equilíbrio, problemas na fala e na deglutição.
De acordo com estudos referidos no próprio protocolo clínico do hospital, estima-se que a prevalência da doença em Portugal seja de cerca de 3,1 casos por 100 mil habitantes, embora a distribuição seja heterogénea e com incidência historicamente mais elevada em algumas ilhas açorianas.
O desenvolvimento deste projeto clínico no Hospital do Divino Espírito Santo representa, segundo o Governo Regional, um passo relevante na introdução de novas abordagens terapêuticas destinadas a melhorar a qualidade de vida dos doentes afectados por esta patologia rara, permitindo simultaneamente recolher dados científicos sobre a eficácia desta intervenção em contexto clínico real.
