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Eles nem imaginam

Ia eu nos meus afazeres, de volante na mão, a desenhar o meu percurso até às compras da semana, feitas sempre ao domingo. Desta vez fui sozinho. Não levei nenhum dos meus filhotes, a esposa ficou com eles em casa. Portanto umas mini-férias.
Ao passar por uma das últimas ruelas antes do destino, vi um casal à porta de uma casa enfeitada de balões cor-de-rosa a despedir-se dos convidados.
Ambos tinham t-shirts rosa a dizer Mommy to be e Daddy to be. Era um baby shower. A alegria contagiante captou imediatamente a minha atenção. Os sorrisos abertos e aquele brilho nos olhos eram verdadeiramente tocantes. A aura da mulher brilhava, conseguiase ler no ar à sua volta uma mistura de esperança e felicidade, salpicada pela ansiedade natural do desconhecido. O Daddy to be parecia um miúdo na véspera de Natal: sorriso tonto e uma descontração desconcertante, quase a levitar dentro do seu próprio bem-estar. Caro leitor, era uma cena bonita.
Depois de digerir a imagem durante alguns momentos, apenas uma coisa me rompeu o pensamento. Uma interrupção intrusiva que veio de dentro da minha humilde experiência de vida:
Eles nem imaginam o que vem por aí fora.
Eu já não durmo há três anos. E, sinceramente, espero que a Mommy e o Daddy to be não durmam também. Se há coisa pior do que passar inúmeras noites em claro, com o sono interrompido pelos pequenos mafarricos, é saber que alguém na mesma situação dorme bem.
Caro leitor, se alguma vez estiver a falar comigo e eu estiver a queixar-me das minhas noites mal dormidas, considere a minha participação na conversa puramente retórica. Não ouse dirigir-se a mim com um:
“Ai, os meus sempre dormiram muito bem”.
E, por favor, não diga que vai melhorar. Isso é mentira!
Eu formulei um desejo naquele domingo. Eu desejei estar lá quando aquele casal tivesse de trocar a primeira fralda nuclear empastada que quebra a fronteira do body. Não para ajudar, mas para me rir deles. Para apontar o dedo aos to be’s e perguntar: onde está aquele sorriso tonto agora? Quero estar lá para os ver a discutir se vale a pena lavar o body… ou se é melhor atirá-lo para o lixo de vez.
Caro leitor, eu pensava que era uma boa pessoa. Que era genuinamente interessado no bem-estar do próximo. Infelizmente cheguei à conclusão de que ser boa pessoa só pode estar relacionado com o tempo de sono. É a única explicação.
Mas não me interprete mal, eu adoro os meus filhotes e era capaz de cortar o meu pé esquerdo para que eles nunca mais ficassem constipados. Mas diga-me uma coisa: quantas vezes se pode arrumar os brinquedos de uma sala num dia antes de descer ao último círculo dantesco do desespero parental?
“A vida é dura para quem é mole” diz-me o meu primo quando me ouve a queixar. Mas ele já não sabe… Ele já dorme.
Mas depois os mafarricos têm truques de magia. Criam o caos à nossa volta, transformam-nos em taxistas permanentes, empregados full-time e figurantes nas nossas próprias casas…, mas sabem exatamente quando nos dar a volta. Basta um “gosto de ti”, um abracinho sem jeito, um beijo colado com ranheta. E fica tudo pago. Tudo.
Mas… é sempre para a mãe.
E o pai, caro leitor? Que fez a mãe para merecer esse tratamento especial?
Ah e tal, o parto, e os nove meses e não sei o quê… Eu já dei topadas que doem mais. Isso é tudo um complô. Tenho a teoria de que os partos são encenações – tudo combinado, treinado durante uma vida para nos enganar e para nos pôr em dívida para o resto dos nossos dias. Gostas mais do papá ou da mãe?
“Da mamã.”
Sempre.
Todas as vezes.
Ques nervos…
Bem… lá estou eu a virar metade do planeta contra mim. Não me leve a mal, cara leitora estou apenas a ventilar. Para suavizar vou acabar a crónica com uma reflexão de uma heroína vossa, a excelente comediante Bumba na Fofinha:
“Estar com os nossos filhos é a melhor coisa do mundo. A segunda melhor, é estar longe deles.”
Philip San-Bento Pontes

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