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Nuno Sousa, ordenado Sacerdote em 2020, é actualmente o Pároco da Igreja de Nossa Senhora da Apresentação na Vila de Capelas

“A viagem ao nosso interior é a maior peregrinação que podemos empreender”

Cristo Ressuscitou, Aleluia, Aleluia!
Hoje celebramos a ressurreição de Cristo, a união e o reencontro de todos nós com o mesmo.
É tempo de reflexão e de comemoração, pois hoje celebramos a ressurreição do filho que se fez homem e que deu a sua vida para salvar a humanidade.
Nuno Sousa, ordenando sacerdote em 2020, é actualmente o Pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação na Vila de Capelas e assistente da Pastoral Universitária.
O Diário dos Açores esteve à conversa com o Padre Nuno para conhecer um pouco mais sobre si e tentar perceber como o mesmo se prepara para estas festividades pascais.

Fale-nos um pouco sobre si?
Nuno Sousa, padre. Tenho 34 anos, nasci a 25 de Maio de 1991. Cresci na Ribeirinha – Ribeira Grande. Filho único. Ordenado em 2020. Actualmente sou Pároco na Vila de Capelas e assistente da Pastoral Universitária.

A Páscoa celebra a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Na sua paróquia como é preparada a Páscoa? Há um envolvimento da população nas cerimónias pascais?
A Vila de Capelas, como todas as outras Paróquias da nossa realidade, prepara-se de forma comprometida para este tempo maior da celebração do verdadeiro mistério do Amor encarnado.
Ao longo da Quaresma (tempo de preparação para a Páscoa), foram muitas as formas de nos preparar para este tempo que nos levará até ao Pentecostes. Desde o Lausperene, à Romaria Quaresmal e Escolar, à dinâmica vivencial e litúrgica da nossa catequese a cada semana, a Comunidade foi-se preparando de forma muito bonita e activa para esta Semana.
Para além das cerimónias próprias destes dias, da Via-Sacra pelas ruas na Sexta-feira Santa com a Procissão do Enterro do Senhor, temos o envolvimento também dos nossos jovens, do Agrupamento 800, e da Cáritas, que a cada ano distribui cabazes a algumas famílias sinalizadas como necessitadas de uma maior atenção material.
É muito bonito ver o esforço e dedicação de muitos neste tempo, do Encontro que se vai fazendo ao longo dos dias anónimos na vida dos paroquianos.

Como se prepara espiritualmente para a celebração da Páscoa?
Porém, é necessário não esquecermos que o drama e a alegria, a folia de uma Páscoa, é sempre – sempre – o paradigma por inteiro, das nossas vidas, das nossas relações e da nossa realidade a cada ano.
Alguém do nosso meio repete que existe uma sabedoria autêntica no convite da Igreja em repetir anualmente todo este mistério, para trazer ao de cima da vida, aquilo que pela poeira do cansaço e do frenesim da vida, vai sendo como que subterrado, distanciando-se da lucidez que o Espírito nos traz.
Portanto, a celebração da Páscoa e a sua preparação espiritual terá, imperiosamente, uma preparação interior. Nas Cinzas (há 40 dias) convido os irmãos a percorrem a mais longa viagem que podemos trazer nas nossas vidas. A viagem ao nosso interior, a uma espécie daquele poço que tem uma água que sacia uma sede que parece nunca terminar por inteiro. A viagem ao nosso interior, carregado de sonhos, desilusões, sombras e luzes, sorrisos e choros, é sempre a mais importante e maior peregrinação que podemos empreender. Talvez, por isso, as romarias quaresmais constituam uma bela oportunidade para um encontro connosco e com o Criador, que afinal não é tão distante a nós quanto parece.
Portanto, como nos podemos preparar para esta manhã de Páscoa, para esta manhã «inicial, inteira e limpa», se não pela peregrinação ao nosso âmago, à oração enquanto diálogo e partilha, pela celebração em comunidade, ao jejum e abstinência daquilo que nos aprisiona e nos impede de voar e tomar pé de toda a nossa dimensão olhada, iluminada e amada por Deus.
Como preparar a Páscoa? Pessoalmente…
Na Quinta-feira Santa, tomando consciência que Deus usa as nossas lágrimas – mesmo as não choradas- para nos lavar os pés, estes membros que nos fazem aproximar ou afastar; sabendo que a humildade do pão e a alegria do vinho, não são outra coisa, que a partilha frugal de um Deus capaz de todos, que se deixa encontrar por todos, em qualquer tempo ou espaço.
Na Sexta-feira Santa, fazendo-nos conscientes da finitude, fragilidade e solidão que é viver. Expondo as nossas feridas a um sol a pique das 15 horas, ensinando-nos a rebelião da entrega total, ensinando-nos a esperar confiadamente após tudo estar feito, pronto, consumado e, no entanto, parecer que falhamos redondamente o alvo a que nos propusemos.
No Sábado, no silêncio da prudência, da vida gasta, dos sonhos que parecem sobrar ou terem sido feridos de morte.
No Domingo da Páscoa da Ressurreição de Jesus, abrindo-nos a um sol de dia novo. Não é uma vida melhorada a Ressurreição, mas é uma vida inteiramente nova, outra. Isto, sempre partindo da Palavra de Deus.

Qual a importância das cerimónias religiosas que antecedem o dia de Páscoa, designadamente a Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa, Sábado e Domingo?
Na Quinta-feira Santa celebramos a instituição do Sacerdócio, a Eucaristia e pelo gesto do lava-pés, o Serviço.
A Sexta-feira Santa é importante por nos apresentar um Deus que não se esconde ao difícil de se ser Humano. Morre, sofre, chora, entrega-se, tal qual eu ou tu. É o dia para sentirmos saudades de Deus, enquanto nos catapultamos para uma nova jornada.
O Sábado e o Domingo são dois dias muito bonitos, diria que são um Portal de vida, luz e água refrescante, um autêntico desassossego para a alma. A morte é vencida pelo amor. Deus nunca falha. Realmente quem é amado não pode morrer, nunca!

Cada vez mais a parte profana começa a ganhar destaque nas festividades da Páscoa, como acontece com os bens materiais como as amêndoas, os ovos de chocolates e os folares. Estes bens acabam por ofuscar o verdadeiro significado da Páscoa?
Tudo pode ser complementar.
Quem vive tradições, pode ofuscar.
Quem vive por fé, sem preocupação de apenas mimetizar, pode completar.
A festa é sempre um tempo doce, de convívio. A nossa civilização manda que festejemos como forma de elevação do espírito.
O ovo é de uma simbologia curiosa. Jesus, a páginas tantas, responde aos discípulos «Ninguém me tira a vida, sou Eu quem a dou».
Se um ovo quebrar de dentro para fora, ganhamos uma vida. Porém, se o tentarmos quebrar pelo exterior, perdemos uma vida.
Jesus quebra o túmulo de dentro para fora, da noite para o dia, da morte para a vida, da tristeza para a alegria. Um útero guarda uma vida, mas, no dia certo, ele terá de a dar à luz que ilumina, aquece, faz conhecer e cuida.

Actualmente constata-se um elevado número de jovens a “distanciar-se” não apenas de festividades, como a Páscoa, mas como da própria igreja. Na sua óptica, como a igreja pode combater esse “afastamento”?
Há um afastamento aparente.
Deixe-me que lhe diga, confidencie quase: Nunca vi tanta gente jovem com uma fé tão grande e comprometida, porém silenciosa. Sem grandes manifestações ou tradições, mas com fé.
Espreite algumas assembleias, alguns grupos, alguns likes em páginas de redes sociais. Eles estão por aí, vivendo, sentindo e se esclarecendo, no silêncio em que a Ressurreição se dá.
Tenho acompanhado imensos casais novos à procura da dimensão espiritual, como sendo algo essencial à sua vivência. Isso é muito consolador, bonito e justificante para mim. Acredite-me que há uma “Igreja de futuro” já em marcha. Mais tímida, talvez. Sem muitas preocupações em manter actividades ou sinais que se esvaziaram de muito do seu sentido religioso, embora muito activas na esfera social. Uma espiritualidade que busca discernimento, formação e vivência.

Numa altura, em que a descrença assombra o mundo, com o surgimento de novos conflitos e de guerras que teima em acabar e/ou pelas dificuldades e incertezas que assolam a vida de muitas famílias açorianas, como nós, cristãos podemos vivenciar esta Páscoa de forma mais serena e celebrando a ressurreição de Cristo?
Depois do mundo globalizado, informado e conectado, o desafio era nos tornar verdadeiramente próximos, irmãos. Isso quase que ia acontecendo em contexto pandémico há meia dúzia de anos.
Porém, tudo isto tem-nos trazido uma imensa ansiedade. É verdade que eticamente não nos podemos nem nos devemos desconectar, como que fingindo não saber o que o povo vizinho padece.
No entanto, uma vida nova é sempre o início de um sonho, uma réstia de uma esperança não sentida até aqui.
Será que acreditamos mesmo na Ressurreição?
A guerra, os conflitos, o ódio, a indiferença, os vícios, nos desfiguram.
Por seu turno a Páscoa transfigura-nos. É como um manual de uma vida nova, que nos ensina a experimentá-la, sem ignorar os sapatos que já trazemos calçados nesta longa caminhada.
Quem traz um coração ferido por amor, um coração ensanguentado entre as suas mãos, já aprendeu a esperar com confiança na manhã transformadora que um sonho traz consigo.
Talvez seja este o desafio: de sangrar, de sofrer, mas de sonhar com fé, com as marcas da Paixão e da oração intercessora, que torna todos irmãos – porque filhos de um só Pai.

Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores nesta Páscoa?
Que respiremos fundo, com a consciência que o Amor pode ser a revolução que tanto adiamos nos dias que nos parecem engolir e anestesiar.
Sejamos inteiros, ressuscitados, vivos, nascidos. Que a alegria seja um fruto bendito da paz que Jesus nos traz a cada manhã em que decidimos começar, recomeçar, tentar mais, falhar melhor, chorar mais, sorrir com mais vontade.
A Quaresma traz 40 dias de conversão, de mudança.
A Páscoa traz 50 oportunidades para nascermos de novo.
Santa Passagem!
Ana Catarina Rosa
* [email protected]

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