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O amor como mercadoriae outras reflexões sobre aplicações de encontros

“Em teu macio olhar repousa o meu.
E na face polida assim formada
se reflete e recria o próprio céu”
Daniel Filipe (1961), A Invenção do Amor e Outros Poemas.

“roubo-te o amor, aos poucos, como chuva
pequena para o incêndio deste agosto”
António Franco Alexandre (1999), Quatro Caprichos.

Acordo antes do despertador tocar. Arrasto-me no primeiro fôlego de um dia que nasce ofegante, e, contrariamente a tudo o que sei ser correto, entro numa rede social ainda com os olhos por abrir. Uma mensagem de ontem: “Amigo, eu vou desistir dos homens; ou são comprometidos, ou têm a vida de pantanas; não compensa a dor de cabeça”. Isto poderia ser a primeira cena de um filme delicodoce da Nora Ephron, mas se tiver entre 30 e 45 anos, é muito provável já ter vivido uma cena semelhante.
Há uma crise em curso que, embora silenciosa, é possível ouvir nas curvas bimodais das estatísticas eleitorais (homens a votar mais à direita, mulheres mais à esquerda). Uma revolução que começou lá atrás, com a libertação das mulheres (não acompanhada pela libertação dos homens de si próprios), e a diminuição dos dissuasores da solteiridade (a independência financeira, a autodeterminação sexual, o aumento da escolaridade, e a redução do estigma social), acelerada pela rebaldaria lucrativa das Big Tech, com os seus algoritmos que operam nas nossas pulsões mais primitivas. Com a voracidade das nossas vidas, terceirizamos tudo, inclusive o enamoramento, o sexo, e o amor, ignorando que é na sombra da natureza humana, e não na artificialidade do brilho do swipe e do scroll, que é mais provável encontrá-los.
Uma meta-análise publicada por Bowman e colaboradores na reputada revista Computers in Human Behavior di-lo sem pejo: frequentar aplicações de encontros tem um impacto negativo na imagem corporal, na saúde mental, e no bem-estar global.
Reconhecê-lo não é um neoludismo conservador, mas sim perceber que as aplicações de encontros viram do avesso a organicidade da atração, não por ocorrer por meio da tecnologia, mas por essa tecnologia operar segundo um modelo de negócio que lucra com a nossa solidão: o sucesso do seu propósito social significaria o fim do seu propósito comercial. As aplicações de encontros transformam um processo multideterminado (a atração) numa caricatura de uma ida às compras, uma checklist que incontáveis vezes se esfumaça no encantamento de um sorriso, numa imperfeição assumida carismaticamente, na inteligência e erudição que um swipe-left teria aniquilado.
Destroem o processo de enamoramento ao centrá-lo na aparência física estática e numa curadoria do ser-se homem e do ser-se mulher, sem qualquer entorno existencial, gamificando as relações e, portanto, tornando a atração numa competição, processo no qual a aceitação das tonalidades humanas é substituída pela procura permanente do melhor produto, da melhor aposta, do melhor cavalo da corrida: fazer zapping do Outro.
As aplicações de encontros parecem esvaziar a dimensão ocitocinérgica das relações amorosas e sexuais, reduzindo-as à sua dimensão dopaminérgica.
Daqui pode decorrer uma perceção enviesada sobre o estado do mundo, dos homens e das mulheres, que é, poderíamos hipotetizar, o reflexo de uma estratégia propositadamente falível, e não da realidade do mundo – ainda que possa, consequentemente, alimentar esse mundo: seja a misoginia red-pill, por um lado, ou a simplificação misândrica do homem sem complexidade, por outro.
Esta crise silenciosa é, também, uma crise do comunitarismo, das atividades e espaços coletivos. Temos trocado o desconforto da negociação interpessoal pela autossuficiência da escolha individual sem concessões. Como nos sugere Eve Herold, no seu Beyond Human, daqui à robotização do amor, é um soluço.
A solução é voltarmos ao início: ao encontro dos corpos.
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os Açorianos!
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Sérgio Andrade Carvalho *
* Investigador Doutorado CINEICC
Professor Auxiliar Convidado Faculdade de Psicologia e da Ciências da Educação da Universidade de Coimbra
Cédula: 16101

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