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Distanásia política

A caranguejola nunca resultou. O próprio nome, ao ser atribuído de forma jocosa e provocadora, caiu no esquecimento da areia da ampulheta. É apenas natural que o final dos seus dias esteja votado à incerteza, a avanços e recuos e a tristes afirmações das suas lideranças. Vejamos, por exemplo, a campanha de desinformação que corre entre os diversos representantes do PSD e do CDS em todos os canais de comunicação existentes. Ora um jovem prodígio vem criticar o centralismo, ora uma velha raposa vira-casacas vem embalar a morte dos cristãos, ora um líder ensanguentado vem defender diálogo e compreensão, ora outro menos ferido surge com duas pedras na mão.
A coligação de “o ourives”- Bolieiro – foi diagnosticada com um problema terminal pelo próprio chefe de fila, e agora aguarda o momento em que se extinguirá formalmente, agarrada a um protocolo de paz dissimulada, que em tudo se assemelha ao conceito da distanásia.
Adjuntos e adjuntas, mais assessorias, agarram-se desesperadamente ao moribundo corpo desfalecido, em busca de sinais de recuperação e vida. Dentro da carcaça, o que se constata são crescentes metástases, de onde não podemos deixar de assinalar o número maior de vozes que se levantam em protesto nos departamentos do governo que são geridos pelos parentes pobres. Seja nos Assuntos Parlamentares, seja no Ambiente, no Palácio dos Capitães-Generais ou mesmo nas Comunidades. O que não falta são vozes anónimas, roucas de reclamação.
Bolieiro, Lima e Estêvão parecem ter esquecido que o cansaço do povo foi o que lhes deu o lugar onde estão. É a única explicação plausível para as frases que vão sendo proferidas, quase que como se toda a vergonha se tivesse evaporado com o sol da Primavera, e só restasse uma política autoritária, investida por um direito divino de ser oposição a Salazar. Só assim encontramos resposta à pergunta que correu os lábios de muito boa gente: terá Boliero perdido o juízo?
O homem que derrubou o seu próprio governo com uma frase, numa entrevista, veio dizer noutra, semanas depois, que quer mais tropas estrangeiras nos Açores. Quase que lançando um apelo para que nos juntemos à guerra, quiçá liderados por uma nova Brianda. Imaginamos nas palavras do, ainda, presidente um grande exército de açorianas e açorianos, lado a lado com Trump e Netanyahu, dispostos a libertar o mundo das opressões dos outros, para instalar as suas. Desde que não seja monarquia, que para isso já demos para peditórios suficientes.
A caranguejola morreu, mesmo sem alguma vez ter estado verdadeiramente viva. O animal político que Bolieiro acordou com as suas tristes frases ainda vai ser sentido com ferocidade, nos tempos que se seguirão. Imagino o que será dito, por estes dias, na nossa Assembleia. As provocações baratas, os insetos de bastidores e as tentativas de golpes palacianos que não deixam saudades. Cinquenta anos depois, a Região vive em regime de cuidados paliativos, prolongando o sofrimento da população, para que alguns, muito poucos, procurem surrupiar o que resta da herança, em vida. A caranguejola morreu, o “ourives” falhou, e nem uma caldeirada se fez em sua honra. É esse o destino dos que ficam como de má memória.
Alexandra Manes

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