Durante quase toda a sua história, os Açores viveram numa condição que raramente é mencionada pelo seu verdadeiro nome: uma relação colonial. Depois de 1832, chamavam nas Ilhas Adjacentes — que incluíam a Madeira —, como se fossem um apêndice geográfico, um prolongamento menor do território continental.
As várias denominações que as Ilhas receberam desde o século XVII documentam a relutância que na metrópole se tem sentido em administrar o arquipélago como parte integrante do território nacional e de concebê-lo na imagem identitária do país. Os Açores nunca foram tidos por colónias na nomeação constitucional como Angola ou Guiné (também alterada em 1951 pelo Estado Novo). Mas, como em todas as relações coloniais, o centro detinha o conhecimento, a autoridade e a capacidade de formar elites. A periferia recebia o que sobrava e, frequentemente, menos do que garantia até o sustento da população.
Já depois do estatuto de Região Autónoma, esta cognição política e imperial esteve estampada na função de um Ministro da República dependendo diretamente do Chefe do Estado. Os seus poderes sobrepunham se aos dos órgãos eleitos pelo povo açoriano. A revisão constitucional de 2004 alterou o título para Representante da República, tornando o menos interventivo, mas mantém ainda funções de promulgação e fiscalização da constitucionalidade da legislação local, em que atua, porém, mais como garante constitucional do que como agente político ativo. Há ainda nesta perspetiva, um medo histórico, oculto mas visível, cuja razão de ser já não se coaduna com a realidade de um país que encontra, finalmente, a solidariedade existencial e a identidade nacional partilhadas na prática da democracia. Mais do que restauração, firmou-se a igualdade e dignidade no exercício da cidadania.
Neste contexto, a ausência do ensino superior no arquipélago não foi um acidente histórico, mas um mecanismo de dependência. Quem queria estudar tinha de sair da região. Contudo, quem partia muitas vezes abandonava a terra natal para sempre. E quem regressava trazia consigo uma identidade moldada noutro lugar, com códigos culturais que reforçavam a distância entre as ínsulas atlânticas e o continente. Esta saída constante significou também perda demográfica, envelhecimento e fragilização do tecido social.
O seminário de Angra, com a sua sólida formação humanística, tentou durante séculos mitigar este vazio, mas não podia substituí lo, não obstante a excelente qualidade do corpo docente. Foi uma instituição de alternativa mitigante, de remendo metafórico e não de emancipação.
A fundação da Universidade dos Açores (UAç) em 1976 surgiu, por isso, expressando um gesto de descolonização interna. Pela primeira vez, o arquipélago passou a produzir o seu próprio conhecimento, a formar as suas próprias elites, a pensar se a si próprio com autonomia intelectual. Além da sua missão académica, a UAç nasceu também para corrigir uma assimetria histórica. Democratizou o acesso ao ensino superior, fixou talento, consolidou uma classe média qualificada e deu aos Açores uma voz científica própria.
Mas o tempo não pára. Se o passado exigiu a criação da universidade, o presente exige a sua internacionalização. O arquipélago tem hoje uma diáspora numerosa, influente e profundamente ligada aos Estados Unidos. Esta diáspora — como a do Canadá — é um recurso estratégico que nenhuma outra região portuguesa possui com igual intensidade, não apenas pela sua dimensão humana, mas também pelo seu peso económico, cultural e até diplomático. A UAç deveria ser o seu ponto de encontro natural através de parcerias com universidades norte americanas, intensificando programas de intercâmbio, investigação conjunta em áreas onde os Açores são laboratório natural — vulcanologia, oceanos, clima, migrações, literatura insular.
Ao aproximar se mais das universidades da América do Norte — sem descorar a sua inserção no universo institucional da União Europeia — a UAç abriria portas largas para o mundo aos seus estudantes e graduados. Reforçaria ainda a ligação cultural e emocional entre o arquipélago e a sua diáspora. Estaria a transformar a distância em ponte, a memória em futuro, a saudade em colaboração.
O colonialismo interno que marcou o passado açoriano foi, em grande parte, superado pela criação da universidade. Mas a emancipação plena exige agora um passo seguinte: transformar a UAç num ator global, capaz de dialogar com o mundo e de mobilizar a diáspora como parceira estratégica. O arquipélago que durante séculos foi periferia pode, finalmente, tornar se centro — não de um império, mas de uma rede que valorizará ao mesmo tempo Portugal.
A verdadeira vocação da universidade não se reduz a ensinar: forma, projeta e transforma — transcendendo a correção do passado e desenhando o futuro.
Manuel Leal