Os Açores são a segunda região do país com maior taxa de risco de pobreza e lideram os indicadores nacionais de privação material e social, segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, divulgado esta quarta-feira por investigadores da Nova School of Business and Economics. O estudo traça um retrato marcado por fortes desigualdades territoriais e conclui que, apesar da redução global da pobreza em Portugal, persistem fragilidades estruturais particularmente evidentes nas regiões autónomas.
De acordo com os dados apresentados, a taxa nacional de risco de pobreza fixou-se nos 15,4% em 2025, mas com diferenças significativas entre regiões. O Alentejo surge como a região mais afetada, com 17,9%, seguido dos Açores, com 17,3%. Em sentido contrário, a Grande Lisboa apresenta a menor incidência de pobreza, com 12,2%.
O relatório destaca, contudo, que a realidade açoriana vai além dos rendimentos. Os investigadores sublinham que as desigualdades regionais refletem-se também nas condições de vida, no acesso a serviços essenciais e na qualidade da habitação.
Nos Açores, 17,4% da população encontrava-se em situação de privação material e social em 2024, o valor mais elevado entre todas as regiões portuguesas e mais de seis pontos percentuais acima da média nacional. A Madeira surge logo depois, com 15,1%.
Entre os indicadores mais preocupantes identificados no arquipélago está a privação alimentar. Cerca de 6,9% da população açoriana não conseguia assegurar uma refeição de carne, peixe ou equivalente vegetariano de dois em dois dias. Ao mesmo tempo, 6,7% dos residentes reportavam dificuldades no acesso a consultas ou tratamentos médicos não dentários.
O estudo revela ainda que os Açores apresentam o coeficiente de Gini mais elevado do país, fixando-se nos 33,8 pontos, indicador que mede a desigualdade na distribuição de rendimentos. Quanto maior o valor, maior é o desequilíbrio económico entre a população.
As dificuldades habitacionais e de conforto térmico também colocam os Açores entre as regiões mais vulneráveis. Tal como no Norte do país, 33,1% da população açoriana afirmou não conseguir manter a habitação confortavelmente fresca durante o verão, refletindo problemas associados à qualidade do parque habitacional e aos custos energéticos.
O relatório evidencia igualmente a forte dependência das prestações sociais no arquipélago. Nos Açores e na Madeira, as transferências sociais permitem reduzir a taxa de pobreza em cerca de oito pontos percentuais, um impacto significativamente superior ao verificado na Grande Lisboa ou na região Centro, onde a redução ronda os quatro pontos. Para os investigadores, estes dados demonstram que a melhoria dos indicadores nacionais não elimina as profundas assimetrias existentes entre territórios. O documento defende, por isso, políticas públicas diferenciadas e ajustadas às especificidades regionais, sobretudo nas áreas da habitação, saúde, alimentação e proteção social. O estudo conclui que as regiões autónomas continuam a apresentar uma realidade social “muito desigual”, marcada pela persistência da pobreza, da privação material e da dependência de apoios sociais, apesar da evolução positiva observada a nível nacional.
