Edit Template

Subsídio Social de Mobilidade

Eu não tenho nada a ver com a arenga que aconteceu naquele café do Quimas. Nem estou aqui para defender ninguém. Estava lá apenas por acaso, à espera do bagaço da tarde, quando o Cajó largou, do nada, uma palavra que não se imprime no jornal. O André sorriu apenas. Em dois minutos estavam os dois aos berros sobre o subsídio social de mobilidade. O que se segue foi o que apanhei: as peripécias, os erros, as razões de cada um. No fim, uma proposta que não foi minha, foi do Quimas, o dono do café, que a rematou entre bicas, com a calma do bom senso.
A renda chegava no fim do mês, mas o Cajó tinha mesmo de ir a Lisboa, a uma consulta. Pagou o bilhete, caro, e disse a si próprio que o subsídio entrava na conta a tempo. O sobrinho, que estuda em Coimbra, ditou-lhe os passos por telefone. O Cajó escrevinhou os num papel, letra a letra, como se fosse uma receita. Sentou-se em frente ao computador que até ali só servia para ver vídeos de carpintaria no YouTube, o seu hobbie preferido, embora nunca tivesse serrado uma tábua na vida. Ia correr bem.
Passo um: aceder à plataforma com Chave Móvel Digital.
“Chave Móvel de quê?”
O papel não respondeu. Lá foi à RIAC. Tirou senha, sentou-se. A senhora ao balcão começou a chamar “Idoso, idoso”, olhando para ele. Aguentou uma vez. Aguentou duas.
À terceira, levantou-se vermelho:
“Olhe lá! Eu não sou idoso nenhum. Não preciso de prioridades. Tenho sessenta anos por amor de Deus.”
A senhora pousou os óculos. Disse devagar:
“Senhor, estou a chamar por si. Já percebi que é o senhor que tem a senha I-doze.” O Cajó saiu da RIAC com a Chave Móvel Digital no bolso e a cara da cor de uma pimenta da terra.
De volta ao computador, autenticou-se. Entrou. Procurou a secção do subsídio na barra do site. Clicou. Autentique-se de novo. Autenticou-se. Clicou. Autentique-se de novo. Clicou. Autentique-se de novo. Clicou. Autentique-se de novo.
Ao fim de meia hora ligou ao sobrinho.
“Tio, não use a barra do site. Vá ao Google, escreva subsídio de mobilidade, clique no primeiro resultado.”
Resultou.
Procurou em cima. Procurou ao lado. Procurou em baixo. Em lado nenhum havia um botão que dissesse comece aqui. Ao fim de meia hora encontrou o aviso: para começar, era preciso comprovativo do NIB. O Cajó não era homem de net banking. Foi ao banco. Pediu que lho enviassem por email. O email chegou.
Voltou à plataforma. Escreveu credenciais. Invalid token. Outra vez. Invalid token. Outra. Invalid token. Fechou o portátil e foi para a cama derrotado.
No dia seguinte entrou à primeira. Carregou o NIB. Aguarda validação. Era sexta-feira. O Cajó olhou para o calendário. Fez as contas. O subsídio não estava a caminho. Estava em pausa. Em fila. Em análise. Em silêncio.
Na terça, a plataforma piscou: Pedido aceite. Pode prosseguir. Respirou. Achou que tinha ganho. Não tinha ganho. Tinha só desbloqueado a fase seguinte do jogo.
A plataforma queria datas. Data da fatura, data do bilhete. Número da fatura, número do bilhete. Tarifa de ida, tarifa de volta, tarifa de combustível XT, tarifa especial de corrida XP. O Cajó passou a tarde a virar a fatura ao contrário, à procura de códigos secretos escondidos nos recantos dos documentos. Carregou os ficheiros. Falha ao carregar. Apagou tudo. Em pânico, recomeçou. Linha a linha. Caixa a caixa. Enviou.
Três dias depois chegou o email. Correção solicitada. Uma lista bem arrumada por baixo: a data devia ser 10 e não 11. O documento da fatura estava no campo do bilhete, e vice versa. Tudo o resto, certo.
O Cajó leu duas vezes. Bufou alto, sozinho, na cozinha:
“Se sabem que está tudo lá, por que raio não assumem e devolvem o dinheiro?” A pergunta ficou pendurada no ar. O ar não respondeu. Enviou de novo. Dois dias depois, outro email. Correção solicitada. A data da fatura e a do bilhete estavam trocadas. No campo 1, escreva 11. No campo 2, escreva 10. Eram os mesmos números, na ordem inversa daquela que lhe tinham pedido três dias antes.
O Cajó precisava daquele dinheiro. Escreveu 11 num campo, 10 no outro. Enviou. Saiu de casa.
Foi ao café do Quimas.
Foi aí que largou a palavra que não se imprime no jornal. O André sorriu na cara dele, só para o picar, e disse:
“Aquilo é tão fácil! Até um macaco bem treinado fazia aquilo à primeira.”
Não vou repetir a arenga inteira. Quem leu até aqui sabe como ela foi.
Quando os dois se calaram para respirar, o Quimas pousou duas bicas no balcão, limpou as mãos no avental e disse, sem levantar o tom:
“Isto não é uma coisa do outro mundo. A companhia aérea já tem os dados todos. Manda os para um site. O passageiro autentica-se. Vê a lista dos voos que fez. Carrega no voo, aparece uma janela: quer receber o reembolso desta passagem? Sim ou não? Clica em sim. Tá feito. Peanuts.”
Quando o Cajó chegou a casa, na ressaca da confusão toda, abriu o computador. Tinha um email novo. Assunto:
Correção solicitada.

Philip San-Bento Pontes

Edit Template
Notícias Recentes
Director-geral da Autoridade Marítima aponta Açores como ponto-chave nas rotas atlânticas
Santa Clara convoca accionistas para decidir transformação de suprimentos em prestações assessórias de capital
Detido suspeito do crime de posse de arma proibida no concelho da Ribeira Grande
Ordem dos Enfermeiros defende vigilância da gravidez de baixo risco assegurada por enfermeiros especialistas
Lagoa apresenta plano municipal para a infância e assinala Dia Internacional do Brincar com seminário dedicado à aprendizagem
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Diário dos Açores