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Berta Cabral defende turismo “bom para quem reside nos Açores” e aposta em crescimento com menos sazonalidade

A secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, Berta Cabral, defende que os residentes açorianos devem estar no centro da estratégia turística da Região, numa fase em que os Açores atingiram novos máximos no setor, mas enfrentam o desafio de transformar crescimento em valor económico, coesão territorial e melhoria da qualidade de vida nas nove ilhas.
Numa entrevista ao jornal brasileiro Mundo Lusíada, publicada a 20 de maio e conduzida por Ígor Lopes, Berta Cabral afirma que a orientação inscrita no Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores (PEMTA 2030) parte de uma premissa central: “os residentes devem estar no centro da estratégia de desenvolvimento turístico”. Para a governante, o turismo “só será bom enquanto for bom para quem nos visita, mas sobretudo, para quem reside nos Açores”, uma formulação que coloca a capacidade de acolhimento, a sustentabilidade económica, social e ambiental e a distribuição dos fluxos turísticos no centro das prioridades regionais.
Segundo os dados citados por Berta Cabral na entrevista, os Açores ultrapassaram, em 2025, pela primeira vez, as 4,5 milhões de dormidas e os 206 milhões de euros em proveitos de hotelaria. A secretária regional sublinha que o crescimento tem sido mais expressivo em valor do que em volume: as dormidas aumentaram 13,6% em 2024 e 4,3% em 2025, enquanto as receitas cresceram 18,6% em 2024 e 9,5% em 2025. Esta diferença é apresentada pela governante como sinal de valorização do destino e de maior sustentabilidade económica do turismo açoriano.
A redução da sazonalidade surge como outro ponto central da entrevista. Berta Cabral refere que a taxa de sazonalidade se fixou em 42,6% em 2025 e que a descida tem sido gradual, apoiada no crescimento das épocas intermédias, antes e depois do pico do verão. Na prática, esta é uma das dimensões mais relevantes para os açorianos: menos concentração turística no verão significa maior estabilidade para empresas e trabalhadores, melhor aproveitamento da capacidade instalada e menor pressão sazonal sobre serviços, transportes, habitação e recursos naturais.
Na ótica dos residentes, a mobilidade interilhas é um dos aspetos mais sensíveis. A secretária regional destaca a Tarifa Açores, criada em 2021, que permite aos residentes viajar para outra ilha por 60 euros, ida e volta. Berta Cabral associa esta medida ao aumento da circulação interna e ao reforço do turismo entre ilhas, afirmando que todas as nove ilhas têm hoje uma dinâmica turística significativa. São Miguel, Terceira, Faial e Pico surgem com maior capacidade de acolhimento, mas a governante destaca também o efeito dos recursos distintivos das Flores e o caso de Santa Maria, que identifica como a única ilha onde a proporção de visitantes portugueses é atualmente superior à de visitantes estrangeiros, fenómeno que atribui sobretudo ao turismo interno.
A entrevista evidencia ainda a dependência estrutural dos Açores em relação ao transporte aéreo. Berta Cabral recorda que a Região é ultraperiférica, composta por nove ilhas dispersas no Atlântico, e que a chegada e saída de passageiros depende integralmente da aviação. Nesse contexto, aponta o reforço das ligações aéreas como prioridade estratégica e refere que, em 2025, operavam nos Açores 16 companhias aéreas, mais do dobro das sete registadas em 2019. A governante enquadra este crescimento na aposta em rotas diretas a partir da Europa e da América do Norte, mas também nos investimentos em portos e aeroportos sob responsabilidade regional.
Nos mercados emissores, a Alemanha é indicada como o principal mercado estrangeiro em 2025, com um crescimento de 12%. Os Estados Unidos da América surgem em segundo lugar, depois de fortes crescimentos em 2023 e 2024, mas com uma subida de apenas 1% em 2025. O Canadá cresceu 11,9% e é referido como um mercado em afirmação, beneficiando de mais ligações diretas à Região. Espanha, França, Suíça, Reino Unido, Áustria e Noruega são também identificados como mercados relevantes ou em crescimento.
Quanto ao Brasil, a secretária regional reconhece que não se trata de um dos mercados tradicionalmente mais fortes para os Açores, em parte pela ausência de ligações aéreas diretas, mas assinala que está no top 20 dos mercados emissores estrangeiros e que mantém potencial, sobretudo pelas ligações históricas entre os Açores e estados brasileiros como Santa Catarina.
A capacidade de resposta das ilhas é outro dos temas abordados. Berta Cabral recorda que a liberalização parcial do espaço aéreo, em 2015, trouxe um crescimento rápido da procura e que a Região não dispunha então de oferta hoteleira suficiente para absorver esse aumento. O Alojamento Local assumiu, por isso, um papel determinante na diversificação da oferta, sobretudo nas ilhas mais pequenas, onde a hotelaria tradicional continua a ser mais limitada. A governante refere, porém, que o setor evoluiu, com novos empreendimentos turísticos, maior oferta de animação turística, restauração mais desenvolvida e serviços de apoio em progressão.
A qualificação da oferta turística surge associada a apoios públicos e à valorização dos recursos locais. Berta Cabral identifica o sistema de incentivos Construir 2030, no âmbito do quadro financeiro plurianual 2021-2027 da União Europeia, como instrumento de apoio ao investimento privado, incluindo atividades da cadeia de valor do turismo. Refere ainda incentivos à formação profissional, à contratação de recursos humanos e à dinamização de eventos, bem como produtos estruturantes.
A mensagem política deixada por Berta Cabral ao Mundo Lusíada é a de que o turismo açoriano deve continuar a crescer, mas não a qualquer preço.
A estratégia apresentada passa por consolidar os Açores como destino sustentável, reduzir a sazonalidade, distribuir melhor os fluxos turísticos pelas nove ilhas, gerir capacidades de carga, elevar padrões de qualidade, modernizar práticas, qualificar mão de obra e reforçar a notoriedade internacional do destino. O objetivo declarado é ter turismo todo o ano e em todas as ilhas, mas com uma condição expressa: que o crescimento crie valor para os açorianos e não apenas para quem visita o arquipélago.

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