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Fósseis de peixes-lanterna com 120 mil anos descobertos em Santa Maria

Um novo estudo científico identifica, pela primeira vez, a presença de peixes-lanterna em depósitos fósseis do Último Interglacial na ilha de Santa Maria, nos Açores, acrescentando duas espécies ao registo de paleobiodiversidade marinha daquele período e reforçando a relevância internacional dos afloramentos fossilíferos da ilha.
O artigo, publicado a 14 de Abril de 2026 na revista científica Quaternary, é assinado por uma equipa que inclui investigadores ligados ao Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), ao Departamento de Biologia da Universidade dos Açores e ao laboratório de Paleontologia Marinha e Biogeografia da Universidade dos Açores, entre outras instituições nacionais e internacionais.
O trabalho apresenta as primeiras evidências de peixes-lanterna do Último Interglacial, correspondente ao Estádio Isotópico Marinho 5e (MIS 5e), em Santa Maria, a partir de fósseis encontrados nos depósitos da Prainha e da Praia do Calhau.
A descoberta assenta na identificação de três otólitos, pequenas estruturas mineralizadas do ouvido interno dos peixes, que permitem reconhecer espécies mesmo quando não se conservam ossos ou outros elementos do esqueleto. Dois dos otólitos foram recolhidos na Prainha e um na Praia do Calhau, ambos na costa sul de Santa Maria, em camadas de areias vulcano-bioclásticas muito fossilíferas, associadas aos depósitos do MIS 5e. As espécies identificadas são Diaphus cf. holti e Symbolophorus veranyi, ambas pertencentes à família Myctophidae, conhecida por incluir os chamados peixes-lanterna.
O estudo eleva para 182 o número total de taxa específicos conhecidos nos depósitos do MIS 5e de Santa Maria. O registo continua a ser dominado por organismos marinhos invertebrados e por algas calcárias, mas os vertebrados marinhos passam agora a estar representados por quatro taxa: três espécies de peixes e um cetáceo não determinado. Antes deste trabalho, o registo de peixes ósseos do Pleistocénico açoriano era particularmente escasso, o que torna a nova identificação relevante para compreender a biodiversidade marinha que existia nas águas do arquipélago há cerca de 120 mil anos.
A importância da descoberta resulta também do tipo de organismos agora identificado. Os peixes-lanterna são espécies mesopelágicas, associadas normalmente a águas profundas e ao alto mar, realizando migrações verticais diárias: permanecem a maiores profundidades durante o dia e aproximam-se da superfície durante a noite. No caso de Diaphus holti, o estudo refere uma espécie que pode atingir 70 milímetros e ocorrer entre a superfície e os 275 metros de profundidade durante a noite, descendo durante o dia para profundidades entre 225 e 799 metros. Já o Symbolophorus veranyi pode atingir 130 milímetros e é descrito como uma espécie que ocorre à superfície durante a noite e entre 550 e 2.308 metros de profundidade durante o dia.
A presença destes peixes em depósitos costeiros de águas pouco profundas não é, por isso, interpretada como sinal de que viviam naquele ambiente litoral. Os autores propõem uma explicação ligada a eventos meteorológicos de elevada energia. Segundo o estudo, ventos e ondas associados a tempestades terão transportado estes peixes em direcção à costa, provavelmente durante a noite, quando estavam mais próximos da superfície. Depois do arrojamento na zona da Prainha e da Praia do Calhau, a decomposição dos tecidos moles, o soterramento por sedimentos e a descida posterior do nível do mar associada ao último episódio glaciar terão permitido a preservação dos otólitos nos depósitos fossilíferos.
Os investigadores sublinham que a recuperação de otólitos de Myctophidae nos depósitos do MIS 5e dos Açores tem especial significado científico, por não existir, segundo o artigo, registo publicado de fósseis de peixes-lanterna em depósitos de ilhas oceânicas do Último Interglacial.
A presença destes vestígios em sedimentos litorais de alta energia do Pleistocénico Superior é considerada excepcionalmente rara e evidencia as condições particulares de fossilização existentes nos afloramentos de Santa Maria. O estudo refere ainda que estes indicadores mesopelágicos raros só foram detectados graças ao rastreio rigoroso de 38 quilogramas de sedimento fossilífero.
A descoberta reforça, assim, o valor científico dos depósitos fósseis de Santa Maria, uma ilha já reconhecida pela riqueza do seu património paleontológico. Mais do que acrescentar duas espécies à lista conhecida, o estudo mostra como os afloramentos da Prainha e da Praia do Calhau continuam a revelar informação sobre a história marinha dos Açores e sobre os processos que, em contextos insulares, podem conservar vestígios raros de organismos normalmente associados ao oceano profundo.

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