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Açores destacam-se na produção forrageira e surgem com vantagens na vinha e frutos tropicais

A Região Autónoma dos Açores surge no retrato científico da agricultura portuguesa como uma região claramente marcada pela produção forrageira, num quadro nacional em que a agricultura mudou de forma profunda desde a adesão de Portugal à União Europeia e sob o efeito das sucessivas reformas da Política Agrícola Comum (PAC). A conclusão consta do artigo científico Land-Use Evolution and Trends in Portugal: An Approach Based on the Standard Output, publicado a 13 de Janeiro de 2026 na revista Sustainability, e assinado por António Xavier, Maria do Socorro Rosário, Rui Fragoso, Maria Leonor da Silva Carvalho e Maria de Belém Costa Freitas.
O estudo analisa a evolução do uso do solo agrícola em Portugal entre 1989 e 2023, recorrendo ao indicador de Produção Padrão (Standard Output, SO), que representa o valor médio da produção agrícola à saída da exploração, em euros por hectare ou por cabeça de gado. A investigação utiliza dados dos recenseamentos agrícolas e dos inquéritos à estrutura das explorações agrícolas, trabalhando 13 períodos temporais, de 1989 a 2023, e aplica metodologias de análise HJ-Biplot e de clusters para identificar padrões regionais de competitividade agrícola.
No caso das culturas temporárias, os Açores destacam-se de forma muito clara. Em 2023, o milho forrageiro representava 51,6% da Produção Padrão das culturas temporárias na Região e as pastagens temporárias 29,8%. Em conjunto, estas duas componentes concentravam 81,4% da estrutura regional analisada, um peso que leva os autores a caracterizarem os Açores como uma região produtora de forragens. As hortícolas intensivas representavam 15,6% e as hortícolas extensivas 2,4%, enquanto o milho para grão, as leguminosas secas e a floricultura tinham expressão residual.
A leitura açoriana contrasta com outras regiões agrícolas nacionais. O Algarve sobressai na floricultura, Madeira, Alentejo e Ribatejo e Oeste nas hortícolas, enquanto Entre Douro e Minho combina peso forrageiro com culturas hortícolas extensivas. O estudo sublinha, contudo, que estes resultados não devem ser lidos como uma conclusão fechada sobre especialização produtiva regional, mas como sinais relevantes de vantagens competitivas associadas às condições de produção e de mercado.
No plano nacional, a Produção Padrão das culturas temporárias baixou de 1.820,32 milhões de euros em 1989 para 1.729,17 milhões de euros em 2023, uma descida de cerca de 5,0%. A evolução não foi linear: o valor caiu até 2007, ano em que se situou em 1.357,43 milhões de euros, e recuperou depois, com aumentos nas observações de 2019 e 2023. O recuo foi particularmente marcado no milho para grão, que passou de 453,28 milhões de euros para 163,48 milhões de euros, e nas leguminosas secas, que caíram de 47,03 milhões para 18,71 milhões de euros.
Em sentido inverso, a floricultura subiu de 138,25 milhões para 395,77 milhões de euros. A recomposição é igualmente visível nas quotas relativas. Em 2023, as hortícolas e a floricultura representavam, em conjunto, mais de 70% da Produção Padrão das culturas temporárias em Portugal, com 50,27% nas hortícolas e 22,89% na floricultura. O milho para grão, que em 1989 pesava 24,9%, desceu para 9,45% em 2023.
O artigo associa esta evolução à perda de competitividade de algumas culturas tradicionais, às alterações nos apoios da Política Agrícola Comum e à crescente procura de produtos frescos, não transformados e de maior valor acrescentado.
Nas culturas permanentes, a trajectória nacional foi diferente. A Produção Padrão total aumentou de 2.516,31 milhões de euros em 1989 para 3.257,53 milhões de euros em 2023, uma subida de cerca de 29,5%. O crescimento foi impulsionado sobretudo pelos frutos secos, que passaram de 91,98 milhões para 867,6 milhões de euros, e pelos frutos tropicais frescos, que subiram de 40,54 milhões para 163,47 milhões de euros. Pelo contrário, os frutos frescos, os citrinos e a vinha perderam peso no período analisado.
Também nas culturas permanentes os Açores surgem com um perfil próprio. Em 2023, a vinha representava 40,6% da Produção Padrão das culturas permanentes na Região, seguindo-se os frutos tropicais frescos, com 32,0%, e os citrinos, com 16,3%. A análise de clusters leva os autores a concluir que Açores, Madeira e Entre Douro e Minho apresentam vantagens competitivas nas áreas da vinha e dos frutos tropicais frescos.
A investigação cruza ainda a evolução económica do uso do solo com indicadores de sustentabilidade. No plano ambiental, o estudo identifica tendências de melhoria em vários indicadores nacionais, nomeadamente no balanço de fósforo, no consumo de energia por hectare de superfície agrícola utilizada, nas emissões de amoníaco, nas emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e na utilização de produtos fitofarmacêuticos por hectare. O balanço de azoto, porém, apresenta uma tendência ligeiramente crescente, sinalizando que a gestão de nutrientes continua a ser uma preocupação relevante.
A dimensão social surge como o ponto mais frágil da sustentabilidade agrícola. O artigo assinala que o trabalho nas explorações agrícolas, medido em unidades de trabalho anual, diminuiu 40% nas últimas duas décadas. Em 2019, os produtores com mais de 65 anos representavam 52,5% do total, enquanto a participação das mulheres na gestão das explorações aumentou de 22% em 1999 para 31% em 2019.
Apesar da melhoria em alguns indicadores ambientais e económicos, os autores defendem que a sustentabilidade futura da agricultura portuguesa dependerá de políticas capazes de promover renovação geracional, inovação, formação e transferência de conhecimento.
Os autores reconhecem limitações na análise, desde logo porque não existem dados anuais ao nível da região agrícola para toda a série e porque as matrizes de Produção Padrão não estão disponíveis para os 30 anos analisados, tendo sido utilizada a matriz de 2020 como compromisso metodológico.
O estudo também não inclui todas as categorias de culturas, por não existir correspondência directa com as matrizes de Produção Padrão. Ainda assim, a investigação oferece uma leitura estruturada da transformação agrícola portuguesa e coloca os Açores num lugar bem definido desse mapa: uma região de forte base forrageira nas culturas temporárias e com vantagens competitivas identificadas na vinha e nos frutos tropicais frescos nas culturas permanentes.

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