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Leptospirose mantém risco nos Açores entre roedores infectados, clima húmido e falhas de monitorização

Nos últimos cinco anos, a leptospirose voltou a afirmar-se como uma ameaça silenciosa nos Açores, com 136 casos registados entre 2021 e 2025 e um pico de 48 ocorrências em 2023. Conhecida como “doença dos ratos”, mas ligada a uma cadeia ambiental muito mais complexa, esta zoonose continua a encontrar no clima húmido, na presença de roedores, na actividade agrícola e pecuária e na abundância de solos e águas contamináveis um terreno favorável à sua persistência. Os dados provisórios de 2025 apontam para 16 casos, depois dos 33 registados em 2024, mas os documentos oficiais e científicos analisados mostram que a recente descida estatística não resolve o problema de fundo: falta ainda uma leitura territorial do risco, enquanto estudos da Universidade dos Açores revelam taxas elevadas de infecção em roedores selvagens e o próprio Governo Regional reconhece fragilidades na articulação institucional, na fiscalização e na consolidação de informação sobre a praga.
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A leptospirose continua a ser uma presença persistente no mapa da saúde pública dos Açores. Entre 2021 e 2025, os dados fornecidos ao Diário dos Açores, pela Direcção Regional de Saúde, apontam para 136 casos na Região, com uma evolução irregular: 24 casos em 2021, 15 em 2022, 48 em 2023, 33 em 2024 e 16 em 2025, neste último ano ainda com dados provisórios.
O pico registado em 2023, com 48 casos, concentrou sozinho 35,3% das ocorrências destes cinco anos, enquanto o biénio 2023-2024 somou 81 casos, ou seja, 59,6% do total do período analisado. A descida para 16 casos em 2025 deve ser lida com prudência, precisamente por se tratar de informação provisória, mas não apaga a evidência central: a leptospirose permanece como uma zoonose relevante num arquipélago onde clima húmido, atividade agropecuária, solos encharcados, água parada e presença de roedores criam condições particularmente favoráveis à circulação da bactéria.
A doença, causada por bactérias do género Leptospira, é frequentemente conhecida como “doença dos ratos”, embora o problema não se esgote numa só espécie. A transmissão pode ocorrer por contacto directo com urina ou tecidos de animais contaminados, ou de forma indirecta através de água, solo, vegetação ou superfícies contaminadas. Os roedores são apontados como os principais reservatórios, mas bovinos, suínos e outros mamíferos também podem excretar a bactéria pela urina durante períodos prolongados. Nos humanos, a sintomatologia pode confundir-se inicialmente com uma gripe, com febre, dores musculares, arrepios, vómitos ou mal-estar, mas a evolução pode ser grave.
Nos animais de produção, a infecção pode traduzir-se em abortos, quebra de produção de leite, infertilidade, nascimento de vitelos fracos e perdas económicas relevantes para a pecuária.
Nos Açores, a doença é descrita por um artigo artigo da UAciência como endémica desde 1993 e como um reconhecido problema de saúde pública. O mesmo texto recorda que, entre 1993 e 2003, foram registados 15 casos humanos com desfecho fatal, enquanto entre 2005 e 2015, apesar do aumento do número total de casos, os óbitos foram significativamente menores, com dois casos fatais. Depois de 2015, o artigo refere apenas um caso fatal, em 2019. Esta leitura histórica dá escala ao problema: a leptospirose não é nova, mas a sua persistência obriga a políticas regulares de prevenção, controlo e monitorização.
A investigação científica ajuda a perceber a dimensão ambiental do risco. O artigo da UAciência, assinado por Ricardo Camarinho e com coordenação de Armindo Rodrigues, cita o estudo “Leptospirosis in Wild Mice: An Ongoing Concern for the Azorean Islands”, publicado na revista Journal of Veterinary Science and Animal Husbandry. O trabalho avaliou a infeção em ratinhos selvagens, Mus musculus, na ilha de São Miguel.
De 133 ratinhos capturados, cerca de 70% estavam infectados. As taxas variaram por local: 77,78% em Santo António, 74,19% em Rabo de Peixe, 70,59% na Ribeira Quente, 69,23% no Pinhal da Paz, 66,67% nas Furnas e 43,47% na Lagoa. A conclusão é especialmente sensível porque não se limita às explorações agrícolas: o texto aponta também risco acrescido em zonas de lazer, como parques e merendários, onde restos alimentares podem favorecer populações de roedores.
A Associação Agrícola, reforça a leitura histórica e económica. O artigo “Leptospirose: Um problema nos Açores”, assinado por Margarida Collares Pereira, então coordenadora científica do projeto da leptospirose nos Açores, e disponibilizado no site da Associação Agrícola de São Miguel, refere que o clima temperado e húmido e o elevado número de roedores infectados favorecem a sobrevivência e a transmissão das leptospiras. O texto aponta para cerca de 200 casos humanos entre 1991 e 2004, dos quais 85 nos últimos quatro anos desse período, com maior incidência nas ilhas Terceira e São Miguel. Sublinha ainda que a agropecuária, por ser uma das principais actividades económicas da Região, aumenta a exposição ocupacional, nomeadamente entre agricultores, trabalhadores rurais, médicos veterinários, trabalhadores de matadouros, saneamento básico e construção civil.
A preocupação tem estado presente também no plano político. Ao longo dos anos, e sob diferentes governos, foram aprovados diplomas e medidas destinados a prevenir, controlar e reduzir a presença de roedores, reconhecida como um dos factores de risco associados à disseminação da leptospirose. O tema tem motivado debates na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e sucessivos requerimentos parlamentares, através dos quais os deputados têm procurado obter esclarecimentos sobre as medidas de controlo.
Mais recentemente, em 25 de março de 2026, a Representação Parlamentar da Iniciativa Liberal, através do deputado Nuno Barata, dirigiu um requerimento ao Governo Regional pedindo informação sobre o trabalho desenvolvido pela Comissão de Gestão Integrada de Pragas – Roedores (CGIP-R) e pelos departamentos governamentais em matéria de controlo de roedores.
O requerimento recorda que o Decreto Legislativo Regional n.º 31/2010/A, de 17 de novembro, estabelece medidas de prevenção, controlo e redução da presença de roedores invasores e comensais nos Açores, e que a comissão foi criada pela Resolução do Conselho do Governo n.º 28/2011, de 4 de março, depois alterada e republicada pela Resolução do Conselho do Governo n.º 167/2014, de 17 de novembro.
A Iniciativa Liberal quis saber quantas reuniões realizou a comissão em 2023, 2024 e 2025, que atas e relatórios produziu, que entidades foram ouvidas, que medidas foram propostas para zonas urbanas, zonas rurais, explorações agrícolas, indústrias alimentares, espaços públicos e edifícios públicos, que campanhas de sensibilização foram desenvolvidas, que indicadores epidemiológicos ou ambientais são usados para monitorizar a praga e se existem levantamentos, mapas de risco ou séries estatísticas por ilha, concelho ou freguesia.
A resposta do Governo Regional mostra uma estrutura de coordenação activa, mas também revela limitações relevantes. A Comissão de Gestão Integrada de Pragas – Roedores realizou uma reunião em 2023, a 6 de dezembro, em Ponta Delgada; não teve reuniões formais em 2024; realizou uma reunião em 2025, a 8 de janeiro e voltou a reunir em 25 de fevereiro de 2026.
Na resposta, o Governo sublinha que a comissão tem funções de coordenação e articulação, envolvendo várias entidades com competências próprias, mas admite que a informação territorial e estatística sistematizada ainda depende da recolha e articulação entre entidades.
Entre as medidas discutidas ou promovidas pela comissão contam-se o reenvio do quadro de competências das entidades responsáveis pelo controlo de roedores, a sugestão de reuniões com a Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores (AMRAA), a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) e autarquias, a solicitação de parecer sobre competências de fiscalização municipal, uma maior intervenção dos delegados de saúde junto dos municípios, a integração das medidas de controlo no programa eco-freguesias, a análise da adaptação à Região do Decreto-Lei n.º 38/2021, de 31 de maio, relativo a dispositivos de captura, e o reforço da fiscalização no sector agrícola.
O Governo reconhece, contudo, constrangimentos importantes: dúvidas sobre competências e articulação institucional, insuficiências de actuação em algumas autarquias, dificuldades jurídicas e operacionais relativas a dispositivos de captura e necessidade de consolidar dados de alguns sectores, designadamente os inspectivos e municipais. Quanto a mapas de risco, relatórios por ilha, concelho ou freguesia ou séries estatísticas sobre incidência de roedores, a resposta indica que a informação actualmente sistematizada se reporta sobretudo a elementos de acompanhamento e gestão operacional, não a uma base territorial consolidada.
A monitorização referida pela comissão assenta em três tipos de informação: pedidos de dados sobre casos de leptospirose e outras doenças associadas a roedores, observações recolhidas em visitas técnicas a explorações agrícolas e informação sobre áreas declaradas e stock disponível para distribuição de rodenticida.
O esforço operacional passa também pela distribuição de rodenticidas. Em 2025, a Direção de Serviços de Agricultura e Desenvolvimento Agrário (DSADA) conduziu um concurso público para aquisição de 42,105 toneladas de rodenticida à base de brodifacume a 0,005%, em isco fresco.
O valor representa um aumento de 18,675 toneladas face às 23,430 toneladas adquiridas em 2024, ou seja, mais 79,7%. Em 2023, a então Direção de Serviços de Agricultura (DSA) refere que recebeu 18,840 toneladas adquiridas no âmbito de concurso público conduzido em 2022, não tendo realizado novo procedimento para adquirir rodenticida nesse ano.
Em São Miguel, a quantidade de rodenticida cedida ou utilizada em acções directas pela Direcção de Serviços de Agricultura foi de 11.830 quilos em 2023, subiu para 18.934 quilos em 2024 e recuou para 12.164 quilos em 2025. A evolução mostra um aumento de 60,1% entre 2023 e 2024 e uma descida de 35,8% em 2025 face ao ano anterior. Em 2025, dos 12.164 quilos, 11.565 foram cedidos às juntas de freguesia para distribuição a agricultores e 599 quilos foram utilizados em acções directas ou cedidos a outras entidades e particulares.
Por concelho, Ponta Delgada recebeu 4.515 quilos, Ribeira Grande 3.570, Vila Franca do Campo 1.080, Lagoa 900, Nordeste 795 e Povoação 705.
A formação e sensibilização completam a resposta pública. Em 2023, foram promovidas seis acções de Controlo Integrado de Roedores para operadores, com 72 formandos. Em 2024, realizaram-se três acções, com 38 formandos e em 2025, foram realizadas sete acções de formação, abrangendo 105 formandos em São Miguel, Terceira, Faial e Flores, incluindo uma ação para técnicos responsáveis. No conjunto dos três anos, foram reportadas 16 ações de formação e 215 formandos.
A dimensão ecológica do problema é mais antiga do que a própria vigilância administrativa. O estudo “From ship to shore: the genetic legacy of the invasive black rat in Atlantic Islands”, publicado em 2026 na revista Biological Invasions, e assinado por Maryane Wielewski, Lara Almeida, Sofia I. Gabriel e Raquel Vasconcelos, analisa a origem e diversidade genética do rato-preto, Rattus rattus, na Macaronésia e noutras ilhas atlânticas.
O artigo refere que a espécie terá chegado aos Açores com os primeiros povoadores e que está presente em todas as ilhas. A investigação, baseada na análise da região D-loop do ADN mitocondrial de 41 indivíduos e na comparação com sequências de bases públicas, trabalhou um universo total de 573 amostras de 28 países e identificou 106 haplótipos distribuídos por dois grandes grupos genéticos. A conclusão liga as introduções a rotas comerciais europeias e à colonização humana.
Este estudo sobre o rato-preto não é, por si só, um estudo epidemiológico sobre leptospirose nos Açores, e essa distinção é essencial. Mas ajuda a explicar porque é que a gestão de roedores em ilhas não pode ser vista apenas como uma operação pontual de desratização.
O rato-preto é descrito como espécie invasora, adaptável, com elevada capacidade de dispersão, hábitos comensais próximos dos humanos e potencial impacto ecológico e sanitário. O artigo refere expressamente que a espécie pode actuar como vector de doenças, incluindo leptospirose, e defende a necessidade de planos de gestão, monitorização regular e levantamentos em áreas protegidas.
O retrato existente da leptospirose é caracterizado por uma doença endémica, com casos humanos ainda relevantes; há estudos que apontam para taxas elevadas de infecção em roedores selvagens de São Miguel; há uma rede administrativa de controlo que distribui rodenticidas, promove formação e sensibilização; e há, ao mesmo tempo, fragilidades reconhecidas na monitorização territorial, na fiscalização, na articulação entre entidades e na consolidação de dados. A série de casos entre 2021 e 2025 mostra oscilações fortes, mas não permite concluir, por si só, que a evolução da doença esteja directamente relacionada com as quantidades de rodenticida distribuídas. Para isso, seriam necessários dados específicos por ilha, concelho, ocupação, local provável de infecção, gravidade clínica, exposição ambiental e intensidade das medidas de controlo.
A leptospirose continua, por isso, a ser uma doença de fronteira entre saúde pública, agricultura, ambiente, trabalho e poder local. O “inimigo invisível”, como lhe chamou o artigo da UAciência, não está apenas na bactéria que circula no ambiente; está também na dificuldade de transformar informação dispersa em vigilância permanente.

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OMS alerta que leptospirose pode evoluir de sintomas ligeiros para doença grave e mortal

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a leptospirose é uma doença bacteriana que afecta humanos e animais, sendo transmitida sobretudo pelo contacto directo com urina de animais infectados ou, de forma indirecta, por exposição a água, solos ou ambientes contaminados. A bactéria entra no organismo através de cortes ou abrasões na pele, ou pelas mucosas da boca, nariz e olhos; a transmissão entre pessoas é considerada rara.

A OMS sublinha que a doença ocorre em todo o mundo, mas é particularmente relevante em regiões tropicais e subtropicais com elevada pluviosidade, estando muito associada a fatores ambientais e de exposição, como águas contaminadas, cheias, lama, más condições de saneamento, presença de roedores e actividades profissionais ou recreativas em contacto com água ou solo contaminados.

Em termos clínicos, a OMS refere que a leptospirose pode provocar sintomas muito variados, como febre alta, dores de cabeça, dores musculares e vómitos, sinais que podem ser confundidos com outras doenças. Sem tratamento, pode evoluir para formas graves, incluindo lesão renal, meningite, insuficiência hepática, dificuldades respiratórias, hemorragias e morte.

A organização defende que a prevenção e o controlo devem seguir uma abordagem “Uma Só Saúde” (One Health), envolvendo saúde humana, saúde animal, ambiente, agricultura, vida selvagem, vigilância laboratorial, detecção precoce, gestão clínica e controlo de roedores. A OMS destaca ainda que sistemas fortes de vigilância são essenciais para identificar áreas prioritárias, detectar precocemente casos e orientar as medidas de controlo.

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