A Câmara do Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo (CCIAH) defendeu que o debate político regional deve centrar-se nas questões estruturais que condicionam o desenvolvimento dos Açores, alertando para os riscos associados à situação financeira da Região e à necessidade de avançar com reformas consideradas prioritárias para garantir o crescimento económico futuro.
Num texto de reflexão sobre o atual momento político açoriano, a associação empresarial considera que a realidade resultante da inexistência de maiorias absolutas na Assembleia Legislativa Regional representa uma evolução natural do sistema democrático autonómico. A CCIAH rejeita a interpretação de que os recentes posicionamentos políticos sejam consequência de “bairrismos políticos”, sustentando que o atual quadro decorre da necessidade de diálogo, negociação e construção de equilíbrios parlamentares.
Segundo a câmara de comércio, os Açores vivem uma fase inédita da sua autonomia, marcada por uma maior pluralidade política e pela exigência de entendimentos entre diferentes forças partidárias. A organização considera que esta mudança de paradigma é positiva, defendendo que contribui para uma democracia regional mais madura e participada.
Apesar disso, a CCIAH manifesta preocupação com aquilo que considera ser o afastamento das principais questões económicas e estruturais da agenda pública regional. Entre os temas identificados como prioritários estão a reabilitação e reconstrução do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, a modernização e ampliação do porto da Praia da Vitória e do aeroporto das Lajes, a criação de redundância operacional na SATA Air Açores, o processo de privatização da Azores Airlines e a resolução dos problemas persistentes nos transportes marítimos interilhas.
A associação empresarial alerta ainda para as dificuldades nas acessibilidades aéreas, tanto para passageiros como para mercadorias. De acordo com a CCIAH, a insuficiência de capacidade de transporte tem provocado constrangimentos na expedição de produtos perecíveis, como pescado e flores, afectando a competitividade das empresas regionais. Ao mesmo tempo, os residentes enfrentam dificuldades crescentes nas deslocações entre ilhas e para o continente português, sobretudo quando as viagens não são planeadas com grande antecedência.
No plano financeiro, a organização acompanha com preocupação os recentes anúncios de apoios ao combustível destinado ao sector agrícola e a redução do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) regional. A CCIAH considera que estas medidas poderão aumentar a pressão sobre um orçamento regional já fragilizado, numa conjuntura marcada pelo abrandamento da atividade turística e pela redução das receitas públicas.
A entidade empresarial alerta também para o impacto que poderá resultar do fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), associado às dificuldades de revitalização da agroindústria açoriana. A câmara refere os problemas recentemente tornados públicos em São Jorge, Pico e Faial como sinais das fragilidades que afectam um dos sectores considerados estratégicos para a economia regional.
Outro dos riscos apontados prende-se com a eventual reconversão de explorações leiteiras para a produção de carne. A CCIAH entende que esta tendência poderá gerar consequências económicas e sociais significativas, defendendo a necessidade de um debate aprofundado sobre o futuro do sector agroindustrial açoriano.
No documento, a Câmara do Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo conclui que os Açores deverão preparar-se para enfrentar uma reforma estrutural do seu modelo autonómico e financeiro, sublinhando que as decisões tomadas nos próximos anos serão determinantes para a capacidade da Região manter o crescimento económico e responder aos desafios do desenvolvimento.