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Mais enriços, menos cultura

Mais de 40% dos projetos que se candidataram ao RJAAC não receberam qualquer resposta positiva. Não posso, em consciência escrever que não receberam apoios, porque aquele regime não é suposto dar apoio, é suposto investir na Cultura, com “c” maiúsculo. A atual diretora regional deve conhecê-lo bem, porquanto integrou várias estruturas que no passado beneficiaram do regime para sobreviver e continuar a fomentar o nosso património identitário.
Mais de 40% das candidaturas, significará uma percentagem substancial de estruturas e agentes culturais que veem a vida dificultada. Estamos a falar de um conjunto de pessoas que não vão ter capacidade para dar resposta às suas ideias, mas também não vão ter como sobreviver, para continuar a alimentar a máquina da Cultura insular. A Cultura que não é produzida, nem deve de ser, pela Direção Regional, muito menos pela Secretaria. A Cultura que morrerá, no nevoeiro da teimosia de quem não quis escutar as pessoas.
Este processo foi alvo de consultas, é certo. Grupos, companhias de teatro, estruturas artísticas, filarmónicas e outros/as agentes culturais foram chamados à presença da senhora Secretária e da sua chefe de gabinete, que dizem nos corredores do Palácio Bettencourt continuar a responder ao anterior. Foram feitas reuniões. Apresentadas propostas e até soluções. Conheço-as todas. E até utilizei parte dessa reflexão na proposta de alteração ao RJAAC, que, enquanto deputada, trabalhei para ser levado à Assembleia Regional. A certa altura, até um Movimento foi constituído, para defender a Cultura e quem a faz.
Não serviu de nada. A Secretária não quis saber. As reuniões foram feitas com outras pessoas à frente da direção regional. A instabilidade do cargo também se deverá a estes temporais todos, certamente. Mas não pode ser desculpa. Os cargos técnicos são os mesmos, há já tempo suficiente. E, no entanto, ninguém quis saber. A Direção Regional da Cultura falhou, em toda a sua missão, para com os/as agentes culturais. Esta é a dura realidade.
Falhou, inclusive, no processo de acompanhamento. Criou uma plataforma. Apetrechou a sua operacionalização. E depois, quando chegaram as críticas e apontaram falhas, as chefias da DRaC encolheram os ombros e assobiaram para o lado. O resultado foi o falhanço total. Falhou a Secretária, a nova Diretora – que teria conhecimento para colocar um travão nisto tudo – e o corpo técnico da diretora de serviços e afins. Não posso, em consciência, culpar as funcionárias e os funcionários, porque esses limitam-se a cumprir ordens. Tudo o resto, falhou.
40% de projetos morreram, estruturas que vão mirrar, atividades que ficam pelo caminho, efemérides que não serão celebradas. No começo deste ano, foi público o desastre da reunião com as chefias dos serviços externos da DRaC, onde foi anunciado que não havia dinheiro para fazer o que quer que seja. Na altura, houve quem tivesse especulado que seria uma maneira de canalizar verbas para a Capital da Cultura, em Ponta Delgada. A verdade é que estes fundos não cumpriram o seu trabalho. E, enfim, da Capital da Cultura nem valerá a pena falar, porque não há palavras para a descrever, por muita literatura que se leia ou se coma. O resultado é este. Uma Cultura moribunda, há alguns anos, foi agora empurrada para a sua cova. Por mais fontes de apoio que existam, a Secretaria Regional não se pode demitir, afinal, a própria é fruto da Autonomia. A gerência está de pá na mão. Cabe-nos impedir que a enterrem.
Alexandra Manes

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