A Dignidade Humana no Centro da Medicina: o que uma Encíclica sobre Inteligência Artificial nos Ensina sobre Saúde Pública
Tema da semana: a pessoa humana não é um conjunto de dados — e a medicina não o pode esquecer
No passado dia 25 de Maio, o Papa Leão XIV publicou a sua primeira encíclica, intitulada Magnifica humanitas — «Magnífica humanidade». À primeira vista poderá parecer um documento distante da prática clínica do dia a dia: o tema é a custódia da pessoa humana no tempo da inteligência artificial. Mas, ao lê-la com atenção, percebemos que poucos textos recentes dizem tanto sobre aquilo que está verdadeiramente em jogo na medicina e na saúde pública do nosso tempo.
Aqui, escrevo semanalmente como médico de Saúde Pública. E esta semana também o faço, porque a pergunta central deste documento é exactamente a que devíamos fazer todos os dias, nos nossos serviços de saúde: estamos a colocar a tecnologia ao serviço da pessoa, ou a pessoa ao serviço da tecnologia?
A inteligência artificial entrou na medicina para ficar. Já lê radiografias, sugere diagnósticos, prevê riscos, organiza listas de espera e, cada vez mais, ajuda a decidir quem recebe o quê e quando. Isto traz oportunidades extraordinárias — mas também um risco silencioso que a encíclica nomeia com precisão: o «paradigma tecnocrático».
É a tendência para reduzir tudo — incluindo o ser humano — a um objeto que se mede, optimiza e controla. Quando a eficiência se torna a medida de todo o valor, como adverte o documento, o ser humano é tentado a considerar-se «um projecto a optimizar, ao invés de uma criatura chamada à relação». Na saúde isto tem um nome concreto: tratar o doente como um número de processo, uma cama, um código de diagnóstico, um indicador de produtividade.
O que está realmente em causa?
A encíclica usa uma imagem bíblica poderosa: a humanidade está perante a escolha entre construir uma nova «Torre de Babel» — símbolo do orgulho técnico que tudo quer dominar — ou edificar uma cidade onde as pessoas possam realmente viver. E identifica aquilo a que chama o «síndrome de Babel»: a pretensão de uma linguagem única, digital, capaz de traduzir tudo, «incluindo o mistério da pessoa, em dados e rendimentos».
É precisamente este o perigo na saúde. Quando um idoso frágil chega a um serviço de urgência, ele não é uma soma de parâmetros analíticos. É uma biografia, uma família, um medo, uma esperança. Um algoritmo pode calcular a sua probabilidade estatística de sobrevivência — mas não pode medir o valor da sua vida. Essa avaliação é, e tem de continuar a ser, profundamente humana.
O documento cita uma pergunta que São João Paulo II fazia sobre toda a tecnologia, e que devíamos afixar à entrada de todos os hospitais: será que aqui se «torna a vida do Homem mais humana, mais digna do Homem?». É esta a pergunta certa.
Porque é que isto tem interesse para a Saúde Pública?
A Saúde Pública é, por definição, a disciplina que olha para as populações — para os números, para as estatísticas, para as tendências. Trabalho com dados todos os dias, e sei o quanto eles são indispensáveis. Mas, a encíclica recorda-nos uma verdade que nenhum painel de indicadores deve fazer esquecer: por detrás de cada número há um rosto.
Quando defendi durante a Pandemia da Covid19 que toda a vida conta, ou quando defendo que Portugal precisa de um “Programa de vacinação para o idoso”, não estou apenas a defender a redução de uma estatística de internamentos. Estou a defender que aquela avó concreta passe o Natal em casa, e não num hospital. A Saúde Pública só é verdadeira quando os números servem as pessoas — e não o contrário.
O texto adverte ainda contra os «novos monopólios» de dados, onde poucos concentram a informação, o capital informático e o poder de decisão. Na saúde, isto é uma questão muito séria: a quem pertencem os nossos dados clínicos? Quem decide os critérios dos algoritmos que organizam o acesso aos cuidados de saúde? São perguntas que a saúde pública do futuro terá obrigatoriamente de responder.
Uma mensagem que ultrapassa a Fé
Pode o leitor perguntar: o que faz um documento religioso numa rubrica de Saúde Pública? A resposta é simples. A apresentação desta encíclica, no Vaticano, contou com a presença de especialistas mundiais em inteligência artificial. O debate sobre os limites éticos da tecnologia é hoje travado por cientistas, filósofos, médicos e legisladores de todas as convicções — e a Igreja, com este texto, juntou a sua voz a esse debate de forma lúcida e construtiva.
A encíclica não rejeita o progresso técnico — pelo contrário, afirma que a tecnologia «pode curar, ligar, educar, cuidar da casa comum». Reconhece que a inteligência artificial «não é um mal em si mesma». O que defende é que ela «não é neutra, porque assume o rosto de quem a concebe, a financia, a regula e a utiliza». Aplicado à medicina: a tecnologia que usamos reflecte sempre os nossos valores. Se a desenharmos apenas para poupar custos, será isso que ela fará. Se a desenharmos para servir o doente, servirá o doente.
O que podemos fazer — todos nós?
Recusar a tecnologia seria absurdo, e contrário à própria saúde pública. O que proponho é exigente: usá-la sem nunca abdicar daquilo que nos torna humanos. Em concreto:
Aos profissionais de saúde: que a inteligência artificial nos liberte tempo para o que mais importa — olhar nos olhos do doente, ouvir, tocar, explicar. A tecnologia deve devolver-nos tempo humano, e não roubá-lo.
Aos gestores e decisores: que a eficiência nunca se torne o único critério. Um sistema de saúde que só mede produtividade acaba por perder aquilo que justifica a sua existência — o cuidado da pessoa.
Aos cidadãos: que exijam transparência sobre como são usados os seus dados de saúde, e que nunca aceitem ser tratados como um número. Têm todo o direito a um rosto, a um nome e a uma escuta.
Conclusão
A medicina vive uma tensão tão antiga como a própria profissão: entre a técnica — que cura — e o cuidado — que humaniza. A inteligência artificial vai amplificar enormemente a primeira. Cabe-nos a nós garantir que não esmaga a segunda.
A encíclica termina com uma palavra de esperança: também o tempo da inteligência artificial pode tornar-se um tempo de «civilização do amor». Traduzido para a linguagem dos cuidados de saúde, isto significa algo muito simples e muito difícil ao mesmo tempo: que cada avanço tecnológico nos torne mais capazes de cuidar — e não menos capazes de amar.
Porque, no fim, a medicina não trata doenças. Trata pessoas. E nenhum algoritmo, por mais poderoso que seja, deve alguma vez fazer-nos esquecer isto.
*Médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É o Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direção da ANaMeT. Escreve semanalmente neste espaço sobre temas de Saúde Pública.
Mário Freitas*
© Diário dos Açores • Rubrica “Saúde (do) Pública(o)” • Junho de 2026