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Bairrismo

“O bairrismo não é o problema. É energia, é pertença, é o miúdo que sai do avião em Angra pensando que é alguém que não é: ridículo e humano ao mesmo tempo. O problema é quem pega nessa energia e usa como combustível para dividir, porque descobriu que é mais fácil apontar o dedo do que construir seja o que for.”

Havia algo de errado connosco desde o momento em que saímos do avião. Não sei como explicar de outra forma. Éramos miúdos de São Miguel que nunca tinham saído “sozinhos” da ilha para jogar e quando metemos os pés pela primeira vez no asfalto de Angra do Heroísmo, algo disparou no cérebro coletivo como um sinal que dizia: “somos alguém”. Não éramos.
Éramos sim um grupo de fedelhos adolescentes com equipamentos de basquetebol de marca branca, carregados de adrenalina mal gerida, com um passo de grandeza que não tinha nenhuma justificação. Fizemos o nosso passeio pré-jogo pelas ruas de Angra do Heroísmo, à procura de defeitos na cidade, como se fossemos a seleção nacional a caminho da final do mundial. Peito aberto. Passada larga.
Se eu voltasse atrás no tempo e me cruzasse comigo naquelas ruas, parava de imediato e dava-me um berro: “ei rapazinho, abaixa a bola.”
Jogámos lá o jogo contra a equipa da Terceira, e perdemos porque eles eram melhores. Os detalhes do jogo perderam-se subjugados pela memória, mas lembro-me que foi um jogo agressivo, como eram todos os jogos de todos os desportos, de todas as camadas jovens nos açores. Uma verdadeira vergonha. Após o apito final, saímos para o exterior ao encontro da equipa adversária que nos esperava para cumprimentar. Foram generosos o suficiente para nos oferecer o que pode ser descrito como uma ronda de aplausos bairristas açorianos.
O conceito é simples. Nos aplausos convencionais, uma palma bate na outra gerando aquele som característico estalido, que indica aprovação. Na versão bairrista, uma palma é substituída por um punho, e a outra por uma cabeça. Eu por ser um dos “cabecilhas” da confusão, fui aplaudido com mais panache, recebendo o meu aplauso em forma de capacete de uma mota.
Acha escandaloso, caro leitor?
Pode ter a certeza de que não havia nada de escandaloso naquilo. Era a coisa mais natural do mundo. Não nasceu connosco, não é genético nem faz parte do destino: foi aprendido, absorvido, destilado gota a gota por anos de escola, conversas, campanhas e eleições onde nos ensinam que a outra ilha, seja ela qual for, é o problema. Quando os fedelhos desportistas açorianos chegavam a qualquer pavilhão de qualquer ilha, não estavam a inventar nada. Estávamos a reproduzir com fidelidade perfeita algo que nem era contestado. Meta a carapuça se quiser.
E se pensa que me estou a colocar num pedestal moral ao contar isto, que fui vítima de alguma coisa, desengane-se desde já. Quando alguns meses mais tarde foi a vez da equipa da Terceira visitar São Miguel, foram precisas duas carrinhas da polícia para que pudessem sair do pavilhão. Não foi vingança, nem foi resposta. Foi a mesma coisa, o mesmo instinto, o mesmo ensinamento a funcionar com a mesma naturalidade. Nós éramos eles. Eles eram nós. A única diferença era a ilha debaixo dos pés. Os polícias disseram para termos calma. Com sorrisos de quem já viu a cena várias vezes, outro sinal da normalidade.
E quando não eram os jogadores eram os árbitros. Lembro-me de um jogo com uma equipa do Faial. No basquetebol existem sempre dois árbitros, e alguém “sensato” no sentido prático, definiu que em jogos regionais deveriam ser um de cada ilha das equipas em jogo. Faz sentido? Se calhar até era uma solução elegante, não fosse o facto de a certa altura o jogo já estar a ser disputado pelos árbitros. Bola a sair claramente para o lado do Faial: o árbitro de São Miguel assinalava para São Miguel. Falta clara sobre um jogador de São Miguel: ignorado pelo árbitro do Faial. E em cada decisão um espelho, com uma coerência admirável. Quem ganhou o jogo? Ninguém! Bem… talvez venceu o bairrismo, que sempre prevalece, como um cancro particularmente agressivo, com nove metástases.
Uns anos mais tarde, acontece que o principal arquiteto das boas-vindas que recebemos na Terceira e o principal arquiteto das boas-vindas que devolvemos em São Miguel encontraram-se no mesmo jantar de estudantes açorianos no Porto. Vale a pena parar aqui um segundo para explicar este evento. É um grupo de jovens açorianos que se junta anualmente no Porto, longe de casa, unidos pela separação da nossa terra. Não há ilhas à mesa. Há açorianos. A distância faz-nos perceber esse milagre com facilidade.
Reconhecemo-nos de imediato. O primeiro olhar que trocámos indiciava uma noite pesada.
Mas aquela noite era de açorianos. Sem pavilhão, sem ninguém a guiar-nos a mão para a bofetada. E quando a doutrina bairrista não guia a mão à bofetada, guia-a ao aperto de mão. E momentos mais tarde, foi mesmo isso que aconteceu. Fomos ao encontro um do outro. Estendemos a mão ao mesmo tempo e pedimos desculpa. Desculpa pela estupidez, desculpa por algo que em retrospetiva não fazia sentido nenhum.
Talvez esteja aqui a lição. O bairrismo não é o problema. É energia, é pertença, é o miúdo que sai do avião em Angra pensando que é alguém que não é: ridículo e humano ao mesmo tempo. O problema é quem pega nessa energia e usa como combustível para dividir, porque descobriu que é mais fácil apontar o dedo do que construir seja o que for. Que arrastar alguém pela escada abaixo dá menos trabalho do que subir um degrau.
Dois fedelhos que se partiram à pancadaria num campeonato regional conseguiram chegar a esta conclusão sozinhos, numa noite no Porto, sem que ninguém lhes dissesse o que fazer.
Imagino o que seria possível se quem nos representa percebesse que os Açores têm de vir antes da ilha.

Philip San-Bento Pontes

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