Como foi devidamente noticiado, pela Comunicação Social, em especial nos Jornais, em agosto de 2025, foi publicado um livro coletivo, coordenado por mim, intitulado Educação, Didáticas e Formação de Professores. Complexidades. Literacias e Interdisciplinaridade(s), (Edições Piaget), no qual também publiquei dois artigos, um deles intitulado: Edgar Morin e Inter-Poli-Disciplinaridade: Complexidade, Literacias e Conceções de Educação. De alguma forma, o artigo referenciado dá uma Visão de conjunto,- sem prejuízo do Rigor e a Análise -, em sintonia, aliás, com o Paradigma do “Pensamento Complexo” e da Complexidade, que Edgar Morin levou toda uma vida ate matizar e praticar, até por conhecer, por dentro, os saberes fragmentados desde a Educação Pré-Escolar, passando pelo Ensino Secundário, até à Universidade, em França, mas que se aplica em muitos países, dada a tradição epistemológica e curricular de organizar o saber ensinável em disciplinas, muitas vezes justa-postas, sem interconexão. Também em Portugal, – pelo menos de modo explícito – desde a última Reforma Educativa e Curricular (1986/1989), no seguimento da publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE), (1986) – talvez a lei com mais tempo em vigor, na área da Educação, em Portugal, embora tenha sido sujeita a três alterações “cirúrgicas” (de que, agora, não nos iremos ocupar). O que aqui queremos evidenciar é que já lá vão mais de trinta anos e de sucessivas reformas educativas e curriculares, e revisões curriculares, sempre tem sido vincada, em termos teóricos, a importância práticada interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e transversalidade dos saberes. Mas como se consegue as práticas interdisciplinares? Se o currículo estiver organizado nesse sentido e se, – e esse é o fator determinante -, o Professor tiver uma prática interdisciplinar, que exige ter uma mente aberta, ser culto e conseguir ver a interligação entre os fenómenos e os conhecimentos, que, na ordem da vivência, vê-se no caso das crianças, e na vida de todos nós, as realidades, dão-se como um todo, e, depois, são analisadas e compreendidas nas suas diferentes partes. Depois de muito pensamos e estudarmos a Figura e Obra de Edgar Morin, mas sempre em aberto, torna-se claro de que o Todo e as partes não se excluem, mas exigem uma compreensão geral e global. Bem sabemos que há vários estilos cognitivos, mas o mundo por nós vivido, aquele mundo, em concreto, dá-se na vivência do seu Todo. As vivências e experiências precedem as cognições, até podem haver uma injunção, o que leva, ao que há muito designo por cognivivência, já que o pensar exige sempre um conteúdo, uma vivência, exterior, interior e em interação. Husserl afirmou, para sempre: “Toda a consciência é consciência de …”. Não só permite-nos ver, por intuição, o ser constitutivo da consciência que é, por inerência, abertura, uma intencionalidade, em direção aos femónenos exteriores que se dão como vivências interiores. Fernando Pessoa afirma: “Tudo o que em mim sente está pensado”, talvez sem saber que estava a fazer uma formulação típica da Fenomenologia, tal como Vergílio Ferreira, muito bem tematiza, na esteira dos Grandes Fenomenólogos.
Se percorrermos todos os documentos orientadores da Educação Pré-Escolar e para o Ensino Secundário, há uma valoração e valorização da experiência e da vivência, um pouco na linha, embora não explicitada, de John Dewey. Ao contrário, na epistemologia de Bachelard “não há verdades primeiras, mas erros primeiros”. Talvez, muitas vezes, não sabemos onde começa uma perspetiva epistemológica e começa a outra. Afirma Gaston Bachelard no seu livro O Novo Espírito Científico, ao falar de Heisenberg: “Em microfísica, não há portanto método de observação sem ação dos processos do método. Há pois uma interferência essencial do método e do objeto. (Gaston Bachelard, 1986, Trad. Edições 70, p. 87).
Edgar Morin tem uma vasta Obra, ao longo de uma vida, de grande longevidade, faleceu, aos 104 anos de Idade, no dia 29 de maio deste ano de 2029. Leio, estudo, investigo, e dou a ler e a investigar a vasta Obra de Edgar Morin, seguindo, em grande parte, o seu Método, Metodologia(s) e o seu Conceito, amplo, de Complexidade, nucleares para fundamentar uma Didática Problematológica, que se exige a um nível Universitário, e não só. Começa a haver produção científico-pedagógica, de referência, para isso.
Neste artigo, teremos em conta três obras do Pensador – assim gostava de ser chamado –do Grande Pensador Edgar Morin. Teremos em conta – a retomar – os seguintes três livros, entre muitas outras dezenas: Repensar a Reforma. Reformar o Pensamento. A Cabeça Bem Feita (1999, Seuil, trad. 2002, por Ana Paula Viveiros, pelas Edições Piaget), Os Sete Saberes Para a Educação do Futuro. 1999, UNESCO, trad. 2002, por Ana Paula Viveiros, pelas Edições Piaget). Também teremos em conta o livro-entrevista, O Meu Caminho (2009), que constitui um livro fundamental para uma exegese eapuramento concetual junto de Edgar Morin, Autor de uma Obra Imensa. O Próprio livro O Meu Caminho abre-nos para vários horizontes, filões e dimensões da vida de Edgar Morin, até essa data, isto é, 2008, trad. em 2009, mas não é um livro terminal, é um livro que recolhe e projeta ideias, conceitos, autores, filósofos, políticos, realidades múltiplas, compreensíveis em si mesmas, mas em interação, em ligação de significação e de sentido. No Livro O Meu Caminho são retomados, aprofundados e relançados conceitos que nos importa analisar, com a perícia e a maior profundidade, complexidade e simplicidade possível. Se bem fizermos uma Reflexão de conhecimento sobre o que nos é dado viver, sabemos que o que é simples é complexo e o que é complexo também é simples, se houver abertura para combinar os vários elementos e dimensões em interconexão. Ora, em Educação, e em todas as áreas do Saber e Conhecimento, não podemos prescindir do Pensamento, mesmo que ele esteja implícito numa prática vivida. Não podemos deixar de pensar, embora a fobia ao pensamento torna-se num grave prejuízo para a educação em todos os níveis de ensino, incluindo o Ensino Universitário, exigência tanto maior quanto mais somos confrontados em uso e reflexão com a IA. E quanto ainda estamos longe uso integral da inteligência natural, que, com fundamentos e conhecimentos sólidos, faz vacilar muitas respostas da IA. Um dos Desafios do Ensino no que respeita aos alunos e aos professores é desenvolver uma educação inteligente, com inteligência, e em Complexidade, na perspetiva de Edgar Morin. Portanto, sem Pensamento não há educação, não há sistema de educação, seja onde for, sem Pensamento, e a sua Produção, não há Universidade digna desse Estatuto, que não se improvisa nem se deixa embalar em modas, coisa diferente é fazer um uso crítico, reflexivo e problematológico da Inteligência Artificial. Eu próprio, com metodologias e interligações complexas vou aferindo, – até como Professor e Investigador – até onde é possível, até agora, as vantagens, em respostas mais lineares e as dificuldades e impasses face a perguntas complexas, das quais estava ciente em termos de alto índice de resposta expectável, que a IA, não deu nem à primeira nem à segunda. Mas uma coisa me pareceu importante: formular boas perguntas com informações suscetíveis de se tornarem em conhecimentos, aí reside a dificuldade. De contrário seria uma mera obtenção de dados, sem complexidade. Portanto, “O Pensamento Complexo” e o Paradigma da Complexidade de Edgar Morin também será útil, em Educação, também no que diz respeito às vantagens e limites da IA, em uso.
Face à constatação do sistema escolar fragmentado, afirma Edgar Morin, sem excluir, pelo contrário, o “eu”, num epistemologia abrangente: “Eu partia de uma constatação: nas nossas escolas, nas nossas universidades ensinam-nos a conhecer coisas, mas elas estão separadas, isoladas. Não nos ensinam a religa-las, logo a defrontar os nossos problemas fundamentais, isoladas. Eu devia elaborar um pensamento complexo, isto é, uma maneira de pensar não apenas as ciências, não apenas a filosofia, não apenas a política, mas também a vida quotidiana, aquela de cada um de nós”. (Edgar Morin, 2009, O Meu Caminho, p. 158).
Tudo começa com o Pensamento e Linguagem. Por isso Edgar Morin começou a trabalhar, a fundo, o livro, Reformar a Reforma. Reformar o Pensamento. A Cabeça bem Feita. E todo o Pensamento, como toda a Educação e Cultura, visam, devem visar, conhecer e compreender a “condição humana”. Escreve Edgar Morin: “em toda a grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, existe um pensamento profundo sobre a condição humana.” (Edgar Morin, 2002, p. 48). E mais adiante explícita a sua Referência à filosofia, e afirma: “Por fim, a filosofia, se reatar com a sua vocação reflexiva sobre todos os aspetos do saber e dos conhecimentos, poderia, deveria fazer convergir a pluralidade das suas luminosidade sobre a condição humana. “(Edgar Morin, 2002, p. 48). Ora, o livro, já citado, de Edgar Morin, explicitamente sobre a Educação, é explicado, com o interesse a partir do seu livro-entrevista O Meu Caminho, no qual responde ao essencial da pergunta: “(…) o seu desejo principal, disse-me logo, é o de concretizar o seu projeto de reforma do pensamento numa reforma do ensino.(…) (Djénane Kareh Tager), ao que Edgar Morin responde: “Estava consciente desta necessidade enquanto escrevia os volumes de O Método. Esta obra desembocava necessariamente numa reforma do pensamento, a qual necessitava, para se realizar, de uma reforma de ensino.” (Edgar Morin, 2009, O Meu Caminho, p, 207). Mais adiante faz um esclarecimento, da maior importância, na primeira pessoa: “Pouco depois, em 1999, no quadro da prospetiva sobre a Educação, a UNESCO pediu-me um texto de envergadura universal a fim de se introduzir nos programas das escolas, liceus e universidades o conhecimento de problemas fundamentais que são totalmente ignorados: os riscos de erros e de ilusões de conhecimento, a identidade humana, a era planetária, a compreensão humana, o afrontamento das incertezas, a ética da humanidade. Este relatório foi editado em livro, Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro, e traduzido em várias línguas. (Edgar Morin, 1999, UNESCO, 2009, Trd. Ana Paula Viveiros, Edições Piaget.).
Edgar Morin é referido na página 5 do Documento Orientador da Política Educativa e Curricular, – Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória -, no Prefácio de Guilherme D’Oliveira Martins, cujo documento, no seu todo, tem uma Autoria Coletiva, (não é exato atribuí-lo, em exclusivo, a Guilherme D’Oliveira Martins), [Cf. Ficha Técnica], apesar da sua função central, até pelo Conhecimento da Obra do Autor, como outros, e da Amizade por Edgar Morin. Guilherme D’Oliveira Martins, faz, e bem, referência aos setes pilares para a Educação do Futuro, que iremos retomar, noutros textos e contextos de Significação e Sentido do Pensamento, da Complexidade, da Filosofia da Educação, para uma melhor Educação e Cultura. E tudo isso nos vai abrindo, Horizontes amplos, também para a Formação de Educadores/as e Professores/as na Contemporaneidade.Pensar com Edgar Morin é a Democracia que se revigora e fortalece. Edgar Morin põe exigências de Complexidade, Educação e Cultura. Com Exigência, é possível a meritocracia para todos, em todos os níveis de ensino, desde logo as Universidades. A Demagogia, pelo contrário, seja onde for, é perigosíssima, é um vírus mortífero e fatal.
É Urgente um salto qualitativo – inadiável, com todos, e para todos -, na Educação dos e nos Açores e em Portugal, no seu Todo.
Emanuel Oliveira Medeiros*
Professor Universitário
*Doutorado e Agregado em Educação, Especialidade de Filosofia da Educação
Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas