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Ser Portugal aqui

Esta é a semana de ser Portugal aqui, nestas pequenas nove ilhas atlânticas, dispersas e num lento mas constante processo de despovoamento que passa ao lado dos programas de desenvolvimento.
Ser Portugal aqui, não é fácil. O país dificilmente compreende os constrangimentos da pequenez do nosso território e também não aceita que a nossa gente tenha os mesmos direitos de um lisboeta ou de um portuense. Nessas pquenas metrópoles os protestos e reivindicações ganham uma dimensão dada pelos numerosos meios de comuniação, nomeadamente os canais de televisão. Os governantes são diretamente questionados, assumem compromissos e os problemas tarde ou cedo são resolvidos.
Aqui, neste Portugal pequenino, as nossas vozes não chegam ao céu e são esquecidas pelos detentores do poder. Não contamos para as vitórias em eleições, e raramente nos opomos aos poderes políticos, económicos, militares e até religiosos.
Na nossa história de quase seiscentos anos, vivemos sempre dependentes dos paços reais. E quando em regimes republicanos, ditatoriais e democráticos, ninguém nos valeu quando os elementos nos foram adversos seja por tempestades, seja por vulcões e terramotos. Nesses tempos que os compendios da história portuguesa desconhecem, fomos carne para canhão. No século XVIII quando os vulcões assolaram algumas ilhas e a terra foi madrasta o Rei recrutou nos Açores, voluntaria e involuntariamente, mancebos para defender as fronteiras do Brasil, no Rio da Prata. Mas quando centenas de casais pobres solicitaram ao Rei que lhes pagasse as passagens para Terras de Vera Cruz – foi um caro custo e uma dificudade imensa para esse destino migratório.
Mais tarde, sempre com Portugal no coração e um alheamento incompreensivel dos mandantes de Lisboa, os açorianos, para fugir à fome, embarcaram de salto para a América do Norte, em baleeiras de New Bedford, lançaram-se terra dentro à procura do ouro da Califórnia e também ajudaram a formar o novo país e a construir a sociedade mais próspera do mundo.
Lisboa esteve sempre, sempre ausente e distante e raramente soube apreciar o que é ser Portugal aqui e levá-lo, com orgulho além fronteiras, preservar a lingua e cultura e afirmar a honra da sua gente.
Ser Portugal aqui, hoje, ainda é mais difícil. Os mandantes portugueses, durante 50 anos de autonomia regional convenceram-se de que temos de tratar de nós como se fossemos independentes. O estado desligou-se dos seus deveres de soberania e só se preocupa em acautelar a enorme superficie territorial que o arquipelago lhe dá com a Zona Económica Exclusiva ou seja um milhão de quilómetros quadrados a mais no atlântico Norte.
Impropriamente durante 50 anos, fomos considerados ilhas adjacentes, mas nunca estivemos tão longe da Pátria no processo de desenvolvimento.
É esse sindrome que ainda hoje carregamos nas nossas vidas: nos transportes, na economia, na educação, na saúde…em todos os setores da atividade humana.
Somos Portugal aqui, por vontade e convicção. Mas a pátria tem de corresponder com solidariedade para que não nos sintamos portugueses de segunda.
Portugal é a nossa matriz originária, mas as ilhas batizaram a nossa identidade e construiram uma história que enobrece o “Peito ilustre lusitano como afirmou Camões.
Celebrar O Dia de Portugal nos Açores é um orgulho para os açorianos e é-o também para todos os nossos emigrantes espalhados pelas quatro partidas do mundo.
Oxalá os responsáveis deste país alterem comportamentos e entendam que a universalidade da pátria portuguesa exige a solidariedade entre todos nós, o que significa igualdade de oportunidades e satisfação de direitos.
A começar pelos menos desenvolvidos – estádio onde os Açores, infelizmente, se mantém.
José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
http://escritemdia.blogspot.com

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