“O prazer da aprendizagem na infância deve ser movido pela curiosidade, não por algoritmos”
Nara Yao é uma jovem das Flores que vive na Irlanda, onde instalou a sua própria empresa. Deixando os Açores aos 18 anos para estudar Física, no continente, tendo mais tarde emigrado para a Irlanda, com um percurso profissional de 13 anos na área de Garantia de Qualidade de Software, Nara Yao ganhou uma compreensão profunda da tecnologia e, acima de tudo, dos limites que ela deve ter. O seu entendimento é que “a tecnologia tem o seu lugar, mas para crianças entre os 2 e os 5 anos, o melhor ‘sistema operativo’ é uma mente curiosa, não um tablet”.
Quando olha para o seu percurso, dos Açores para a Irlanda, o que sente que levou consigo dessas raízes?
Os Açores ensinaram-me algo muito simples: tudo o que queremos ver crescer precisa de raízes fortes. Cresci com essa ideia de base, de comunidade e de tempo.
Quando me tornei mãe, percebi que queria aplicar a mesma filosofia ao desenvolvimento dos meus filhos. Não queria apenas entretê-los; queria ajudá-los a construir fundamentos para a vida.
Trabalhou mais de uma década em Garantia de Qualidade de Software. Isso mudou a forma como vê a tecnologia?
Sem dúvida. Eu conheço a tecnologia por dentro. Sei o potencial que tem, mas também sei como é fácil transformar uma ferramenta útil numa presença dominante.
A tecnologia tem o seu lugar, mas para crianças entre os 2 e os 5 anos o melhor “sistema operativo” continua a ser uma mente curiosa, não um tablet.
Foi o nascimento dos seus gémeos que despertou esta mudança?
Sim. Quando eles nasceram comecei a procurar actividades que estimulassem o cérebro de forma activa. Queria que manipulassem objectos, resolvessem problemas, fizessem perguntas.
Rapidamente percebi que muitos materiais disponíveis eram demasiado rígidos: “isto é para os 3 anos”, “isto é para os 4”. Mas as crianças não evoluem por etiquetas. Uma pode ser muito forte em lógica e ainda estar a desenvolver a motricidade fina. Outra pode adorar linguagem e precisar de mais tempo noutras áreas. Senti falta de algo que respeitasse o ritmo individual.
E foi daí que nasceu a Thriving Berries?
Exactamente. Primeiro criei actividades para os meus filhos. Depois comecei a organizar tudo de forma mais estruturada e percebi que outros pais enfrentavam a mesma dificuldade: encontrar recursos simples, eficazes e sem excesso de estímulos. Assim nasceu a Thriving Berries.
O projecto é descrito como “movido pela curiosidade, não por algoritmos”. O que isso significa na prática?
Significa que queremos que a criança seja autora do próprio pensamento. Hoje há muitas experiências desenhadas para capturar atenção através de estímulos rápidos. Nós fazemos o contrário: reduzimos o ruído visual, criamos actividades claras e deixamos espaço para a criança pensar. Não é uma aplicação. Os pais recebem actividades por email, imprimem apenas o que precisam e sentam-se com os filhos para brincar, conversar e descobrir.
O design minimalista é uma escolha deliberada?
Muito deliberada. Muitos materiais infantis modernos estão cheios de cores, personagens e elementos decorativos. O cérebro da criança acaba por dividir a atenção. Nós removemos o que é desnecessário para que ela consiga focar-se na tarefa. É quase como limpar a mesa antes de começar a trabalhar.
O que diferencia os vossos pacotes de actividades?
Cada actividade existe em três níveis de competência. Assim, a criança pode avançar naquilo em que está pronta sem sentir frustração. Não há comparação, não há pressão. Há progressão natural. E incluímos sempre uma explicação para os pais: por que esta actividade é importante, que competência está a ser trabalhada e como podem expandi-la em casa.
Que competências considera mais importantes nesta fase da infância?
Foco, pensamento crítico, resolução de problemas e confiança. Antes de aprender conteúdos académicos, a criança precisa de aprender a pensar, a observar, a persistir e a explicar as suas ideias. Essas competências acompanham-na durante toda a vida.
Há também uma dimensão familiar no projecto, certo?
Sim. Quero que as actividades sejam um convite à ligação. Não é “entregar uma ficha à criança e afastar-se”. É sentar-se ao lado dela, perguntar “o que achas?”, rir, experimentar. Incluímos puzzles, experiências científicas simples e até sugestões de culinária. Muitas vezes os pais dizem que o mais valioso é terem um ponto de partida para passar tempo de qualidade juntos.
A empresa está sedeada na Irlanda, mas o coração continua nos Açores?
Sempre. Sou açoriana e isso faz parte da identidade do projecto.
A empresa opera principalmente em inglês neste momento, mas estamos a abrir uma lista de espera para a edição em português porque quero muito que estes recursos cheguem às famílias açorianas e portuguesas.
O que gostaria que os pais açorianos levassem desta conversa?
Que não precisam de transformar a infância numa corrida. As crianças merecem tempo para explorar, brincar, fazer perguntas e pensar. Se conseguirmos ajudá-las a desenvolver curiosidade, foco e confiança, já lhes demos uma base extraordinária.
O objectivo não é afastar a tecnologia do mundo delas para sempre; é garantir que, antes de entrarem nesse mundo, sabem usar a própria mente.
E se tivesse de resumir a missão da Thriving Berries numa frase?
Dar às crianças a liberdade de pensar, brincar e explicar as suas ideias — movidas pela curiosidade, não por algoritmos.
Rui Leite Melo
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