Em 31 de março, no IAC, ilha Terceira integrado nas atividades do 41.º Colóquio da Lusofonia, ANABELA B FREITAS E DORA GAGO apresentaram um novo livro dedicado a Rodrigo Leal de Carvalho, recentemente falecido. O desafio para o fazerem fora lançado em Vila do Porto em 2024 no 39.º colóquio e a editora letras Levadas o deu à estampa agora.
Este foi o texto de apresentação da obra e autoras.
Nascido na Praia da Vitória, Terceira, Açores, a 20 de novembro de 1932, Rodrigo Leal de Carvalho, residiu em Macau, durante quarenta anos, entre 1959 e 1999.Aí, como magistrado, desempenhou diversas funções, tendo sido Procurador da República, Procurador-Geral Adjunto em Macau, Presidente do Tribunal de Contas e juiz-conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça. Em 1999, com a entrega de Macau à República Popular da China, aposentou-se e regressou à sua terra natal. Em 1998 recebeu a medalha de ouro do Governo de Macau.
Chegamos a Macau com uns meses de diferença: ele em 1976, como Procurador da República, e eu em janeiro 1977. Quando o conheci, a sua faceta de romancista ainda não havia despontado, eepisodicamente cruzamo-nos no Clube Militar, onde ia esporadicamente.
Dora Gago foi professora da Universidade de Macaude 2012 a 2022 e, antes deste livro, publicou uma extensa obra sobre Macau e Leal de Carvalho.
Anabela Freitas, a outra coautora, deu-nos a conhecer a obra deste autor precisamente no 15.º colóquio que realizamos em Macau, e acabei por ler a maioria dos livros de Leal de Carvalho publicados.
Pelo tempo que viveu no Extremo Oriente, pode-se dizer que o seu orientalismo se compara ao de outros autores, como o de Venceslau de Moraes. Rodrigo Carvalho é um autor da diáspora que vagueou pelo mundo, experimentou a condição de deslocado — aliás, temática transversal às suas obras – e sentiu, em Macau, um porto de abrigo: “Macau encantou-me. Foi um amor à primeira vista e que ainda perdura ao fim de trinta e cinco anos…” (A IV Cruzada, p. 23).
A sua primeira obra, intitulada “Réquiem por Irina Ostrakoff”, foi publicada em janeiro de 1993, pela editora Livros do Oriente.O Réquiem teve tradução para o chinês, por iniciativa do Instituto Português do Oriente, que lhe atribuiu também o prémio Camilo Pessanha de 1992, bem como a publicação de uma segunda edição.
Em 1994, publica “Os construtores do Império”, cuja ação se desenrola em Macau, Moçambique e Portugal, após a Segunda Guerra Mundial. Em 1996, a “IV Cruzada” centra-se na história de dois refugiados chineses e nas redes locais de crime organizado.A obra mais extensa é “Ao Serviço de sua Majestade”,de 1996. Começa em Macau e terminanas Bermudas, passando pela Grã-Bretanha, pela África e pelos Estados Unidos. E “O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres” datado de 1999.
Há outros títulos mais recentes, após a sua saída de Macau, como “A Mãe” (2000),“O Romance de Yolanda” (2005) e, por último, “As Rosas Brancas de Surrey” (2007).
O escritor evidencia a sua capacidade narrativa e o seu vigor criativo, num discurso caracterizado por grande frescura e perpassado por fina ironia.O autor, recentemente falecido, foca precisamentena múltipla condição dos exilados, refugiados e deslocados que habita as suas obras, e cujo porto último de abrigo acaba sempre por ser Macau. A condição da mulher macaense foi outro dos temas centrais deste autor.A vida em Macau era um cadinho de povos, culturas, miscigenação num Oriente exótico, sedutor, mas problemático. Resumia-se a três círculos excêntricos que se tocavam no infinito. Desses, o médio interior era composto por macaenses, sem identidade definida.
Leal de Carvalho escreve:
«A cidade no passado abrigou russos brancos, chineses, indonésios, vietnamitas, filipinos e portugueses perseguidos pelos credores, mulheres ciumentas, ideias políticas, espírito de aventura e ambição pelo lucro fácil, refúgio às convulsões político-sociais da região e à loucura da guerra que lançara o mundo em fogo, evasão a problemas sociais ou familiares, ou inútil fuga aos demónios de cada um» (in Leal de Carvalho, Réquiem para Irina Ostrakoff p. 5).
Fala do convívio interracial com reflexos na moral e nos valores da comunidade:
«A moral social local, da comunidade macaense e mais da chinesa, consentia a liberal sofisticação de costumes, manifestação viva da interpenetração dos valores culturais da região… fruto da emigração de lindas mulheres, que confundiam os olhares dos latinos, sobretudo as de Xangai. Alguns dos costumes orientais eram bem sedutores para os machos lusos… a milenária cultura chinesa, mais sábia, realista, admitia, na harmoniosa estrutura familiar e sob o austero Império da Primeira Esposa, um número indeterminado de concubinas e até “bichas,” solução cómoda e prática» (in Leal de Carvalho Os construtores do Império, p. 137).
Havia um círculo exterior menor, dos portugueses, por séculos, exclusivamente constituído pelos que iam e vinham com cada governo, a que se acrescentava, aqui e ali, o elemento desgarrado da tropa ou da polícia que ficara, constituindo família, deixando-se miscigenar e assimilar pelos costumes locais. Havia estrangeiros que se deixaram encantar, aprendendo as línguas e os costumes locais e integrando-se à família lusófona, como é amplamente descrito na obra do citado juiz açoriano Rodrigo Leal de Carvalho.
Por último, um enorme círculo exterior, com motor próprio na economia; os chineses, dependentes de Pequim, aonde viajavam frequentemente, de modo a receber instruções e contar os desvarios do português encarregue nominalmente de governar. Decidiam como, porquê, onde e quando. Davam a entender ao governo a insatisfação quando exorbitava ou quando a administração portuguesa apresentava uma “ideia brilhante” sem consultar os governantes. Sempre mandaram; eram eles quem determinavam como se comportariam os súbditos, que representavam mais de 96% da população.
O autor, em algumas instâncias, parafraseia ideias minhas nunca expressas nem escritas, tais como a atração pela mulher oriental que sobreleva todo e qualquer interesse; aliada à vontade de descobrir novos mundos em corpos de pele sedosa e sensual, o que, no prazer hedonista, sempre me conquistou. Cito Leal de Carvalho:
«A interpenetração dos valores culturais, a influência no meio macaísta dos usos e costumes que instituíra na Colónia o concubinato com o reconhecimento social e legal…
O temperamento fácil das gentes, as noites quentes e sensuais dos Trópicos tinham adoçado a rigidez de fachada vitoriana e marialva, da moral sexual de importação lusíada e conferido à sociedade macaísta uma tolerância e sofisticação e a admissibilidade de pequenas infrações sexuais, aventuras pré-maritais com ou sem sequência matrimonial, recatados adultérios» (in O Senhor Conde p. 214).
«Devia a mulher ser sempre nova, esguia, bem torneada, na cabaia muito justa e brilhante, colarinho duro e alto, e grandes aberturas laterais até meia-coxa» (O Senhor Conde, p. 52).
“Outros sentiam o mesmo fascínio por aquelas mulheres… dançavam bem, estavam perfumadas, tinham peles perfeitas, corpos esculturais, feições enigmáticas, escondendo, sabe-se lá, que emoções ou sentimentos” (O Senhor Conde, p. 53).
“É ressaltada a beleza serena e enigmática da mulher oriental, a sua sensualidade e a suavidade da pele, uma complexão de pétala de rosa” (in Ao Serviço de Sua Majestade, p. 602).
“A resignação ancestral da mulher oriental, habituada à natureza traiçoeira dos homens em geral e dos europeus em particular” (Ao Serviço de Sua Majestade: 323)
Fizeram-se muitos casamentos com reinóis, dos quais provieram os macaenses. As macaenses acabaram por assumir um lugar de destaque na sociedade.
Tudo isto para vos dizer que evitei falar sobre a abordagem que as autoras adotaram nesta compilação, mas tive meramente o intuito de despertar o vosso interesse não só por esta obra, mas também pelos vários livros de Rodrigo Leal de Carvalho, que merecem leitura atenta e permitem compreender melhor o cadinho de culturas que é Macau.
Chrys Chrystello*
*Jornalista, Membro honorário Vitalício nº 297713
MEEA-AJA (IFJ)