Antes da morte de José Saramago, em 2010, eu não lera nenhum dos seus livros na íntegra. A primeira impressão que tive do seu estilo, quando folheei algumas crónicas de um dos seus primeiros volumes antes de emigrar, deixou-me desconfortável. Faltava-me então o conhecimento que a minha posterior formação académica me viria a conceder. A distância, a idade e a leitura alteram-nos a perceção; no meu caso, mudaram também a disponibilidade para compreender um escritor que exige mais do que oferece.
Em 2013, encontrei num alfarrabista de Pleasant Beach, na Nova Jérsia, uma cópia em mau estado do Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1985. Aquele exemplar perdido num país distante parecia carregar a insistência silenciosa que alguns livros exercem sobre nós quando estamos finalmente dispostos a investigá-los. Há livros que nos esperam; este esperou-me ali.
A prosa de Saramago é frequentemente descrita como uma corrente de pensamento que resiste às interrupções mecânicas da pontuação convencional — característica que não constitui excentricidade estilística nem provocação gratuita. Representa, antes, uma conceção psicológica da leitura e uma forma discreta de resistência contra fronteiras artificiais impostas à comunicação humana.
Saramago desconfiava da ideia de que escrever consiste em submeter o pensamento à geometria rígida da gramática. O mundo não fala em períodos cuidadosamente compartimentados, como as pessoas não pensam em blocos sintáticos organizados. A conversa interrompe-se, retoma-se, sobrepõe-se, hesita, contradiz-se. A escrita, entendida desta forma, não deveria esconder esta dinâmica sob uma superfície excessivamente disciplinada.
Esta intuição conduziu-o ao estilo que se tornou uma das suas marcas mais reconhecíveis: frases extensas, diálogos sem aspas, pontuação reduzida ao essencial e um fluxo narrativo contínuo onde a voz do narrador e das personagens circula quase sem barreiras. Nos livros que li desde então, a mudança de interlocutor é indicada apenas por uma letra maiúscula, obrigando o leitor a escutar o texto mais do que a decifrá-lo visualmente. É uma escrita insubmissa que pede atenção; presença, sem automatismo.
O método de Saramago não surgiu por acaso. Tradutores e comentadores próximos da sua obra observaram que ele procurava aproximar a escrita do ritmo da oralidade portuguesa: criou uma “narrativa contínua”, sustentada por pausas mais próximas da respiração do que da sintaxe escolar. Os leitores veem naquele gesto uma fidelidade ao modo como falamos: com desvios e hesitações que nascem mais da experiência do que da gramática.
A frase longa em Saramago não é um excesso ornamental. Funciona como dispositivo psicológico. Obriga o leitor a abandonar hábitos automáticos de leitura e a entrar num estado diferente de atenção. Em vez de consumir informação segmentada, o leitor passa a acompanhar o movimento da consciência. A vírgula deixa de ser apenas uma norma e transforma-se num pulso. O texto deixa de avançar por compartimentos e segue por continuidade, como se a narrativa respirasse.
Do ponto de vista cognitivo, esta escolha é interessante. A investigação contemporânea mostra que os sinais de pontuação influenciam fortemente a forma como segmentamos o significado e organizamos o processamento linguístico. A ausência ou alteração desses sinais obriga o cérebro a reconstruir relações entre ideias que normalmente seriam fornecidas pela página. Saramago parece ter intuído, literariamente, aquilo que a ciência descreve: ler não é apenas receber frases, mas participar na construção ativa do sentido.
Há também uma dimensão ética nesta harmonia entre forma e intenção. Saramago recusava reduzir a comunicação a uma transmissão burocrática de mensagens. A sua pontuação resiste à clareza entendida como imposição que se observa, por exemplo, no texto histórico ou no manual científico. Em vez de entregar significado pronto a consumir, convida o leitor para um espaço partilhado de responsabilidade interpretativa. Ler torna-se um ato de colaboração, quase um pacto silencioso entre escritor e leitor.
Neste sentido, a sua rebelião não foi contra a pontuação em si, mas contra a ideia de que a pontuação deve disciplinar o pensamento antes de ele existir. Saramago usou-a para revelar uma verdade funda da linguagem: pensamos em movimentos, não em caixas; o diálogo raramente possui fronteiras nítidas; o significado nasce do percurso e não apenas do destino. Escrevia com a consciência de quem sabe que a simplicidade é uma forma elevada de rigor.
O Prémio Nobel em 1998 não o premiava por simples singularidade formal. Reconhecia uma obra que, através da imaginação, da ironia e de uma voz narrativa inconfundível, abriu um espaço novo para a literatura. A pontuação de Saramago foi decerto rebelião, mas talvez — e sobretudo — fidelidade ao modo irregular, respirado e profundamente humano como a mente pensa e comunica, sem a disciplina que o conhecimento estruturado impõe. Talvez por isso a literatura infantil também o impressionasse e lhe falasse porque nela a linguagem ainda respira antes de ser domesticada.
Manuel Leal