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O centralismo em foco: versão regional e nacional

Com a saída do que restava da escala aérea da Ryanair por estas ilhas, caiu o Carmo e a Trindade entre as hostes da Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, em particular no respeitante às áreas da hotelaria e restauração e entre os principais beneficiários da descontrolada profusão do alojamento local em S. Miguel. Quaisquer destas atividades têm sido amplamente subsidiadas direta e indiretamente com dinheiros públicos, e bem pouco escrutinadas pelo seu uso devido ou indevido, com certos partidos (não só o Chega) a mostrarem-se pouco preocupados com isso, em contraste com a imensa inquietação que revelam perante o presumido descontrolo dos apoios sociais atribuídos aos mais pobres e desfavorecidos, com destaque para o RSI (vulgo Rendimento Mínimo) onde ironicamente é possível encontrar muitos usufrutuários que trabalharam ou estão trabalhando, sem ganhar o suficiente.
Mas acalmem, os subsidiados beneficiários do investimento público na área do turismo em Ponta Delgada, as suas lamentações pelas fracas espectativas para este Verão, porque a saída da igualmente subsidiada Ryanair (2 milhões de euros pelo último contrato, se a memória não me falha) motivou um esforçado trabalho de compensação, que não hesitamos em valorizar, da Sra. Secretária regional Berta Cabral, com resultados agora palpáveis nomeadamente a partir do Canadá, e não só. Lamentável, em nossa opinião, é que esse esforço de compensação tudo indica, no final de contas, que ficará na prática circunscrito à ilha de S. Miguel e à sazonalidade do Verão IATA, ao contrário das conjeturas da Sra. Secretária quando se referiu à capacidade dos Açores no seu conjunto se tornarem “um destino para todo o ano”…
Também ao nível da salvaguarda da Agricultura e da Pecuária enquanto motor fundamental do desenvolvimento e fixação das comunidades rurais das várias ilhas, como se tem afirmado até agora, o próximo quadro comunitário (2028-2034) e a sua Política Agrícola Comum (PAC), proposta pela Comissão Europeia, coloca sérias preocupações, não só aos agricultores e lavradores açorianos, como por tabela a toda a Região. Na verdade, o que se pretende é acabar de facto com o atual POSEI enquanto programa específico adaptado à realidade do Arquipélago e gerido pela própria Região. Os Açores representam 40% do VAB nacional no setor do leite e laticínios; a sua Agricultura e Pecuária representa 8% de toda a produção agrícola nacional e 7% do PIB regional (no Continente é apenas de 1,5%) com impacto económico e social em todas as ilhas. Se a Autonomia dos Açores perder a gestão direta das transferências do POSEI, perderá o controlo sobre verbas significativas (cerca de 80 milhões de euros) ficando o país a geri-las o que, na ignorância da nossa conjuntura agrícola periférica, afetará certamente de forma negativa, nos anos mais próximos, a evolução da realidade regional neste setor.
Também ao nível político institucional, no último fim-de-semana, no Hotel Marina Atlântico, a realidade arquipelágica esteve novamente a ser menosprezada em prejuízo da desejável coesão geográfica e do desenvolvimento harmónico entreilhas, quando se assistiu à ressurreição da intenção revisionista do atual sistema eleitoral regional por parte de dois ex-responsáveis políticos, no caso em apreço Mário Fortuna, ex-dirigente da Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, e o ex-deputado regional do PS, José San-Bento. Se, no respeitante a Mário Fortuna, ficou de novo clara a sua já tradicional ambição de atribuir à ilha de S. Miguel uma preponderância absoluta no Parlamento dos Açores em prejuízo da representação das restantes ilhas, no caso de José San-Bento, o sentido da sua afirmada e coincidente vontade de reformar o sistema, afundando-se propositadamente ou não numa turbulência de hipóteses especulativas, ficou lamentavelmente por descortinar…

Mário Abrantes

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