O mês de junho é recheado de celebrações religiosas e profanas ao Divino Espírito Santo e aos Santos Populares: Santo António, São João e São Pedro.
Estão festas estão na alma das gentes, fazem parte da nossa identidade, traduzem-se em manifestações cuja proveniência está ligada a remotos fenómenos migratórios, dificilmente datados, mas mantêm o seu espírito original.
A estas expressões da cultura popular estão ligados valores cristãos que importa relevar. Os maiores são a entreajuda, a solidariedade e a partilha, cuja expressão maior são os Impérios do Divino Espírito Santo.
Nas zonas rurais micaelenses, partilha-se produtos alimentares para confeção das refeições em que ajudam familiares e vizinhas. Os homens colaboram enfeitando ruas, construindo barracas, colocando paus de bandeira, partindo carne e distribuindo pensões pelos irmãos, numa folia com acordeão, violas da terra e cantadores populares com trajes típicos dos impérios a que se associam as raparigas vestidas com “T’shirts” assinaladas com o nome do Império.
O Espírito Santo perdura na fé das gentes. As celebrações nas zonas rurais ocorrem em quase todas as ruas.
Diz quem já foi mordomo/a, que abraça esse compromisso com grande convicção pelas graças concedidas pelo Espírito Santo, sabendo, embora, os gastos que tal comporta. “Mas tudo se faz…”
Há, no entanto, alguns mordomos que se queixam da insensibilidade de alguns autarcas que, não olhando aos elevados gastos e aos contributos dos Mordomos para as festas, cobram taxas municipais até pelo espaço público utilizado na implantação das estruturas de apoio.
A crítica é pública, frequente e tem razão de ser. Pois não é o próprio município que, ao realizar as Festas do Espírito Santo com dinheiros dos contribuintes convoca os mordomos do concelho para as cerimónias principais?!…
Na verdade, são os Impérios locais que dão dimensão à Festa Municipal, pelo que impõe-se tudo fazer para que a genuína tradição popular se mantenha na sua expressão religiosa mais pura.
Por que não consagrar os Impérios Património Imaterial do Concelho, da Ilha ou da Região, atribuindo-lhes a dignidade religiosa que o povo lhes confere? E a Igreja Católica diocesana por que não decide dignificar esses eventos de religiosidade popular, integrando-os no programa pastoral diocesano, com ações de formação, de catequese, dignificando o tradicional Culto Açoriano ao Espírito Santo, como acontece com as romarias?
O etnólogo lagoense Francisco Carreiro da Costa, de quem foi publicada recentemente a sua obra completa, defende existir uma relação muito estreita entre o Culto ao Divino Espírito Santo e as Cavalhadas da Ribeira Grande, que se realizam no Dia de São Pedro.
A presença dos mordomos do ano nos primeiros lugares do desfile, de cujas casas saíam os cavaleiros; a ligação estreita com o voto de Fé da população realizado aquando da erupção vulcânica de 1563, caso a Igreja da Ribeira Seca fosse salvaguardada; as sete voltas ao Templo, simbolizando os Sete Dons do Espírito Santo – tudo isto são a prova da tese defendida por F. Carreira da Costa.
Há também outros elementos simbólicos que se mantém: o Rei, figura central que lidera o cortejo envergando uma capa vistosa, barba postiça e coroa, responsável por saudar as autoridades e o Santo Padroeiro; Os Lanceiros: Cavaleiros que abrem caminho e recitam as primeiras loas explicativas da festa; Os Corneteiros e Guias: Marcam o ritmo e ostentam os estandartes das festividades; e os Cavaleiros, trajando de branco, com botas altas, faixas coloridas e chapéus pretos ornamentados, montando cavalos ricamente enfeitados com flores e fitas.
Adereço natural, decorativo e simbólico das Cavalhadas são as alampas ou alampadas.
São frutos da terra, aglomerados em forma de cacho longo (alguns chegam a atingir um metro) constituídos por rústicas flores da época, hortênsias, frutos e legumes que ornamentam as naves da Igreja Paroquial da Ribeira Seca e são distribuídos pelas autoridades locais.
A preparação destes cerimoniais e a execução das alampas constitui um sinal de grande entreajuda, organização e participação comunitária que importa relevar, pois nela se integram homens, mulheres e jovens, alguns pagando promessas.
São gestos que atestam a capacidade do povo em preservar o tradicional, promovendo iniciativas que irão entranhar-se no espírito e na vida dos mais pequenos e dos jovens, confirmando o seu empenho por seguir as pegadas dos seus maiores.
Manter a tradição é mais do que uma frase feita. É um apelo à integração dos mais novos nas Festas e Manifestações populares que me parece estão a revitalizar-se. Com traços de modernidade, como é natural, mas mantendo, no fundamental, o que trouxeram até hoje essas antigas iniciativas.
As Festas de São João da Vila, com as suas marchas em vias de modernização e com uma maior participação da juventude; as marchas das Sanjoaninas de Angra com historial recente (pós-sismo de 80), que atrai cada vez mais grupos de outras ilhas para celebrar com alegria e envolvimento popular a Noite de São João; outros festivais que nestes meses de verão animam as ilhas menos povoadas, pretendendo proclamar ao longo do Atlântico Norte que nenhum território insular para sobreviver e desenvolver-se deve confinar-se às rochas altas de basalto negro que protege quem lá moureja; tudo isto faz parte da identidade açoriana.
Os Açorianos aqui e na diáspora vivem a festa como tempos de catarse. Convertem a saudade e o insulamento nas canções dolentes que quebram corações, mas animam os que querem regressar para beber nas águas cristalinas das fontes a saúde e a força que lhes dá Fé e solidariedade que manifestam aos demais.
É assim que a História Açoriana assinala, ao longo dos séculos, as boas e más horas.
José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
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