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As roqueiras (foguetes) do nosso descontentamento

Foi hoje, mas podia ter sido ontem ou amanhã: o sino da igreja acabara de tocar as sete horas e já ribombavam no céu os foguetes. São os foguetes trovão, artigos pirotécnicos projetados para subir a grande altitude e explodir com um forte clarão. Em Portugal, produtos como os foguetes “Trovão Voador” são vendidos em embalagens, seis unidades, por 50,00 €. Muito comuns são também os “foguetes trauliteiros” — conhecidos como roqueiras — de grande estrondo. Nos Açores, são disparados continuamente durante o verão para assinalar festas populares, o início e o fim das touradas à corda e eventos religiosos.
Há discussões e propostas legais para substituir os foguetes utilizados nas touradas por sinais sonoros eletrónicos, para proteger o descanso da população e o bem-estar dos animais, mas tais iniciativas permanecem sobretudo no plano simbólico. Assim como falta coragem para acabar com as touradas, também não há determinação para proibir estas roqueiras “tradicionais”. Chamar a PSP ou a GNR não resolve, embora, no papel, as autoridades locais fiscalizem e, por vezes, apreendam material pirotécnico.
Uma investigação recente indicou que a última apreensão registada aconteceu a 11 de setembro de 2009, na Terceira, quando foram apreendidos seis mil foguetes. Talvez os compradores sejam os mesmos que reclamam da crise e do aumento do custo de vida enquanto tomam uma cerveja no café da esquina.
Há tradições e tradições, e se bem que, de uma forma geral, sempre tenha apoiado e sustente a sua preservação, tenho de admitir que com o passar dos anos, e séculos, fruto da ecologia e outras ciências, algumas dessas tradições estão condenadas e devem serabolidas ou modificadas.
Refiro-me a uma proposta do partido PAN em 2023(e urge redescobrir) para acabar com o ruído, eliminando as roqueiras e morteiros (foguetes ou petardos) ou substituindo-as por outras silenciosas. Raramente estivecom o PAN, mas dei comigo a aplaudir a proposta nesse ano. O CHEGA votou a favor da alteração ao Regime Jurídico de Atividades Sujeitas a Licenciamento das Câmaras Municipais da Região para substituir por um sinal sonoro o foguete que indica o início e o fim das touradas à corda. Apesar de votar favoravelmente este Decreto Legislativo Regional, o deputado José Pacheco deixou uma reflexão, mostrando-se preocupado com a possível extinção das tradições açorianas. “Daqui a dias proibimos o fogo porque há pessoas que não o sabem utilizar e abusam. Compreendo que alguém lançar um foguete às 3h da manhã não é aceitável, mas não há festa sem foguetes”, lembrou o parlamentar.
Atualmente, não existe uma lei que proíba o uso de foguetes nos Açores. Propostas legislativas recentes apresentadas à Assembleia Legislativa Regional para abolir a pirotecnia ruidosa em prol de alternativas silenciosas foram rejeitadas. A regulação do ruído mantém-se enquadrada pelo Regulamento Geral do Ruído (Decreto Legislativo Regional n.º 23/2010/A), que estabelece limites de decibéis para o ruído ambiente e de vizinhança.
É a partir de maio e até finais de setembro que o tormento surge. É no Santo Cristo, no Espírito Santo e não só nestas festas, mas em todas as ocasiões (que parecem semanais, como as festas da paróquia) há as roqueiras (tradicionais foguetes ruidosos) que impedem qualquer descanso, assustando animais e humanos a qualquer hora do dia e da noite. Costumo dizer que se eu mandasse… nunca mais acendiam nenhum foguete… Qualquer festa, festarola ou celebração (e no desporto futeboleiro) vem sempre acompanhada de foguetes refulgindo nos céus (azuis ou cinzentos, ninguém os vê) com o seu característico bum, que ainda hoje ninguém me conseguiu explicar para que servem.
Já tentei entender se tem a ver com frustrações edípicas ou outras, com sexualidades reprimidas ou quejandas, mas nada descortinei que as pudesse explicar, de forma satisfatória. Além do inconveniente para tímpanos mais sensíveis, há o desassossego de animais domésticos e outros que entram em pânico com o barulho, como há anos observamos cá em casa. O fogo de artifício afeta negativamente o bem-estar de animais, de pessoas vulneráveis e o meio ambiente. Os principais impactos dividem-se em três áreas:
1. – Animais — Devido à sua elevada sensibilidade auditiva, cães e gatos sofrem com os estampidos, que lhes causam medo extremo, tremores e taquicardia. Em estado de pânico, é comum os animais tentarem fugir, podendo perder-se, ser atropelados ou sofrer quedas graves. Aves e outros animais selvagens desorientam-se com os clarões e barulhos, podendo colidir com edifícios ou abandonar os ninhos, colocando crias em risco.
2. – Pessoas – O som alto e inesperado gera um elevado nível de ansiedade e pode provocar crises severas em pessoas com Transtorno do Espetro Autista. Crianças pequenas e recém-nascidos assustam-se facilmente, enquanto idosos e pacientes hospitalizados podem sofrer desorientação e picos de tensão arterial.
• Meio Ambiente — Poluição do Ar e do Solo: As cores brilhantes dos fogos são obtidas por metais pesados (como bário, estrôncio e cobre), cujas partículas finas são libertadas para o ar e acabam por se depositar nos solos e na água.Em épocas mais secas, a queda de fragmentos incandescentes pode desencadear incêndios florestais ou urbanos.
Depois, há o incumprimento das normas e horários. Quando interrogo os nativos logo me respondem “isto não é a cidade, senhor” (mas na cidade passa-se o mesmo que aqui neste meio rural). Começam normalmente pelas 07:00 da matina e vão até bem depois da meia-noite (por vezes pelas duas ou mesmo três da manhã), à revelia de posturas municipais que definem o período em que podem ser lançados tais foguetes. Ecoam como canhões, de manhã cedo até noite alta, rompendo o silêncio e o descanso da madrugada. As roqueiras, ao contrário do fogo de artifício, são só barulho sem cores nem desenhos elaborados a riscar os céus.
Os açorianos primam, em geral, pelo desconhecimento e incumprimento de normas de segurança, em geral. É vê-los, irresponsavelmente, de cigarro na boca, a acender foguetes na ponta do rastilho e lançar o projétil ao ar. Parecem crianças com um brinquedo, deveras perigoso, mas a irracionalidade de os lançar a qualquer hora confunde-me e irrita-me. Sei que somos poucos, embora todos os anos mais gente proteste, será, talvez, ainda uma minoria de descontentes com esta tradição, a exigir leis mais duras e uma fiscalização eficaz para se acabar com este flagelo auditivo nas suas múltiplas vertentes de perigo além do inconveniente estrondo.

Chrys Chrystello*
*Jornalista, Membro honorário Vitalício nº 297713
MEEA-AJA (IFJ)

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