“A mente humana tem capacidade para tudo, porque alberga tudo:
todo o passado e também todo o futuro. O que houve ali, afinal?
Alegria, medo, devoção, coragem, raiva… quem é que sabe?
Mas verdade havia, verdade despida da capa do tempo.”(p.214)
Joseph Conrad, Coração das Trevas(1902),Ed. Relógio D´Água.
No episódio piloto de “Sete Palmos de Terra” (2001), Nate Fisher desenvolve uma elucubração sobre a dimensão cultural do luto, ao comparar o sofrimento gutural de mulheres sicilianas atiradas para o caixão enquanto se despedem de um familiar, com os rituais americanos asséticos, suprimidos, em que o luto é barrado à saída dos canais lacrimais pela norma do decoro. Continuamos, contudo, a olhar para as emoções humanas como universais, atemporais e sem historicidade.
É incontornável o facto de que a evolução, a biologia e a neurociência afetiva ajudam-nos a compreender a experiência e expressão emocionais humanas. No seu “The Expression of the Emotion sin Man and Animals”(1872), Darwin avança a hipótese de que as emoções são entidades distintas (ao contrário do que afirmou posteriormente Wundt) e constituem adaptações evolutivas, selecionadas porque aumentam a probabilidade de sobrevivência (uma espécie não dura muito tempos e não sentir medo ao aproximar-se de um predador). William James, no seu “Principles of Psychology”(1890), acrescentou uma peça a este puzzle: as emoções surgem da interpretação cerebral das alterações do restante corpo, apresentando o que hoje chamamos de automatismo: sem a manifestação corpórea, não há experiência emocional. Jaak Panksepp identificou sistemas emocionais primitivos e filogenéticos, partilhados pelos mamíferos, tendo António Damásio expandido o conhecimento sobre a função evolutiva das emoções ao hipotetizá-las como mecanismos de regulação alargados indispensáveis à vida, à memória, à tomada de decisão e à própria racionalidade (deitando por terra séculos de artificialismo cartesiano com o seu mais famigerado livro).
Mas este puzzle fica incompletos e reduzido à materialidade da fisiologia. Quando Harold Bloom escolhe dar como subtítulo à sua monumental obra ensaística sobre Shakespeare “The Invention of the Human”(1998), ele coloca no centro a dimensão histórico-cultural da experiência e expressão emocionais. Talvez possamos pensar a relação entre biologia e cultura nas emoções como pensamos a linguagem: nascemos com uma arquitetura neurocognitiva preparada para falar (como nos sugeriu Chomsky), mas nenhuma criança nasce a saber português ou árabe. A biologia oferece a possibilidade, mas é a história e a cultura que escrevem a gramática e a fonética. Daqui decorre a derradeira pergunta: quão universais e quão idiossincráticas são as emoções? O que há de comum e de diferente nome do sentido pelos Tupiniquim no séc. XVI à chegada dos portugueses, e o medo sentido por um palestiniano em 2026 com uma explosão a poucos metros?
Gal Beckerman escreve no The Atlantic um artigo notável em torno da pergunta: E se os nossos antepassados não sentiam nada como nós? Historiadores das emoções têm documentado precisamente isto: que até experiências aparentemente universais, como a dor, a culpa ou o amor, adquirem significados distintos de acordo com a época e a cultura. Porque sentir não é apenas reagir biologicamente. É interpretar o mundo e o corpo pelas lentes do mundo que habitamos. A adensar a complexidade está o facto de grande parte do conhecimento científico sobre as emoções (e outros fenómenos psicológicos) partir de amostras enviesadas pelo seu carácter WEIRD: participantes ocidentais, escolarizados, industrializados, ricos e democráticos, que estão longe de representar a globalidade da humanidade e, portanto, refletir uma qualquer “natureza humana”.
Há uma consequência ética de tudo isto. Quando julgamos a experiência emocional do Outro exclusivamente a partir não apenas de uma ideia universalizante, mas, especialmente, da nossa própria experiência, tratamos a nossa história como medida universal da condição humana. Reconhecer que as emoções são simultaneamente biológicas, individuais e histórico-culturais, seja em relação a um povo do outro lado do mundo ou a um cliente sentado no divã metafórico da psicoterapia, convida-nos a uma certa humildade que intersecta Rimbaud (“Eu é um outro”) e a série Sense8 (“Eu também sou um nós”): há múltiplas formas de sentir. Talvez este também seja um dos caminhos mais seguros para a empatia e a compaixão, e para aplacar a nossa tendência separatista e exclusivista.
Fique bem, pela sua saúde e de todos os açorianos!
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Sérgio Andrade Carvalho*
* Investigador Doutorado CINEICC/
Professor Auxiliar Convidado Faculdade de Psicologia e da Ciências
da Educação da Universidade de Coimbra