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Ilhéu de Vila Franca tem mais de mil ninhos de cagarro e novas acções de monitorização

A Comissão Especializada Permanente de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa dos Açores defende que a protecção do Ilhéu de Vila Franca do Campo exige “acompanhamento continuado”, investimento na conservação da biodiversidade, monitorização das espécies e manutenção de condições adequadas de segurança e gestão.
A conclusão consta do relatório da visita realizada ao ilhéu no dia 5 de junho de 2026, Dia Mundial do Ambiente, no âmbito do acompanhamento das matérias relativas ao ambiente, conservação da natureza e sustentabilidade.
O documento, datado de 12 de junho e aprovado por unanimidade, sublinha que a deslocação permitiu aos deputados conhecer directamente a realidade geológica, ecológica, ambiental e patrimonial daquele espaço protegido, bem como os principais desafios associados à sua preservação e utilização sustentável.
Durante a visita, a Comissão foi acompanhada pelo responsável do Parque Natural da Ilha de São Miguel, por representantes do Governo Regional dos Açores na área do ambiente e da ação climática e pelo Clube Naval de Vila Franca do Campo. O relatório destaca que o contacto no terreno permitiu recolher informação técnica sobre a conservação da natureza, a protecção de habitats e espécies, a gestão do uso público e as intervenções realizadas na área visitável.
O Ilhéu de Vila Franca do Campo é descrito como um cone de tufo resultante de uma pequena erupção submarina do tipo surtseyano, ocorrida há mais de quatro mil anos. Situa-se a cerca de 400 metros ao largo de Vila Franca do Campo e é constituído por duas partes, ilhéu grande e ilhéu pequeno, unidas por um istmo. A atual cratera, quase circular e preenchida por água do mar, forma uma lagoa salgada de reduzida profundidade.
No plano histórico, o relatório recorda que o ilhéu teve várias utilizações ao longo dos séculos, tendo servido como forte militar, porto de abrigo, vigia da baleia, zona de veraneio, espaço de cultivo de vinha, área de caça de coelhos, zona de pesca artesanal e apoio à actividade baleeira. As antigas actividades agrícolas contribuíram para alterações na composição florística, nomeadamente através da introdução da cana, hoje apontada como uma das principais ameaças à nidificação de aves marinhas.
O ilhéu adquiriu o estatuto de Reserva Natural em 1983, ao abrigo do Decreto Regulamentar Regional n.º 3/83/A, de 3 de Março, e passou para a titularidade do Governo dos Açores em 1989. Com a criação do Parque Natural da Ilha de São Miguel, em 2008, a área terrestre passou a integrar uma Área Protegida para a Gestão de Habitats ou Espécies, enquanto a área marinha envolvente ficou integrada na Área Protegida de Gestão de Recursos da Caloura – Ilhéu de Vila Franca do Campo.
Durante a época balnear, entre meados de junho e meados de outubro, o acesso ao ilhéu decorre diariamente entre as 10h00 e as 18h00, através de transporte assegurado pelo Clube Naval de Vila Franca do Campo e também por caiaques. A capacidade máxima do transporte marítimo afecto à zona balnear está fixada em 400 pessoas por dia e 200 pessoas em simultâneo.
A estes limites acresce a capacidade própria dos caiaques, correspondente a 42 pessoas em simultâneo e a um máximo de 126 pessoas por dia. Neste período, permanece no local um Vigilante da Natureza do Serviço de Ambiente e Ação Climática de São Miguel.
Um dos aspectos mais relevantes identificados no relatório é a importância do ilhéu para a avifauna marinha, por funcionar como refúgio de nidificação e beneficiar da ausência de predadores naturais. Actualmente, nidificam no local o cagarro, o garajau-comum, o painho-da-Madeira e a gaivota-de-patas-amarelas.
No caso do cagarro, o documento assinala que o ilhéu alberga uma das maiores colónias da espécie, com mais de mil ninhos, uma parte expressiva dos quais localizada no denominado ilhéu grande. Durante a época de reprodução, os serviços competentes promovem ações de anilhagem científica para monitorizar populações, rotas migratórias e outros elementos relevantes da biologia da espécie.
Quanto ao painho-da-Madeira, o relatório refere que a espécie nidificou no ilhéu até à década de 1980, tendo abandonado posteriormente aquele espaço devido à presença de ratos. Após acções de desratização, voltaram a ser registadas vocalizações durante a época de reprodução e, em Janeiro de 2017, foi confirmada novamente a nidificação.
Em 2025, os serviços ambientais iniciaram um trabalho específico para estimar a população de painhos no ilhéu, com recurso a redes de captura e anilhagem. Segundo a informação transmitida à Comissão, tinham sido anilhados 37 indivíduos e registadas 11 recapturas em duas noites de trabalho, tendo ainda sido instalados 13 ninhos artificiais para monitorizar o sucesso reprodutor.
O relatório dá ainda conta de diligências para verificar a eventual presença do frulho, espécie que anteriormente nidificou no ilhéu, mas cujo regresso não estava confirmado à data da visita. Foi também assinalada a instalação de redes para captura de passeriformes, num trabalho pioneiro orientado para a estimativa das espécies e populações de aves que ali nidificam.
Na zona balnear e nas infraestruturas de apoio, a Comissão tomou conhecimento de trabalhos de manutenção e melhoria realizados ao longo dos anos, incluindo a reparação do passadiço degradado, a instalação de guardas de segurança em determinadas zonas, melhoramentos na casa de apoio ao Vigilante da Natureza e nas instalações sanitárias, bem como a instalação de vestiários para banhistas, com o objectivo de reduzir constrangimentos anteriormente verificados, nomeadamente longas filas de espera.
O documento refere ainda a preservação de parte da herança agrícola do ilhéu, onde antes da década de 1980 a uva produzida era misturada com uva de cheiro proveniente da ilha para a produção do vinho designado “Ilhéu”. Com esse propósito, o Parque Natural da Ilha de São Miguel instalou duas variedades de vinha, “jaquê” e “Herbermont”, num patamar situado na zona mais elevada do ilhéu.
No domínio da flora, o relatório identifica espécies nativas e endémicas como a azorina, a faia-da-terra, a urze, o bracel-da-rocha, a cabaceira e a salsa-burra, bem como três exemplares de dragoeiro na zona mais elevada. Em paralelo, assinala a presença de espécies exóticas, entre as quais a cana, o metrosídero e a lantana. No âmbito dos esforços de recuperação ecológica, têm sido plantadas espécies endémicas no local, incluindo bracel-da-rocha, faia-da-terra, azorina, urze e cabaceira.
Nas conclusões, a Comissão considera que o Ilhéu de Vila Franca do Campo constitui um património natural de elevado valor para a Região Autónoma dos Açores e sublinha a necessidade de conciliar a protecção dos valores naturais com a fruição pública responsável, tendo em conta a sensibilidade ecológica do local.

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