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Psicologia da história: o mito do fundador — a nação como história que se conta a si mesma (2)

As nações, tal como as pessoas, vivem de histórias. Não apenas das que aconteceram, mas sobretudo das que precisam de acreditar para sobreviver emocionalmente. Em tempos de estabilidade, essas narrativas parecem adormecidas. Basta, porém, uma crise económica, uma ameaça externa ou um período de desorientação moral para que regressem com força renovada. É então que o mito fundador reaparece, para além de memória, como instrumento psicológico de coesão.
Portugal não foge à regra. A figura de Afonso Henriques, por exemplo, é um espelho onde cada época projetou as virtudes que o país desejava ver em si próprio. O guerreiro medieval tornou‑se santo, estratega, símbolo de independência, pai severo ou herói providencial, conforme as necessidades do tempo. O mesmo se passou com o Milagre de Ourique, cuja historicidade é discutível, mas cuja função simbólica foi decisiva para legitimar o poder régio e oferecer à comunidade uma origem marcada pela proteção divina.
Em termos da psicologia da história, este fenómeno interpreta-se com a clareza que a investigação permite. Em momentos de incerteza, as sociedades procuram âncoras identitárias — pontos fixos num mundo instável. O mito fundador cumpre esta função. Simplificando a complexidade, oferece continuidade e transforma o passado numa narrativa coerente. A história deixa de ser um conjunto de factos e torna‑se um roteiro emocional, onde cada personagem desempenha um papel pedagógico. Por isso a memória coletiva não é apenas um arquivo, mas também, sobretudo, uma construção dinâmica.
Nos Estados Unidos, o exemplo é evidente. A história infantil de que George Washington nunca mentiu — inventada no século XIX por Mason Locke Weems — não pretende descrever o homem, mas ensinar virtude cívica. Washington torna‑se o modelo moral da jovem república, tal como Lincoln encarna a união e Jefferson a liberdade. A função é pedagógica, não factual. O mito, como os historiadores o definem, serve para formar cidadãos.
Portugal tem cultivado mitos que respondem a outras necessidades emocionais. Salazar como salvador da pátria; Egas Moniz, símbolo de honra absoluta; Viriato, herói resistente; e o Sebastianismo, mormente, que transformou a ausência num programa de esperança. Cada mito corresponde a um momento de fragilidade nacional e oferece uma resposta simbólica: coragem, fidelidade, redenção.
O que une estes casos é o mecanismo psicológico subjacente. As sociedades, quando ameaçadas, recorrem à idealização simbólica, projetando no fundador as qualidades que sentem estar a perder. A narrativa torna‑se espelho onde se procura mais reconstruir o que se deseja ser, do que se foi. A celebração do primeiro dia de dezembro, em que se evocava a restauração da soberania depois de sessenta anos de subjugação ao adversário histórico contra o qual se manteve uma luta de séculos, desapareceu no calendário das festividades nacionais porque no conjunto dos Estados da União Europeia, Portugal assume a posição simbólica de ser o primeiro na longevidade soberana. Os mitos fundadores não são revisitados em tempos de crise para recordar o passado, mas para reconstruir o presente.
A evidência de que durante muitos anos se acumulava sobre a presença de povos que antecederam a presença portuguesa nos Açores foi sempre descartada. Esta hipótese possuía conotações políticas como no discurso académico porque a primazia henriquina em que se assenta o descobrimento científico do Atlântico de facto histórico, por vezes questionado, entrou no território do mito identitário do país.
A construção deste imaginário não foi obra do acaso. No século XV, Gomes Eanes de Zurara desempenhou um papel decisivo ao fixar literariamente a figura de D. Henrique. A sua Crónica da Guiné, escrita sob encomenda direta do Infante, não é apenas relato: é arquitetura simbólica. Zurara amplifica a visão, a coragem e a suposta ciência náutica do príncipe, transformando-o no centro moral da expansão atlântica. Este esforço tinha também uma dimensão política. D. Henrique disputava prestígio com o irmão, D. Pedro de Coimbra, cuja influência intelectual e cuja memória — sobretudo após Alfarrobeira, onde o Infante colaborou com forças enviadas pelo rei — representavam uma alternativa narrativa para o país. Ao exaltar Henrique e silenciar Pedro, Zurara ajudou a consolidar uma versão oficial da origem marítima portuguesa, onde a primazia se confunde com destino. É assim que o mito fundador se instala: não apenas pelo que celebra, mas pelo que escolhe esquecer.
Na realidade, não seria erro ver o mito fundador como a primeira forma de psicologia política porque diz menos sobre o que aconteceu e mais sobre o que uma comunidade precisa de acreditar para continuar. Neste contexto, podemos dizer que, apesar de sabermos que a história é mais complexa, continuamos a regressar a estas figuras com uma espécie de ternura ancestral. No silêncio das crises, as nações buscam — aquilo que todos procuramos — uma história que nos diga quem somos.
Manuel Leal

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