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Saúde (do) Pública(o) (73)

O retrato que os números nos deram: e o que vamos fazer com ele

Tema da semana: os Açores lideram o País em doença crónica e vivem menos 3 anos. Não é uma sentença — mas também não é um diploma para emoldurar.

Há semanas em que os números nos colocam diante de um espelho, de corpo inteiro. A semana passada foi uma dessas semanas.
Os resultados do Inquérito Nacional de Saúde 2025, apurados pelo INE e pelo Serviço Regional de Estatística dos Açores, dizem-nos, preto no branco, aquilo que há muito suspeitávamos: nos Açores adoece-se mais.
Os Açores lideram o País na obesidade, na asma, na bronquite crónica, na doença renal e nas doenças do coração; e estão entre as regiões com mais hipertensão, diabetes e depressão.
Para lá das percentagens, há rostos e números absolutos: cerca de 59 mil açorianos com hipertensão, 25 mil com diabetes, 32 mil com depressão, mais de 128 mil com peso a mais. Não é uma estatística distante — é quase toda a gente que conhecemos.
E há um número que devia colocar a reflectir o restoda semana: à nascença, um açoriano vive, em média, cerca de 3 anos menos do que a média dos portugueses — 78,3 contra 81,5 anos, a esperança de vida mais baixa de todas as regiões do País. Três anos não são uma abstracção: são aniversários que não chegam a acontecer, netos que não se chegam a conhecer. E não é o mar que no-los tira, nem a distância: é, em grande parte, a doença que sabemos como evitar.

Ler bem — sem medo e sem maquilhagens
Há, é certo, boas notícias, e seria mesquinho escondê-las. No tabaco, a prevalência de fumadores caiu de 23,4% para 19,5% nos últimos 6 anos, e a dos fumadores diários de 21,2% para 18,1%; no álcool, os açorianos têm hoje um dos comportamentos mais sóbrios do País, e bebem menos do que bebiam. São progressos reais, fruto de trabalho real, e quem os fez merece que se diga.
Mas há uma diferença enorme entre celebrar um progresso e instalarmo-nos nele. Continuamos a ser a segunda região que mais fuma; continuamos a ter mais obesos do que qualquer outra; e continuamos a viver menos três anos.
Uma tendência que melhora não é um problema resolvido — é um problema que ainda lidera, só que a descer.
A Saúde Pública não se faz de aplausos a si própria: quando se é o primeiro do País a adoecer não se pode ficar satisfeito. Um bom sinal é um convite a fazer mais — nunca uma licença para abrandar. Ler estes números como um elogio seria o mais perigoso dos erros, porque a complacência, em saúde, não faz barulho: mata devagar.

As mesmas raízes
A boa notícia escondida no diagnóstico é esta: por detrás de tantas doenças há, afinal, poucas causas — e quase todas ao nosso alcance.
O tabaco está na origem de boa parte do cancro, da doença do pulmão e da do coração; o excesso de peso puxa a diabetes, a hipertensão, o colesterol e, no fim da cadeia, o enfarte e o AVC; a alimentação pobre em hortícolas — e somos a região que menos legumes come, a que mais vezes responde «nunca» — alimenta tudo isto.
Quem mexe nestas poucas raízes melhora, ao mesmo tempo, muitas doenças.
Não se trata de combater 100 frentes, mas as 3 ou 4 que sustentam quase todas. E já provámos, na Covid ou no combate às listas de espera no HDES, nos anos de 2021 a 2023, que somos capazes de mudar cenários devastadores, à escala de uma região inteira, quando o resto do país ficou muito aquém. Falta a mesma capacidade no resto. E as pessoas certas para o fazer.

Não é só a escolha de cada um
Convém dizê-lo com clareza, porque é onde mais facilmente se mente: isto não se explica com falta de força de vontade. A doença não cai do céu nem nasce só de más escolhas individuais — nasce, antes, nos rendimentos de cada família, na escolaridade, naquilo que há para comer à porta de casa, no preço a que o produto fresco chega a uma ilha pequena, na dupla insularidade que para tantas coisas é beleza, mas para a saúde é custo, tempo e desigualdade.
Pedir a alguém que «coma melhor» quando o saudável é o mais caro e o mais distante é, muitas vezes, pedir o impossível.
Por isso a resposta não pode viver só dentro dos centros de saúde: constrói-se onde as pessoas nascem, crescem, trabalham e envelhecem — na escola, na autarquia, na economia, no trabalho. A saúde do pescador, do agricultor, da empregada do hotel, do trabalhador da câmara faz-se muito antes da consulta. E é uma questão de justiça, não de caridade: cada um destes açorianos tem direito à mesma oportunidade de viver com saúde, quer viva no Corvo ou em Ponta Delgada.

Uma reforma de justiça — e quem teve a coragem de a levantar
É também por vivermos menos que defendo, sem rodeios, a antecipação da idade da reforma dos açorianos. E quero ser claro quanto a um nome: esta é, antes de tudo, uma bandeira do Vice-Presidente do Governo Regional, Artur Lima, que há anos — muito antes de o tema ser falado — vem dizendo o óbvio com a teimosia dos justos.
O argumento é de uma simplicidade desarmante: um açoriano contribui para a Segurança Social tanto como qualquer outro português, durante uma vida inteira de trabalho, mas, vivendo menos, recebe a pensão durante menos tempo. Quem beneficia dessa diferença é, no limite, quem vive mais longe dos Açores. Corrigi-lo não é privilégio nem esmola: é equidade, é um direito, e é o Estado a cumprir o dever de tratar por igual quem vive no Corvo e quem vive em Lisboa. Defender esta causa frontalmente, e fazê-la avançar contra ventos e pareceres, é das coisas mais corajosas e mais justas que vi levantar em nome desta terra. Tem o meu aplauso, sem reservas.
E tem-no com ainda mais razão porque o próprio Artur Lima nunca apresentou a reforma sozinha: tem dito, e bem, que ela precisa de andar a par da acção sobre aquilo que nos faz viver menos. É aqui que a saúde pública lhe estende a mão. A reforma justa corrige a injustiça à chegada; só a prevenção corrige a sua origem. Uma não dispensa a outra — completam-se. Conquistar mais anos de reforma e, ao mesmo tempo, mais anos de vida com saúde para os gozar: eis um programa por que vale a pena bater-se.

Soluções açorianas, para problemas açorianos
Um retrato destes não se muda com boas intenções, nem com mais um plano na gaveta, nem a celebrar o que ainda não está feito. Muda-se com decisões, e com a humildade de fazer mais e mais depressa. Atrevo-me a deixar as principais — todas elas das chamadas «melhores compras» da Organização Mundial da Saúde, de eficácia comprovada e custo reduzido, e quase todas já escritas no Plano Regional de Saúde, à espera de execução com ambição:
Primeiro, governar a saúde para lá da saúde, com uma estratégia regional para as doenças crónicas, com metas e calendário, e a coragem de a pôr em todas as políticas. Segundo, o tabaco como primeira prioridade: mais espaços sem fumo, cessação ao alcance de todas as ilhas e travar, na escola, a iniciação dos mais novos. Terceiro, um ambiente que ajude a comer bem, com as escolas e os refeitórios públicos a darem o exemplo e a promoverem os hortícolas e o peixe que são nossos. Quarto, cuidados primários que se antecipam, encontrando e controlando cedo a hipertensão, a diabetes e o colesterol que muitos têm sem o saber. E, a atravessar tudo, saúde mental ao alcance de quem dela precisa e literacia, porque ninguém cuida bem do que não compreende.
E porque o terreno é o açoriano, as soluções têm de o ser: equipas que se desloquem às ilhas mais pequenas, telessaúde bem feita onde acrescenta — sem nunca dispensar o exame presencial onde ele é insubstituível —, articulação inteligente com a unidade de saúde de cada ilha. Um plano pensado para a grande cidade não serve quem, para chegar a uma consulta, depende de um avião e do tempo que ele faz.

Um trabalho de uma geração
Convém não enganar ninguém: nada disto dá frutos amanhã. A esperança de vida não converge em meses nem em legislaturas — converge ao longo de décadas, com trabalho tenaz e continuado. Mas isso, que tantas vezes serve de desculpa para não começar, é exactamente a razão para começar já. Há quem plante árvores cuja sombra sabe que não há-de gozar; é disso que precisamos — de decisores com a coragem de investir em resultados que outros virão inaugurar. A pior decisão seria adiar mais uma vez, à espera de um momento perfeito que nunca chega.

A pergunta certa
A pergunta, no fim, não é se sabemos o que fazer. Sabemos. É se temos a vontade colectiva de o fazer — e a honestidade de não confundir um sinal animador com uma vitória. Mudar este retrato não é tarefa de um governo, de um serviço de saúde, de um médico: é de todos — da família que cozinha e caminha junta, da escola, da autarquia, da empresa, de cada um que decide deixar de fumar e de quem o ajuda a consegui-lo. Os números de 2025 não são uma condenação. São um convite. Viver mais e viver melhor, nas nossas nove ilhas, faz-se em cada gesto — e só se faz juntos.
E, como sempre, os cidadãos açorianos, os doentes açorianos, a gente açoriana, merece que o façamos — e que lho digamos com verdade.

*Médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É o Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direção da ANaMeT. Escreve semanalmente neste espaço sobre temas de Saúde Pública.
Mário Freitas*
© Diário dos Açores • Rubrica “Saúde (do) Pública(o)” • Junho de 2026

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