A Lactogal e a cooperativa Unicol arrancam na Terça-feira, 1 de Julho, com um projecto-piloto inédito na Ilha Graciosa que altera de forma estrutural o modelo de pagamento aos produtores de leite, passando a valorizar não apenas a quantidade entregue, mas sobretudo a qualidade da matéria-prima destinada à produção de queijo.
A iniciativa, designada Programa Produtor Milhafre Graciosa, será desenvolvida até 2030 e representa a primeira experiência na Região Autónoma dos Açores em que o preço pago ao produtor deixa de depender exclusivamente do volume produzido, passando a reflectir a concentração de sólidos úteis presentes no leite, nomeadamente proteína e gordura, factores determinantes para o rendimento industrial do queijo Queijo Ilha Graciosa Milhafre.
O projecto é promovido pelo Grupo Lactogal através da fábrica Pronicol, proprietária da marca Milhafre dos Açores, em parceria com a Unicol, e pretende introduzir uma lógica de remuneração mais ajustada ao verdadeiro valor industrial do leite produzido localmente.
No âmbito do programa, os produtores que aderirem de forma voluntária terão acesso a um roteiro técnico integralmente financiado pela Lactogal, que inclui acompanhamento veterinário, apoio nutricional, assistência ao maneio das explorações e ferramentas de digitalização. Além disso, receberão um incentivo adicional denominado “Prémio Milhafre”, correspondente a um bónus fixo de um cêntimo por quilograma de leite, acrescido ao novo preço base recalibrado.
Citado em comunicado, o presidente do conselho de administração da Lactogal, José Marques, enquadrou a iniciativa como parte da estratégia de longo prazo da empresa na região.
“No ano em que celebramos 30 anos, reafirmamos o nosso compromisso com os Açores através de acções concretas. O futuro do leite açoriano não passa por competir em volume com a Europa, mas sim por liderar no valor acrescentado, na sustentabilidade e no orgulho das comunidades que lhe dão origem. A Graciosa é o ponto de partida desta transformação”, afirmou.
Segundo os promotores, a escolha da Ilha Graciosa para o arranque do projecto resulta da dimensão controlada do território, da forte tradição local na produção de queijo e da proximidade entre produtores, cooperativa e unidade industrial, criando condições favoráveis para testar um novo modelo económico para o sector.
Também João do Couto destacou a importância estratégica do programa para a sustentabilidade da fileira leiteira local.
“Não queríamos apenas um acordo comercial de curto prazo, queríamos dar estabilidade e previsibilidade aos nossos produtores. Ao ligar directamente o preço do leite ao prestígio e rendimento do queijo Ilha Graciosa Milhafre, estamos a valorizar o trabalho de quem está na terra e a garantir que o valor gerado fica na nossa ilha”, sublinhou.
O objectivo central passa por assegurar a continuidade da produção leiteira na Graciosa, tornando a actividade economicamente mais atractiva e criando condições para fixar novas gerações no sector agrícola, numa altura em que várias explorações enfrentam processos de abandono ou reconversão para outras actividades.
A Lactogal encara ainda este projeto como um laboratório de inovação territorial e sustentabilidade. Caso os resultados demonstrem ganhos concretos no rendimento dos produtores e na qualidade do leite destinado à transformação industrial, o modelo poderá ser replicado noutras ilhas dos Açores e posteriormente alargado a outras regiões da Península Ibérica.
Fundado em 1996, o Grupo Lactogal é actualmente o maior grupo do sector leiteiro na Península Ibérica. Em 2025, a empresa processou mais de 1.252 milhões de litros de leite recolhidos em Portugal e Espanha, provenientes de cerca de 1.800 produtores, empregando mais de 2.500 trabalhadores distribuídos por 12 unidades industriais.
A nova estratégia sinaliza uma mudança na valorização da produção leiteira açoriana, num sector que continua a assumir um peso determinante na economia regional, particularmente nas ilhas com forte dependência da actividade agropecuária.
