A carreira de Cristiano Ronaldo foi sempre uma subida. A dele, e a das barreiras que lhe puseram no caminho, como se o mundo do futebol tivesse decidido que aquele miúdo de um bairro pobre do Funchal, com os dentes tortos e fome de sair dali, subia depressa demais para ser confortável. Um garoto que se desamarrou da pobreza a murro, que recusou a mediocridade que aqui, em Portugal, se herda como um apelido e se aceita como sacramento. Quebrou sozinho o feitiço geracional que empurra a maioria dos portugueses para o conforto morno de nunca tentar demasiado, porque subir um degrau custa sempre mais do que empurrar alguém para o degrau abaixo.
Quanto a este Mundial, não quero pronunciar-me, nem fazer juízos de valor sobre os jogadores, nem sequer mencionar que apenas um ou dois escapam à bofetada que lhes daria por não comerem a relva que tantos portugueses gostariam de ver comida. Mas por trás da agressividade cavaqueira, normal em qualquer adepto de qualquer desporto, esconde-se um ódio profundo que os portugueses, aliados à comunicação social, já não conseguem mascarar. Um ódio que ataca como um tubarão em êxtase ao cheiro do sangue, atrás dos cliques que o negativismo sobre Cristiano Ronaldo lhes garante sempre. Ao mesmo tempo, adeptos de centenas de nações vestem com orgulho a camisola n.º 7 de Portugal e esgotam estádios em terras distantes só para vislumbrarem o seu ídolo e nós, os seus conterrâneos, insultamos o melhor jogador do mundo. Que incongruência infeliz, digo eu…
“Ui. Calma aí, menino. O melhor é o Messi.”
Quero dizer: pois é, também acho que o melhor é o Messi. Mas o meu respeito máximo recai sobre o Cristiano Ronaldo. Não parece congruente? Deixem-me explicar. Quando o meu filho nasceu, um amigo disse-me uma coisa: “é porreiro quando nasce um filho, porque existe sempre a hipótese de ele vir a jogar pela seleção.” Esse comentário ficou-me agarrado. Imaginei logo o meu menino com bons pezinhos, abençoado pelo dom do futebol, perna esquerda de sonho, golos de trivela, o pai a chorar na bancada. É isso que desejo para ele: o dom, não o trabalho. Seria tão bom vê-lo a rodopiar com a facilidade de um Neymar ou de um Messi, a bola a aceitar o toque dele como um animal manso obedece ao dono. Porque basta imaginar o outro caminho para perceber que tortura seria: a consistência de anos a bater na pedra até fazer areia. Os banhos de gelo, os treinos em cima de treinos, a disciplina quase militar que o Ronaldo impôs a si próprio desde o primeiro momento, a fugir do quarto na academia do Sporting para ir treinar sozinho a meio da noite, até lhe porem um cadeado no ginásio. Não é isso que desejo ao meu filho, não sonho com o suor do meu filho, sonho com a sua habilidade. É precisamente por isso que o respeito máximo é do Cristiano, ele escolheu, e manteve, durante trinta anos, o caminho que nenhum de nós escolheria. Sempre constante, sempre afinado, sempre dedicado, com o foco fixo no resultado. Imaginem se o Quaresma tivesse tido a ética de trabalho do Ronaldo.
E é por isso que muitos dos grandes futebolistas da atualidade (e a minha esposa, quando tinha dezasseis anos) tinham pósteres do CR7 na parede do quarto. Viram todos a mesma coisa: que, independentemente do nível de talento, o trabalho árduo podia distingui-los. O Mbappé confessa-o sem pudor, cresceu com o quarto forrado de Ronaldo, chama-lhe ainda hoje ídolo, diz que lhe dá conselhos. O Kvaratskhelia tinha o mesmo cartaz, lá longe, em Tbilisi.
Neste momento tenho duas apostas feitas com amigos: Portugal vence o Mundial. Apostei com firmeza que Portugal ganha a quem for preciso. Não porque ache provável, mas porque, para o que der e vier, sou português, e um português deve, no que me toca, apoiar Portugal até à última instância. Estarei lá para falar mal, q.b., se as coisas correrem mal. Mas respeitinho é bonito. Talvez seja só isto, afinal: a mesma mediocridade confortável de que falei lá atrás, a mesma pressa em empurrar para o degrau abaixo quem nos lembra, todos os dias, que subiu mais alto do que qualquer um de nós alguma vez vai subir. Chamem-me Ronaldette, então. Quero cá saber. Prefiro isso a ser mais um a cuspir em quem carregou o nome do país às costas, sozinho muitas vezes, e agora aos quarenta e um anos, enquanto nós discutimos se ele merece jogar noventa minutos.
Philip San-Bento Pontes