Não sei se o novo presidente da Visit Azores, Nuno Leandro, mantém ou já se arrependeu das suas recentes declarações sobre a situação atual e as perspetivas estratégicas para o futuro do turismo nos Açores. Mas devo dizer que, no essencial, as subscrevo com toda a naturalidade, pois correspondem, em resumo, a uma visão crítica das orientações governativas que foram seguidas até agora, bem como se referem àquilo que já está na altura de ser plenamente assumido, corrigido e implementado pelo poder político regional no que diz respeito a este importante setor económico regional.
O presidente da Visit Azores afirma que a estratégia de promoção turística da Região, pós Ryanair, passa pela gestão de fluxos, por dar coerência à coesão do destino “Açores” através da promoção integrada das nove ilhas do arquipélago e de experiências inter-ilhas, e por uma oferta focada na natureza, devendo aproveitar-se a oportunidade da saída daquela companhia aérea (fortemente subsidiada com dinheiros do orçamento regional, diga-se) para visionar para os Açores uma oferta turística mais sustentável, apostando na atração turística menos massiva e quantitativa (medida pelos números de passagens e de dormidas) mais selecionada, com maior valor acrescentado e no respeito pela qualidade e melhoria das condições de vida dos açorianos.
Em vésperas de atos eleitorais para os Órgãos Próprios do Poder Autonómico nos Açores, por parte dos partidos que têm partilhado e/ou sustentado esse poder, pouco se fala em primeiro lugar da satisfação das necessidades da economia e das empresas, e muito se repete a já estafada, esvaziada e generalizada frase: “Primeiro as Pessoas!”, para logo de seguida às tomadas de posse se subverter totalmente tal discurso e deixar pouco a pouco para trás a esmagadora dessas pessoas, em benefício prioritário de grupos restritos de interesses, das elites financeiras, dos maiores grupos económicos e de toda a rede tóxica de influências que invariavelmente se instala e vive parasitariamente à volta daqueles.
Assim tem sido já há décadas, gerando um desenvolvimento desequilibrado, tornando-se, como no caso do Turismo, muitas vezes bem pouco sustentado, o que por sua vez não cessa de alimentar desigualdades sociais, dificuldades, empobrecimento, bloqueios e atrasos injustificados na vida das populações das nove ilhas, não tendo disso qualquer culpa o sistema autonómico que este ano comemora o seu Cinquentenário.
Antes pelo contrário, a conquista da Autonomia Regional nos Açores e na Madeira, como importante forma específica do exercício das funções e competências do Estado nos dois arquipélagos, aos quais só o 25 de Abril resgatou do abominável estatuto salazarista das “Ilhas Adjacentes” e do atraso e abandono de 48 anos, permitiu um profundo salto no seu desenvolvimento, ajudando a equilibrar de forma mais justa e humana, no contexto do território nacional, a cidadania portuguesa das suas populações.
A Autonomia não é um sistema acabado e, com o tempo e o “uso”, vai necessitando de aperfeiçoamentos, de entre os quais destacamos um que se vai hoje tornando indispensável: a revisão da Lei de Finanças Regionais.
Mas, como recorrentemente fazem aqueles que têm assumido o poder democrático na Região, a responsabilização política do poder central e das invocadas deficiências do sistema autonómico pelas dificuldades e desequilíbrios do desenvolvimento regional não colhe neste caso, como noutros aliás. O estado a que chegou o turismo e o seu controverso impacto económico nas restantes atividades produtivas e nas condições de vida e de trabalho dos açorianos, é responsabilidade primeira do exercício dos poderes políticos autonómicos e da gestão administrativa e orçamental da Região. O seu a seu dono, quer seja para o bem, quer seja para o mal…
Mário Abrantes