Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports conclui que a flora vascular endémica dos Açores enfrenta um risco elevado de extinção, com 60,9% das plantas avaliadas a serem classificadas em categorias de ameaça. O artigo, intitulado “Red listing the flora of the Green Islands reveals high extinction risk in the Azores”, foi publicado em 2026 e apresenta a primeira avaliação abrangente da flora vascular endémica açoriana segundo os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, conhecida pela sigla inglesa IUCN.
A investigação analisou 94 plantas endémicas dos Açores, considerando espécies e subespécies, ou seja, plantas que existem naturalmente apenas no arquipélago. Segundo o estudo, este conjunto representa cerca de 32% da flora vascular nativa da Região. A avaliação teve por base mais de 10.600 registos de ocorrência validados, exemplares conservados em herbários e levantamentos de campo recentes.
Dos 94 casos analisados, 12 ficaram classificados como “Dados Insuficientes”, por falta de informação bastante ou por questões taxonómicas ainda por resolver. Por essa razão, não entraram no cálculo final do risco de extinção. Entre as restantes 82 plantas avaliadas para esse efeito, 50 foram enquadradas nas seguintes categorias de ameaça: Vulnerável, Em Perigo ou Criticamente Em Perigo, o que corresponde a 60,9%. A categoria mais frequente foi “Em Perigo”, com 35 casos.
O estudo identifica ainda duas plantas como extintas: Vicia dennesiana e Armeria maritima subsp. azorica. De acordo com os autores, ambas não foram detectadas em levantamentos de campo dirigidos e repetidos nas localidades onde tinham sido historicamente assinaladas. Os investigadores referem também não haver conhecimento de exemplares conservados em colecções fora da natureza, como jardins botânicos ou bancos de sementes.
A pressão sobre a flora endémica açoriana é associada sobretudo à presença de espécies exóticas invasoras e à transformação de habitats, nomeadamente através da criação de pastagens ligada à actividade pecuária. O artigo refere que a flora dos Açores tem hoje uma forte presença de espécies não nativas, o que aumenta a pressão sobre plantas endémicas, muitas delas com distribuição restrita e populações reduzidas.
A análise espacial feita pelos investigadores identificou 80 zonas de maior riqueza de flora endémica no arquipélago. O estudo conclui que há falhas na actual rede de áreas protegidas: quatro dessas zonas estão apenas parcialmente abrangidas por protecção legal e oito ficam totalmente fora de áreas protegidas. Os autores defendem, por isso, a expansão da protecção legal a áreas actualmente desprotegidas, o controlo dirigido de espécies invasoras, a recuperação de habitats degradados e a integração de novas plantas endémicas nos instrumentos regionais e europeus de conservação.
O Índice da Lista Vermelha calculado para a flora vascular endémica dos Açores foi de 0,602, numa escala em que 1 corresponderia a todas as espécies em situação menos preocupante e 0 a todas extintas. Os autores consideram este valor revelador de um nível preocupante de risco de extinção e defendem que esta avaliação deve servir de base para acompanhar, nos próximos anos, a evolução do estado de conservação da flora endémica açoriana.
O artigo é assinado por Guilherme Roxo, Luís Silva, Rui Bento Elias, Diana Pereira, Mark Carine, Ann M. McCartney, Lurdes Borges da Silva, Rúben M. C. Rego, Martin Souto, Richard M. Bateman e Mónica Moura, com afiliações que incluem a Universidade dos Açores, o CIBIO/InBIO, o BIOPOLIS, o Azorean Biodiversity Group, o projecto LIFE IP AZORES NATURA, o Natural History Museum e os Royal Botanic Gardens, Kew.
