1. Há uma diferença entre perguntar e acusar. Quem pergunta procura esclarecimento. Quem acusa decide. E quando alguém troca o ponto de interrogação pelo ponto final, o “será que” pelo “é”, já não está a fiscalizar coisa nenhuma: está a sentenciar. Nisto, o presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada tem toda a razão.
Palavras como corrupção, roubo, fraude, burla não são sinónimos elegantes de dúvida. Têm peso jurídico, peso moral, e arrastam atrás de si reputações, por vezes, impolutas – as dos visados, mas também as dos trabalhadores, dos parceiros, dos agentes culturais, entre outros. Como se, de repente, por insensata baboseira verbal, todos fossem transformados em arguidos ou até acusados. Não fosse ele um advogado experiente, Pedro Nascimento Cabral acerta em toda a letra quando lembra que a democracia precisa do contraditório, mas também precisa da prova. A primeira sem a segunda é apenas ruído que não pode ficar impune, e menos ainda tornar-se ato banal e quotidiano.
2. O “bota abaixo” nas redes está a dominar a opinião dos cidadãos. Surge um vídeo de quinze segundos, sobre uma treta qualquer, cortado, descontextualizado, e, súbito, já estão todos a comentar sem sequer perguntar se o que viram é real ou a razão de ser do vídeo. Primeiro é “bota abaixo”, depois a pergunta.
E para onde isto nos leva, sinceramente, prefiro nem saber. Caminhamos rumo a um mundo onde já ninguém se atreve a afirmar publicamente que este anonimato digital é um comportamento perigoso, com medo do linchamento que vem a seguir. Nas redes, qualquer indivíduo consegue destruir a reputação alheia num segundo, sem prova nenhuma e sem nunca precisar de assumir a cara. É como uma espécie de ditadura invertida — já não é o Estado que nos cala, somos nós próprios, uns aos outros, escudados no anonimato e no gosto fácil. No final, ganha quem grita mais alto e mais depressa, não quem tem razão — e isso, numa sociedade que se preze, devia mesmo preocupar-nos.
Luís Soares Almeida
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