O Professor Doutor José Luís Brandão da Luz foi – e é – um Professor Notável da Universidade dos Açores, da Universidade, em Universalidade. Damos, aqui, o devido, e merecido, destaque a um dos seus livros, que constitui, em dinâmicas de escrita, uma Obra de Referência. O livro que aqui referenciamos intitula-se Os Açores na Filosofia e na Cultura. Estudos II, no qual são estudados, e dados a ler e a estudar, oito proeminentes Figuras. Sendo um livro organizado por Capítulos permite várias entradas e saídas, em singularidade e unidade. O livro tem sete entradas, que me puseram, e põem, em diálogo profundo, pelo conhecimento pessoal, científico e filosófico que criou – e cria – intertextualidades de Significação e de Sentido, – da partilha comum -, refiro-me ao Estudo sobre o Professor Doutor Gustavo de Fraga e ao Estudo sobre o Professor Doutor José Enes, sendo estudos e escritos, dados a ler, em sete capítulos, por outra Notável Figura, e Ilustre Professor, o Professor Doutor José Luís Brandão da Luz, que foi meu Professor, logo no 1º Ano do Curso de História e Filosofia (via ensino) [curso de 5 anos, pré-Bolonha], na Disciplina de Epistemologia Geral, ele, também, uma Figura Ilustre a estudar e investigar e sobre o qual, Pensamento, Obra e Ação Pedagógico-Didática, entre outras dimensões, tenciono escrever, sempre mais, pelo apelo que a sua Obra – em sentido amplo – me desperta, a sua ação como Educador, Professor, Filósofo, e o mais, de que daremos conta. Salvaguarde-se que há já um Notável Livro de Homenagem ao Professor José Luís Brandão da Luz, intitulado Horizontes do Conhecimento. Estudos em Homenagem a José Luís Brandão da Luz, publicado em 2015.
Nesta minha Abordagem, e outros textos, o Método vai da Intertextualidade para a Singularidade dos seus Estudos. Figuras de Relevo que imensamente ajudaram – e ajudam – a edificar a Sociedade Açoriana, numa fase decadente, – apesar de 50 anos de Autonomia Constitucional – por sucessivas faltas de políticas que coloquem a Pessoa em Primeiro Lugar. Ora, o Professor, se o é, como é o Caso, manifesto, do Professor Doutor José Luís Brandão da Luz, em muito contribui para a edificação e desenvolvimento, integral, das Sociedades e Comunidades, no Caso, dos Açores.
E sem mais, a Palavra é do Professor José Luís Brandão da Luz que, no Capítulo 15 do livro Os Açores na Filosofia e na Cultura. Estudos II, abre sobre e com o Professor Gustavo de Fraga, no Tema mais Alto Possível: “A Questão de Deus”. Eis o Tema do Capítulo 15: “Gustavo de Fraga e a Questão de Deus”.
Emanuel Oliveira Medeiros
Por José Luís Brandão da Luz:
GUSTAVO DE FRAGA E A QUESTÃO DE DEUS
Andamos de hora em hora Deus a construir
E Ele foge-nos sempre! No ser, na poesia,
Em tudo sinto que morremos dia a dia,
Sem esperanças, sempre expostos ao devir.
Gustavo de Fraga, Rogai por Nós, Pecadores.
Serve a epígrafe como indicador do estado de espírito de um percurso de vida que nunca desistiu de orientar o olhar em direção a onde a luz se acende, conforme a exortação de Santo Agostinho e, depois dele, Malebranche e outros. O tema de Deus fazia parte das preocupações de Gustavo de Fraga e entrava naturalmente nas suas aulas e nos encontros informais que cultivava, sempre sem a pressão das horas e com aquela fluência discursiva de enlaçar os assuntos livremente: íamos para onde a conversa nos levava e convivíamos tranquilamente, sem pressas. O correr do tempo, que pretende impor limites ao ritmo da relação entre as pessoas, não fazia valer o seu compasso, como também observou Emanuel Oliveira Medeiros, que foi seu aluno e assistente na Universidade dos Açores 1. Com o Professor Fraga não estávamos in tempore, mas, decididamente, cum tempore, em que só a supremacia do presente pontificava, dando medida ao passado e ao futuro.
Guardo a lembrança de um final de tarde, no litoral de Ponta Delgada. O desenrolar da conversação levou-me a estacionar o carro, não fosse a fruição do encontro deparar com algum contratempo indesejável! A serenidade do mar, com a serra de Água de Pau em fundo, convidava à viagem pelo interior mais oculto dos temas que a filosofia debate. O Professor Fraga falava de Husserl, Jaspers, Marcel e outros dos seus autores de eleição. De súbito, ao passar por Descartes, irrompe espontânea a confissão de quem se sente preso à cadência meditativa do pai da filosofia moderna, denominação de Hegel que gostava de lembrar: «Há na Terceira Meditação qualquer coisa de que não conseguimos escapar e nos amarra por dentro»! Aquela forma de chegar a Deus a partir do valor objetivo da sua ideia em nós, ou da realidade nela representada, cria um laço que prende o espírito a uma irresistível claridade, que se não deixa no entanto fixar.
Iremos procurar acompanhar a ligação do seu pensamento ao tema de Deus – «preocupação da sua vida inteira de filósofo»2 –, em alguns dos estudos que publicou e também, de modo especial, na forma como conduziu a aproximação à fenomenologia de Husserl. Antes, porém, faremos uma abordagem à produção poética do período tardio, em que o tema perde sustentação metafísica e ganha fulgor religioso, com recorte cristocêntrico e algum lirismo consolador.
1. A poesia e o acesso a Deus
Os dois pequenos livros de poemas que Gustavo de Fraga reuniu, quando rondava os oitenta anos, têm Deus como presença persistente e sempre distante:
Nunca alcancei porém, os frutos de verdade,
Porque um Deus existente sempre me fugia,
A ideia morta para nada me servia,
Embora consagrada pela liberdade» 3.
Assim exprimia a insatisfação pelas construções da razão que vários autores foram apresentando, através dos séculos, para afirmar Deus como necessário.
(Continua)
Referência Bibliográfica:
José Luís, Brandão da Luz (2021). Os Açores na Filosofia e na Cultura. Estudos II. Ponta Delgada: Letras Lavadas, pp: 245-247. (Continua)
1 Cf. Emanuel Oliveira Medeiros, José Enes e Gustavo de Fraga: Pastores da Verdade na Luz do Ser, p. 50.
2Manuel Cândido Pimentel, «Gustavo de Fraga: entre fenomenologia e metafísica», p. 86.
3Gustavo de Fraga, Rogai por Nós Pecadores, p. 25.
Emanuel Oliveira Medeiros*
Professor Universitário
*Doutorado e Agregado em Educação, Especialidade de Filosofia da Educação
Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas