Os trabalhadores da conserveira COFACO deverão avançar para uma paralisação total da actividade após os sindicatos que os representam acusarem a administração da empresa de manter uma postura de “intransigência” face às reivindicações laborais apresentadas ao longo dos últimos anos.
A decisão foi anunciada esta quinta-feira, 2 de Julho, através de um comunicado conjunto divulgado pelo Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Alimentação, Comércio e Escritórios, Hotelaria, Turismo e Transportes dos Açores (SITACEHTT/Açores) e pelo Sindicato dos Trabalhadores Agro-Alimentares e Hotelaria da Região Autónoma dos Açores (SINTABA), após a realização de plenários com os trabalhadores.
Segundo as estruturas sindicais, a decisão de avançar para a greve surge na sequência de um processo negocial marcado, alegadamente, pela recusa reiterada da administração em discutir melhorias nas condições laborais, num contexto que os representantes dos trabalhadores classificam como de “anos consecutivos de bloqueio salarial, congelamento de carreiras e perda continuada de poder de compra”.
No centro das reivindicações estão três exigências consideradas pelos sindicatos como fundamentais e inadiáveis. A primeira prende-se com a necessidade de um aumento salarial imediato, que permita compensar o impacto do aumento do custo de vida e recuperar o poder de compra perdido pelos trabalhadores ao longo dos últimos anos.
Em paralelo, os sindicatos exigem o descongelamento das carreiras profissionais e a criação de mecanismos de progressão e promoção interna. De acordo com o comunicado, existem trabalhadores com várias décadas de serviço que permanecem enquadrados nas categorias profissionais mais baixas, situação que é apontada como um exemplo de desigualdade e ausência de valorização interna.
A terceira reivindicação diz respeito à actualização do subsídio de refeição. Os representantes sindicais consideram que o valor actualmente praticado está desajustado da realidade económica da Região Autónoma dos Açores e defendem uma revisão que permita cobrir de forma efectiva o custo médio diário de uma refeição.
As organizações sindicais sustentam ainda que a ausência de respostas concretas por parte da administração tem vindo a gerar um clima de crescente desmotivação entre os trabalhadores, agravado pelo aumento das exigências em matéria de produtividade sem que exista, segundo afirmam, uma contrapartida proporcional ao nível salarial ou às condições oferecidas pela empresa.
No comunicado, os sindicatos sublinham que “não estão a pedir bónus extraordinários”, mas sim “dignidade”, considerando que a manutenção de trabalhadores durante anos nas mesmas categorias profissionais, sem progressão nem aumentos salariais significativos, representa uma desvalorização do esforço diário de quem assegura a actividade produtiva da empresa.
O SITACEHTT/Açores e o SINTABA lamentam ainda que a administração da empresa, segundo defendem, esteja disposta a enfrentar os impactos económicos e operacionais de uma greve geral em vez de apresentar propostas concretas que permitam alcançar um entendimento e restaurar a paz social no interior da empresa.
As duas estruturas afirmam ter esgotado todas as tentativas de diálogo e recordam que o recurso à greve constitui um direito constitucional dos trabalhadores. Os pré-avisos de greve serão agora formalmente entregues à administração da COFACO e às entidades competentes, ficando por definir as datas exactas e os moldes da paralisação.
No final do comunicado, os sindicatos deixam claro que consideram a administração totalmente responsável pelos eventuais prejuízos que a greve possa provocar na actividade da empresa, reiterando, contudo, disponibilidade para retomar negociações, desde que sejam apresentadas soluções concretas de valorização efectiva dos trabalhadores.
A situação abre um novo foco de tensão laboral numa das empresas industriais mais relevantes do sector conserveiro nos Açores, com impacto particular em São Miguel, onde a evolução do processo negocial será acompanhada com expectativa pelos trabalhadores e pelo tecido económico regional.
