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Ana Rita Azevedo, Secretária Técnica da Associação de Criadores de Gado Catrina – “O objectivo é garantir que o Gado Catrina deixe de estar ameaçado e que passe a constituir um exemplo de sucesso na preservação do património pecuário açoriano”

Por enquanto confinado a umas quantas explorações na ilha Terceira, o Gado Catrina, raça autóctone dos Açores, vem despertando um crescente interesse junto de investigadores, autoridades regionais e mesmo de criadores, dadas as particularidades e potencial económico que revela. A preservação da raça e o aumento de efectivos são, presentemente, as prioridades de um processo que, a consolidar-se, poderá resultar em outras abordagens.

Para enquadrar o peso da Associação de Criadores de Gado Catrina, actualmente quantos são os associados? Estes representam a totalidade dos criadores no activo ou há outros?
A Associação de Criadores de Gado Catrina (ACGC) foi fundada em 2022, na sequência do reconhecimento oficial da raça Gado Catrina como raça bovina autóctone dos Açores.
Tratando-se de uma raça que se encontra em risco de extinção, a Associação integra actualmente todos os criadores que foram identificados até ao momento. Para além destes, conta também com associados que, apesar de não deterem animais, partilham o objectivo de preservar este importante património genético e cultural dos Açores, colaborando activamente nas iniciativas de divulgação, conservação e valorização da raça.

Qual o actual efectivo bovino da raça Catrina, quantas explorações existem e estas estão confinadas à ilha Terceira?
Actualmente, todos os animais identificados como pertencentes à raça Gado Catrina encontram-se na ilha Terceira. No entanto, isso não significa necessariamente que não existam exemplares noutras ilhas da região. A identificação e caracterização destes animais exige um trabalho de prospecção e recolha de informação que, devido a limitações financeiras e logísticas, ainda não foi possível realizar de forma sistemática nas restantes ilhas. No entanto, acreditamos que poderão existir ainda exemplares da raça por identificar quer na ilha Terceira quer nas restantes ilhas do arquipélago.

A tendência é de crescimento?
Sim. Apesar de se tratar de uma população reduzida, o crescimento da raça tem sido consistente desde o seu reconhecimento oficial. O aumento do interesse dos criadores, o trabalho desenvolvido pela ACGC e a implementação de medidas de conservação têm permitido uma evolução positiva dos efectivos. Naturalmente, sendo uma raça em recuperação, este crescimento é gradual, mas os indicadores actuais são encorajadores.

Porque não se expande para outras ilhas?
A questão não se prende com uma falta de interesse em expandir a raça. Pelo contrário, a Associação vê com bons olhos a sua disseminação por outras ilhas dos Açores, até porque à medida que os efectivos aumentem e a população se torne mais estável, será mais fácil promover a sua expansão geográfica. Contudo, tratando-se de uma raça em risco de extinção, a prioridade tem sido garantir a sua conservação e o correcto acompanhamento reprodutivo e genético dos animais existentes, de modo a assegurar cruzamentos adequados para garantir a sustentabilidade da raça. No entanto, os criadores têm total liberdade para comprar, vender ou transferir animais, tendo apenas que cumprir os requisitos legais referentes ao movimento dos animais em causa, quer à Associação, enquanto entidade gestora do Livro Genealógico da Raça, quer aos serviços regionais competentes.

Que especificidades determinam o desenvolvimento da raça, em número e qualidade?
A raça Gado Catrina destaca-se pela sua extraordinária adaptação às condições edafoclimáticas dos Açores, particularmente às zonas de altitude e aos terrenos mais exigentes. Trata-se de uma raça rústica, resiliente e altamente eficiente na utilização dos recursos naturais disponíveis, características que lhe conferem um elevado valor no contexto da sustentabilidade dos sistemas pecuários e da preservação da biodiversidade genética regional.
Muitas destas características são reconhecidas há várias gerações pelos criadores, através da observação directa dos animais e da experiência no terreno. Neste contexto, com o objectivo de validar cientificamente este conhecimento empírico, a ACGC tem vindo a desenvolver diversos projectos de investigação em parceria com o Centro de Biotecnologia dos Açores da Universidade dos Açores (CBA-UAc).
Estes estudos abrangem diferentes áreas, desde a caracterização genética da raça e a identificação de genes associados a características de interesse produtivo, nomeadamente relacionados com a qualidade da carne e do leite, até à análise do microbioma gastrointestinal e da sua resposta a diferentes regimes alimentares.
Para além da sua importância enquanto património genético dos Açores, o Gado Catrina constitui também um valioso modelo biológico para o estudo de estratégias que possam contribuir para uma pecuária mais eficiente e sustentável, com potencial aplicação em áreas como a produtividade animal, a saúde e o bem-estar dos efectivos, a eficiência alimentar e a redução do impacto ambiental das explorações.
Do ponto de vista produtivo, a raça apresenta uma reconhecida aptidão para a produção de carne de elevada qualidade, associada a sistemas extensivos de pastoreio. A preservação da sua variabilidade genética, o acompanhamento rigoroso dos efectivos através do Livro Genealógico e a selecção criteriosa dos reprodutores serão determinantes para assegurar o crescimento sustentável da população e a valorização futura da raça, tanto em termos quantitativos como qualitativos.

Qual o potencial económico e comercial da raça Catrina? E porquê?
O Gado Catrina apresenta um elevado potencial económico, especialmente no segmento da produção de carne diferenciada e de elevado valor acrescentado. Trata-se de uma carne associada a um sistema tradicional de criação em liberdade, em pastagens naturais, o que resulta num produto com características organoléticas muito apreciadas pelos consumidores.
Quem prova carne de Gado Catrina reconhece de imediato a intensidade do sabor, a suculência e a textura distinta que a diferenciam. A raça apresenta ainda uma aptidão natural para a deposição equilibrada de gordura intramuscular, contribuindo para uma experiência gastronómica de elevada qualidade.
Esta percepção foi confirmada num evento de degustação realizado no restaurante da Associação Agrícola da Ilha Terceira, onde foi servida carne proveniente de um animal com 19 anos de idade, ao qual, mesmo tratando-se de um animal com uma idade muito superior à normalmente utilizada para produção de carne, os participantes destacaram a qualidade, tenrura e riqueza de sabor do produto, demonstrando o potencial gastronómico da raça.
Para além da vertente económica, importa referir o valor cultural e patrimonial associado à raça, que pode constituir um importante elemento diferenciador da identidade agro-alimentar açoriana.

Quais os actuais níveis de interesse pelo consumo da carne, seja a nível local, incluindo restauração, seja para exportação?
Embora a produção actual ainda seja reduzida e insuficiente para abastecer mercados de maior dimensão, temos observado um interesse crescente por parte dos consumidores, dos diferenciados. Sempre que a carne de Gado Catrina é apresentada em acções de divulgação ou degustação, a reacção tem sido extremamente positiva, destacando-se frequentemente a sua suculência, textura e sabor característico. Esse interesse já se reflecte na comercialização da carne por alguns talhos locais, como o Talho Rocha, que tem apostado na valorização deste produto junto dos consumidores. Inclusivamente, a carne de Gado Catrina já foi apresentada em eventos de âmbito internacional, integrando acções de degustação promovidas no contexto de feiras agrícolas, onde o feedback obtido junto de visitantes e profissionais do sector foi igualmente muito positivo. Estes resultados demonstram o potencial da raça para conquistar nichos de mercado que valorizam produtos autênticos, sustentáveis e com forte ligação ao território.
Nesta fase, o principal desafio não é a procura, mas sim assegurar o crescimento dos efectivos da raça de forma equilibrada, sem comprometer a sua diversidade genética e os objectivos de conservação que lhe estão associados. Garantida essa etapa, à medida que os efectivos aumentem, existirão condições para desenvolver canais de comercialização mais estruturados e abrangentes, capazes de responder ao interesse crescente dos consumidores, tanto a nível regional e nacional como, futuramente, em mercados internacionais que procuram produtos autênticos, exclusivos e de elevado valor acrescentado.

Como vê o interesse por parte do Governo Regional no desenvolvimento da raça?
A Associação está muito satisfeita com a parceria estabelecida com o Governo Regional. Desde as primeiras etapas do processo de reconhecimento da raça, as entidades governamentais competentes, em particular a Secretaria Regional da Agricultura e Alimentação, demonstraram total disponibilidade para colaborar e apoiar os trabalhos desenvolvidos. Esse apoio tem sido fundamental para assegurar a conservação deste património genético único e para criar condições que permitam o crescimento sustentado da raça. Sem incentivos financeiros, à semelhança do que se passa com as restantes raças autóctones, torna-se muito difícil atrair novos criadores, bem como assegurar que todas as acções para uma boa gestão da raça sejam aplicadas.

E por parte das associações agrícolas e da Federação Agrícola dos Açores?
Também temos sentido uma atitude positiva e construtiva por parte das organizações do sector agrícola, sendo o envolvimento destas entidades fundamental para consolidar o futuro do Gado Catrina. Destacamos, em particular, o apoio e o interesse demonstrados pela Associação Agrícola da Ilha Terceira e pelo Núcleo de Criadores de Bovinos de Raças de Carne da Ilha Terceira, que têm tido um papel activo na divulgação da raça e na criação de oportunidades para a sua valorização. Esse contributo tem-se traduzido, sobretudo, na inclusão de animais da raça em iniciativas e eventos do sector, bem como na representação da própria Associação em feiras agrícolas sob sua responsabilidade.

Uma opinião sobre o projecto MAXBOV. Quais exactamente os objectivos?
O MAXBOV surgiu de uma lacuna muito concreta: sabemos que o Gado Catrina sobrevive e produz em condições onde outras raças simplesmente não conseguem, mas nunca percebemos bem porquê, pois, embora os criadores vejam isso no campo há décadas, a ciência ainda não explicou os mecanismos. Neste contexto, com o projecto Maxbov, o CBA-UAc pretendia perceber como é que estes animais conseguem tirar partido de pastagens pobres a nível nutritivo, em altitude, com tão pouca suplementação, e, ainda assim, manter bons índices produtivos e emitir menos metano. Com base em resultados prévios, desenvolvidos no âmbito de uma tese de doutoramento no mesmo centro de investigação, identificou-se que a chave está, provavelmente, no microbioma gastrointestinal, e é aí que vamos aprofundar com dados genómicos. No entanto, há também uma componente de gestão da raça que não podemos ignorar, pois, com menos de 40 fêmeas em linha pura registadas, cada decisão de acasalamento conta. Neste contexto, o projecto pretende fornecer mais ferramentas para uma gestão da raça de forma fundamentada, não perdendo o padrão racial que torna o Gado Catrina tão único.
Por último, à semelhança de outros projectos desenvolvidos pelo CBA-UAc, queremos que os resultados cheguem aos produtores em linguagem prática, ou seja, o que dar de comer, como gerir, como tornar as explorações mais eficientes. Não é só investigação académica, este projecto é um exemplo de que a investigação tem de funcionar no terreno e, sempre que possível, ser aplicada directamente à realidade açoriana.

Por fim, quais são as perspectivas e aspirações para o futuro do Gado Catrina nos Açores?
As perspectivas são optimistas, mas exigem ainda muito trabalho pela frente. Num futuro próximo pretendemos reforçar as acções de divulgação junto da população e do sector agrícola, procurando identificar novos animais e eventuais núcleos da raça que possam existir noutras ilhas do arquipélago.
Paralelamente, continuaremos a desenvolver programas de conservação, melhoramento genético e acompanhamento dos efectivos existentes. O grande objectivo é garantir que o Gado Catrina deixe definitivamente de estar ameaçado e que passe a constituir um exemplo de sucesso na preservação do património pecuário açoriano.
Mais do que salvar uma raça bovina, estamos a preservar uma parte da história, da cultura e da identidade rural dos Açores para as gerações futuras.

por Rui Leite Melo
*[email protected]

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