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Adeus, crónica cruel

A pergunta que mais me fizeram durante este ano de crónicas foi sempre a mesma, feita num tom de quem pesca alguma confissão: “Pra que raio estás a escrever uma crónica?” Respondi sempre de maneira diferente. Mudava de assunto antes de largar o mínimo de informação, e desviava-me com sucesso quando me testavam com a pergunta de seguimento: “Queres entrar na política?” Aprendi que ninguém acredita que alguém escreva de graça e, confesso, tinham razão em desconfiar. Só que a agenda nunca foi política.
A culpa da vontade de cronicar começa por ser do Hunter S. Thompson. Meses antes da primeira crónica, devorei vários dos seus livros e emergi daquele pântano tonto e convertido. Jornalismo Gonzo: alimentado pelo excesso de tudo o que não deve ser tomado sequer em dose mínima, pura magia para mim. E no meio daqueles delírios todos, vi a verdade. Tentei muitas vezes trazer esse veneno para estas páginas, pisando a fronteira do risco que separa o engraçado do engraçadinho. Uma linha que nos Açores transforma um homem rapidamente numa anedota. Quase sempre aterrei de pé. Só nunca aterrei no Aeroporto Nuno Bettencourt.
O Thompson é a resposta bonita, mas é só metade da verdade. A outra metade é mais embaraçosa.
Há seis anos que uma história me assombra. Um episódio bizarro, de uma pessoa bizarra que conheci de raspão, e que culminou na sua morte. Não conto mais, porque a história nunca caberia aqui. Precisa de um livro inteiro. E, esse livro montou-se sozinho na minha cabeça, com capítulos, princípio, meio e fim. Penso nele várias vezes por dia, há seis anos! Obcecado com uma ideia que teima em chegar-me já acabada, tão inteira e formada que mal consigo assumir o crédito de a ter gerado.
Três vezes escrevi grande parte da prosa. Três vezes mandei tudo para o lixo, por embaraço puro. Não consegui ler sequer duas páginas sem que o vómito me tocasse nas amígdalas. Precisava de escrever este livro e não sabia escrever. Fiz muito para aprender, acredite, mas nada ensina como a bela disciplina do volume. Escrever, escrever muito. Quando me apercebi disso, a solução apareceu.
A solução foi esta crónica. Propus-me, do nada, a 52 edições semanais, públicas, submetendo-me à selva das opiniões dos fiscais de olho grande, sempre prontos para abençoar a criação com a sua esbelta perspetiva destrutiva. Com o jornal como ginásio, você, caro leitor, assumiu-se como mirone dos meus treinos, um voyeurismo legal leia- se. Cada semana uma experiência: testar registos, afinar a voz, falhar com plateia. E perceber que o velho Hemingway tinha razão quando mandava escrever sempre a frase mais verdadeira que se souber.
Mais fácil dito do que feito. Porque ser verdadeiro na escrita não é contar factos: é preciso ser verdadeiro mesmo quando se conta a maior mentira, ou uma grande ferrada. Mesmo quando se escreve sobre elfos e fadas madrinhas dos dentes aladas, se o leitor não sente a verdade, afasta-se de imediato.
Espero que tenha chegado pelo menos até aqui. Se chegou, arrisco-me a concluir que sentiu, algures, a verdade.
O resultado disto tudo? O livro está quase pronto. Já o consigo ler sem demolhar as amígdalas em sucos estomacais, o que é um verdadeiro milagre, se comparado com a primeira versão, que, com sorte, arde neste momento nos confins do inferno, para bem da minha credibilidade.
Por isso uso esta última edição da minha crónica semanal no Diário dos Açores como cartório. Escrevo aqui, em pedra, onde não dá para apagar, o compromisso de que o livro sai. Nem que seja impresso em folhas A4, com o título na primeira página em WordArt. Com vergonha, com medo da crítica e com a certeza de que, enquanto não mandar esta história cá para fora, não terei descanso.
Adeus, crónica cruel. Foste 52 vezes o meu carrasco e o meu treinador. Mataste-me um bocadinho todas as semanas e deste-me sempre sete dias para ressuscitar. Em pelo menos metade dessas vezes dei por mim às quatro da manhã do dia do deadline, a escrevinhar meias ideias que fui apanhando durante o passar das semanas, hipnotizado pelo aproximar do limite de entrega. O Thompson também nunca entregou nada a horas, e ao menos nisso saí um aluno exemplar.
Resta-me agradecer a este jornal a coragem de ter deixado correr, durante um ano inteiro, gonzo açoriano nas suas páginas. Agradeço também a si, caro leitor, por ser mirone, e por dar uma hipótese ao que leu sem chamar as autoridades. E se um dia me vir de volta a elas desconfie. Dessa vez, se calhar, é mesmo política. E, se assim for, tenha medo. Muito medo!

Philip San-Bento Pontes

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