“Eu sei – e se não soubesse a realidade histórica e mítica do Arquipélago mo lembraria – que não estou precisamente em Viana do Castelo nem em Bragança que não são definidas na Constituição como regiões autónomas (e que o fossem…) mas nos Açores, território e realidade singular no espaço de raiz e invenção portuguesas a que os séculos, a distância e os homens imprimem uma identidade particular.” 1
– Eduardo Lourenço (1923 – 2020), professor, escritor e filósofo português; figura das mais marcantes do património cultural, académico e literário português das últimas várias décadas.
Hesitei muito em trazer os dedos ao teclado para escrever esta matéria que, mesmo se a apresento como uma de minhas crónicas de opinião, se quer um desabafo. Na verdade, já tinha um esboço desta matéria arrumado há várias semanas. Bem mais pujante! De vez em quando, visitei-a, sem nunca me decidir a dar-lhe corpo inteiro e contexto. Foi, há dias, depois de uma entrevista na Lusaq TV, com o Chefe de Redação do jornal LusoPresse de Montreal, Norberto Aguiar, onde falamos de “autonomia” (açoriana) e de “bairrismos” nos Açores, que me decidi a finalizar, aqui, aquele que era o meu projeto inicial: corrigir a percepção errada, desinformada e injusta do que representa a insistência de um povo, neste caso o povo açoriano, em fincar o pé e exigir que seja reconhecido que o seu contributo à Nação, Portugal, é, porventura, mais preciosa e mais relevante e significante quando se percebe que a sua portugalidade em nada é diminuída pela sua identidade distinta, a sua Açorianidade.
Há várias semanas, num importante evento comunitário, aqui em Montreal, um dos indivíduos que usou da palavra, uma pessoa que eu sei genuinamente amante dos Açores e dos Açorianos, tentou enfatizar que (afinal) “os Açores não são mais do que as outras regiões de Portugal”. Ditto! Não obstante a veracidade daquela afirmação, que eu, por acaso, depois de alguma reflexão, interpretei como um lapso ingénuo e infeliz, naquela altura deixou-me ultrajado, tanto quanto outros portugueses de origem açoriana ali presentes. Afinal, aquela é a leitura que fazem muitos das nossas concidadãs e dos nossos concidadãos portugueses que, na vasta maioria dos casos, nunca se deram à pena de se informar sobre o fundamento e, nem, o histórico daquela nossa insistência identitária. Não terá sido por acaso, nem por capricho político, que a autonomia dos Açores – e da Madeira – foi reconhecida e consagrada, a 2 de abril de 1976, na Constituição da República Portuguesa. Já na passada sexta-feira,26 de junho, em discurso na Assembleia da República, o presidente daquele órgão, José Pedro Aguiar-Branco, enfatizou que “[…] há 50 anos, a Constituição estabeleceu o princípio, mas foram os madeirenses e os açorianos que souberam lutar para garantir a autonomia […]” Acrescentou, ainda, naquela mesma intervenção, os nomes de Portugueses de origem açoriana e madeirense que contribuíram, ao longo das últimas cinco décadas, à atividade político-governativa em Portugal – Guilherme Silva; José Medeiros Ferreira; Carlos César; Alberto João Jardim; João Bosco Mota Amaral e Jaime Gama– [entre outras e outros], afirmando-os como “Figuras que aprendemos a respeitar. Porque serviram o país inteiro, sem nunca esquecerem as suas regiões”. Ainda bem!
Recordo-me que há dois ou três anos, numa atividade na nossa Casa dos Açores do Québec, aqui em Montreal, que se queria uma afirmação (também) da nossa “portugalidade”, um membro influente da nossa comunidade lá presente, uma pessoa por quem, pessoalmente, tenho elevada consideração e admiração, declarou-se feliz de, pela primeira vez em 37 anos, ter [posto os pés] na Casa dos Açores do Québec. Tratava-se, entretanto, de uma pessoa particularmente ativa, – influente, como eu dizia -, nas associações, festivais, clubes, bailes da nossa comunidade portuguesa em Montreal. A nossa Casa dos Açores tinha-lhe escapado à atenção, naqueles anos todos. Não sei se lá voltou depois… Pudera! Não se trata de um caso isolado.
Conforme já tive a oportunidade de recordar nestas páginas, o Presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, na sua intervenção na Sessão Solene comemorativa do Dia da Região Autónoma dos Açores, a 24 de maio de 2021 – citando o preâmbulo do Decreto Regional que, a 21 de agosto de 1980, institucionalizou o Dia da Região Autónoma dos Açores e sublinhando a [afirmação da identidade dos açorianos, da sua filosofia de vida e da sua unidade] -, recordou que “Já houve tempos em que fomos esquecidos. Éramos as ilhas adjacentes. Mas a Democracia e a nossa Autonomia Política recentraram os Açores no quadro de um País livre [Portugal]”. Várias têm sido as ocasiões, desde então, nas quais o Presidente Bolieiro, vem afirmando aquela nossa dualidade: a Açorianidade e a Portugalidade. Aliás, já a 1 de dezembro de 2014, Vasco Cordeiro, antigo Presidente do Governo Regional dos Açores, num discurso naquela nossa mesma Casa dos Açores, durante uma visita oficial a Montreal, dirigindo-se ao Senhor Embaixador de Portugal no Canadá, então em exercício, recordou, com firmeza, que “Defender e promover os Açores… defender as comunidades açorianas não retira nada ao país, acrescenta ao país! Defender e fortalecer as comunidades açorianas não envergonha o país, prestigia o país! Defender e enaltecer as comunidades açorianas não enfraquece a presença de Portugal, fortalece a presença de Portugal, não só aqui no Canadá, como noutros países do mundo, onde existem comunidades significativas, em número significativo de ascendência açoriana.”
Nós Açorianos, estamos habituados e, até, de certa forma, apreciamos receber as palmadas afetuosas nas costas, os abraços e as beijocas de circunstância em discursos e escritos nas celebrações do Dia da Região Autónoma dos Açores. Que venham, tantas quantas sirvam, também, para recordar aos demais que, afinal, mesmo se diferentes, somos iguais…
Queria, ainda, desenvolver aqui aquela minha percepção de como a “Autonomia dos Açores” e os “bairrismos” existentes nos Açores são vistos por lá, e o quanto representam, a meu ver, preocupações maiores de atuais dirigentes políticos açorianos. Constrangimentos editoriais não mo permitem. Quiçá, voltarei ao assunto.
Duarte M. Miranda
1. Onésimo Teotónio de Almeida, “Eduardo Lourenço e os Açores”, Diário dos Açores, 5 de dezembro de 2020