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Análise genética confirma captura acidental de raro tubarão-tigre-da-areia em São Miguel

Uma análise genética confirmou que o tubarão capturado acidentalmente por pescadores na ilha de São Miguel pertence à espécie Odontaspis ferox, um tubarão raro e ainda pouco conhecido pela ciência. A identificação resultou do estudo de material biológico recolhido e enviado pela Lotaçor, no âmbito da colaboração mantida com a Universidade dos Açores, tendo as amostras sido processadas num laboratório internacional.
Segundo a Lotaçor, o resultado demonstra a importância da informação recolhida através das lotas e do contacto regular com a frota regional para o conhecimento dos recursos haliêuticos, a investigação científica e o apoio às decisões de gestão. A empresa tem vindo a aprofundar a cooperação com universidades, centros de investigação e investigadores de diferentes áreas, partindo da premissa de que não é possível gerir e valorizar adequadamente os recursos marinhos sem conhecer a sua diversidade, distribuição e evolução.
A confirmação genética não corresponde, contudo, à descoberta de uma espécie nova nos Açores. O Odontaspis ferox, designado pela Lotaçor e pela Universidade dos Açores como tubarão-tigre-da-areia e registado no Portal da Biodiversidade dos Açores como tubarão-areia, já tinha ocorrências documentadas no arquipélago. O dado novo é a identificação molecular do exemplar capturado em São Miguel, que permite acrescentar um registo confirmado ao conhecimento disponível sobre a espécie.
Um estudo publicado em 2018 por investigadores ligados à Universidade dos Açores reuniu 14 novos registos de Odontaspis ferox no arquipélago, correspondentes ao período compreendido entre 1996 e 2014. Os exemplares tinham sido capturados através de pesca submarina, arpão e linha de mão ou ficado presos em artes de pesca.
A investigação classificou o Odontaspis ferox como uma espécie demersal muito rara, associada às plataformas e vertentes insulares, embora possa efectuar incursões ocasionais em águas pouco profundas. Os autores salientaram igualmente que a sua biologia e ecologia permanecem insuficientemente conhecidas.
Os registos açorianos então estudados foram complementados com entrevistas a pescadores, análise de fotografias e, num dos casos, um exame após a morte do animal. O trabalho científico concluiu que as estatísticas relativas às capturas acidentais são essenciais para avaliar a situação da espécie e fundamentar futuras orientações de conservação e gestão.
O Portal da Biodiversidade dos Açores regista a espécie com o estatuto de colonização de “vagrante”, indicando que a sua ocorrência no arquipélago é esporádica e que não é conhecida uma população residente.
A avaliação mundial mais recente da União Internacional para a Conservação da Natureza, publicada em 2024, colocou o Odontaspis ferox na categoria de “Em Perigo”, agravando a anterior classificação de “Vulnerável”. A espécie apresenta uma distribuição mundial muito dispersa, mas baixa produtividade biológica e reduzida capacidade para suportar a pressão da pesca, sendo atingida sobretudo através de capturas acidentais. A avaliação de 2024 da UICN aponta para uma população em declínio.
A identificação do exemplar capturado em São Miguel reforça, assim, a relevância da cooperação entre pescadores, Lotaçor e comunidade científica. Num animal raramente observado e sobre o qual continuam a faltar dados, a recolha de amostras, o registo das circunstâncias da captura e a confirmação genética podem fornecer informação importante sobre a presença e a distribuição da espécie nas águas açorianas.

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