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Água de Pau — Onde a Água Encontrou o Pau A Vila de Água de Pau celebra 511 Anos de História – 1515 – 2026 (Parte I)

Há quem viaje pelo mundo. Eu prefiro viajar pelo Tempo. Porque há lugares que só existem na memória. E há memórias que só continuam vivas enquanto houver alguém disposto a contá-las. Nasci na Vila de Água de Pau, nos Açores, uma terra onde cada pedra, cada ribeira e cada caminho guardam histórias que os livros nem sempre escreveram.
Porque um povo sem memória perde uma parte da sua alma. E enquanto houver uma história por contar. . . haverá sempre mais uma viagem para fazer. Bem-vindos… a uma viagem no Tempo. Onde a Água Encontrou o Pau Porque a água deu o nome à terra. Mas foi o seu povo que lhe deu alma.
A Vila de Água de Pau celebra 511 Anos de História – 1515 – 2026
Hoje volto a abrir uma velha gaveta da minha casa. É uma gaveta simples. Mas guarda um tesouro. Dentro dela vivem fotografias antigas, cartas, documentos, apontamentos e pequenos objetos que o tempo foi deixando nas minhas mãos. Sempre que a abro, acontece o mesmo. Os rostos parecem ganhar vida. Os olhos daqueles homens e daquelas mulheres olham para mim como se me dissessem:
“Não nos deixes cair no esquecimento.”
Fecho lentamente a gaveta. E, por instantes, também fecho os olhos.
Quando volto a abri-los, já não estou no século XXI. O cheiro do papel antigo desapareceu. Sinto agora o sal do Atlântico. O vento enfuna as velas de uma caravela que navega lentamente ao longo da costa sul da ilha de São Miguel. Estamos na segunda metade do século XV. À nossa frente erguem-se altas arribas de lava negra, esculpidas pelo fogo dos vulcões e pelo bater incessante das ondas. Ao longe destaca-se um enorme penedo cuja forma lembra a quilha de uma galera. É por ele que os marinheiros começam a identificar este lugar.
A embarcação continua a deslizar lentamente. As escarpas escondem grutas, pequenas umas, profundas outras. Pequenas enseadas surgem entre a rocha vulcânica. Até que, subitamente, a paisagem muda.
Uma cascata de água cristalina desprende-se da serra e corre serenamente até ao mar. A água doce rasga a areia antes de se misturar com o Atlântico.
Nenhum daqueles homens o sabe ainda. Mas é precisamente ali que começará uma das mais belas histórias da ilha de São Miguel.
A bordo seguem fidalgos, povoadores e trabalhadores. Entre eles encontra-se Manuel Afonso Pavão. Traz consigo uma Carta Régia que lhe permite estabelecer-se onde quiser. Não procura apenas terras. Procura futuro.
Quando desembarca, talvez não imaginasse que, mais de cinco séculos depois, ainda haveríamos de pronunciar o seu nome. Ali começava uma nova história.
A história da Vila de Água de Pau.
“Onde a Água Encontrou o Pau”
“Porque a água deu o nome à terra. Mas foi o seu povo que lhe deu alma.”
Fomos povoadores, banhados numa cascata da ÁGUA que corria num regato DE PAU!
Água de Pau é água, terra fértil e trabalho. É património, memória e identidade. É povo, história viva e exemplo de perseverança.
Ao longo de mais de cinco séculos, muito foi construído. E enquanto esse espírito perdurar, a Vila de Água de Pau continuará a honrar os seus 511 anos de História, com orgulho no passado, responsabilidade no presente e confiança no futuro.
Quando olho para Água de Pau vejo muito mais do que ruas, casas, igrejas ou paisagens. Vejo, homens e mulheres que nunca aparecerão nos livros da História de Portugal. Mas sem os quais a história da nossa Vila jamais teria existido.
São eles os verdadeiros heróis da sua história. Foram eles que construíram os muros. Abriram os caminhos. Plantaram as árvores. Levantaram os moinhos. Fizeram correr a água pelos fontanários. Ensinaram os filhos. Consolaram os vizinhos. Partiram para a guerra. Emigraram. Regressaram. Rezaram. Sofreram. Amaram. Viveram.
É a eles que pertence as narrativas e as crónicas dos meus dois livros “Antes Que A Memória Se apague – Crónicas de Água de Pau”. Eu limitei-me a escutá-los. E enquanto houver alguém disposto a contar a sua história, continuarão vivos os nossos antepassados.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da memória. Não impedir que o tempo passe. Mas impedir que aquilo que realmente importa desapareça com ele. A morte não começa quando alguém parte. Começa quando deixa de ser lembrado.
Volto a fechar lentamente a gaveta. As fotografias regressam ao seu lugar. Os documentos voltam ao silêncio. Os nomes permanecem escritos. Mas já não estão esquecidos.
Olho pela janela. Ao longe continua a ouvir-se o murmúrio da água que desce da serra. A mesma água que surpreendeu os primeiros navegadores. A mesma água que fez nascer uma povoação. A mesma água que alimentou campos, moinhos, fontanários e gerações inteiras. Percebo então que a água nunca deixou de correr. Quem mudou fomos nós. Ela continua a unir o passado ao presente. Como um fio invisível.
Talvez por isso Água de Pau nunca tenha sido apenas um nome. Foi sempre um destino. Uma forma de viver. Uma forma de sentir. Uma forma de pertencer.
Celebrar em 2026 os 511 anos da elevação de Água de Pau a Vila não é apenas recordar uma data inscrita num velho pergaminho régio.
É agradecer a todos aqueles que, ao longo de mais de cinco séculos, fizeram desta terra um lugar singular na história de São Miguel.
Uns construíram. Outros ensinaram. Outros governaram. Outros rezaram. Outros escreveram. Todos deixaram alguma coisa. Todos continuam presentes.
Porque uma terra nunca é apenas aquilo que herdou. É também aquilo que cada geração lhe acrescenta.
Hoje cabe-nos a nós continuar essa obra. Não apenas conservando edifícios. Mas preservando memórias. Não apenas restaurando património. Mas transmitindo identidade. Não apenas admirando o passado. Mas preparando o futuro.
Desbravamos terras e vales desde a Galera até à Serra! Construímos igreja, casebres e casas com suas hortas junto das ribeiras do Campo [Santiago], do Paul, do Lance, do Espigão e dos Lourinhos. Abrimos as ruas santas, da Trindade, de São Pedro, do Rosário, da Natividade, do Santiago e ao lado a do Cura.

Continua

Roberto Medeiros

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