Entre quintas de Limeiras, Valverdes, um Boqueirão e um Outeiro abrimos uma Carreira, uma Arrochela junto à dos Coelhos e alinhamos com a Praça uma mão cheia de ruas que riscaram toda a nossa vila, cada uma com o seu fontenário e o povo nunca passou sede! Dos vinte e cinco fontenários existentes nesta vila, quatro continuam a correr vinte e quatro horas, há mais de cem anos!
Fomos mestres de “sacho & sachola” na mão e com arte nas mãos fomos os melhores artífices, os melhores ferreiros na sua rua, as melhores tecedeiras e fiadeiras e ainda somos os melhores cesteiros.
A partir de 1515, a 28 de julho passamos a ser concelho e a nossa Vila Nova de Água de Pau derivou para a rua da Boavista – ao Pico, ao Largo Grande e ao Rochão, ao Ginjal, à Lomba, ao Pedregal e ao Pisão, ou antes destes últimos, à Portela da Caloura e ao Castelo.
Desde a rua dos Moinhos até ao fim do Caminho da Vila tivemos em Água de Pau mais de 30 moinhos de água com moleiros que foram os nossos primeiros mercadores.
As 12 fabriquetas de curtumes, seus curtidores e albardeiros, o açougue e a Casa dos Teares e Bordados” davam vida aos Barrancos nas margens das ribeiras que vinham do Paul e dos Campos [hoje ribeira do Santiago] que ali se encontravam e se projetavam em direção ao mar, na Baía dos Moinhos, que hoje conhecemos por Baixa da Areia.
Numa vila de vales paradisíacos ainda temos o Valongo, o Parol, o Carvalho, o Jardim, as Murtas, os Lourinhos, as Junqueiras, a Janela-do-Inferno ou as chãs, da Cancela, da Amoreirinha, do Castelo às Banquetinhas até à Ribeira do Limite onde o nosso antigo concelho confrontava com o de Lagoa e hoje a Vila de Água de Pau faz fronteira com a freguesia de Santa Cruz da Lagoa.
No 50º aniversário do nosso povoamento deu-se o Jubileu do lugar por onde entraram os nossos primeiros pauenses, e a seguir, para nascente-sul foram abertas as canadas, do Cerco, da Galera, a do Castelo e do Portinho. Ainda a do Cinzeiro, ali ao lado do Piquinho da Cruzinha e do Pico Redondo, todos eles, lugares nascidos após a erupção do Pico da Figueira. A este Pico da Figueira, a toponímia foi alterando para Pico do Concelho de Água de Pau em 1515 e, quatrocentos e três anos depois para Pico do Monte Santo depois das aparições de Nossa Senhora à menina Joana Tavares do Canto em 5 de julho de 1918.
E porque fomos nós os pauenses que tudo isto fizemos, eu digo e recordo que não fizemos pouca coisa.
Enquanto houver um pauense disposto a amar a sua terra acima dos interesses pessoais, das divisões ou das circunstâncias de cada tempo, Água de Pau continuará digna da sua história. Continuará fiel à coragem dos seus povoadores. Continuará a merecer a água que lhe deu o nome. Continuará a honrar aqueles que a fizeram crescer. E continuará a ensinar às gerações futuras que nenhuma comunidade é verdadeiramente rica se perder a memória das suas origens. Foi por isso que escrevi esta narrativa. Porque um dia compreendi que há histórias que não podem esperar. Se nós não as contarmos hoje… amanhã talvez já ninguém as possa contar.
Foi então que voltei a abrir a velha gaveta.
E percebi que, afinal, ela nunca guardou apenas fotografias. Guardou uma Vila inteira. Guardou um povo. Guardou quinhentos e onze anos de História. Guardou Água de Pau.
E compreendi, finalmente, que o maior património de uma terra não são as suas pedras. Nem as suas ruas. Nem os seus edifícios.
É a memória do seu povo. E essa… essa nunca poderá morrer.
Porque, enquanto houver alguém que a conte, Antes Que a Memória Se Apague, Água de Pau continuará viva.
O tempo começa lentamente a desfazer-se diante de mim. As vozes dos povoadores tornam-se cada vez mais distantes. O som dos martelos dos ferreiros desaparece. O rodar dos moinhos abranda. O sino da Senhora dos Anjos deixa de ecoar pelos vales. Volto a sentir o silêncio da minha casa.
A velha gaveta continua aberta. As fotografias permanecem exatamente no mesmo lugar.
Mas já não são apenas retratos antigos. Agora conheço-lhes a história. Porque viajar no Tempo não é fugir do presente. É compreender o caminho que nos trouxe até aqui.
Porque o passado só desaparece quando deixa de ser contado.
A memória é a única viagem que nos permite voltar sem nunca partir.”
E enquanto houver memórias por preservar… continuarei a viajar no Tempo.
Roberto Medeiros