Há momentos em que a História altera profundamente o contexto em que os territórios se desenvolvem. Não porque mudem de lugar, mas porque o mundo muda à sua volta.
Os Açores encontram-se hoje perante um desses momentos.
Cinquenta anos depois da instituição da Autonomia, a verdadeira questão já não é o que conseguimos construir, mas qual deve ser a próxima grande ambição dos Açores.
Ao longo das últimas cinco décadas, a prioridade foi vencer os constrangimentos impostos pela ultraperiferia. Melhorar acessibilidades, modernizar infraestruturas, reforçar os serviços públicos, reduzir desigualdades e aproximar os níveis de desenvolvimento dos padrões europeus constituiu um desígnio coletivo que marcou profundamente a evolução dos Açores.
Esse percurso deve naturalmente prosseguir. Sem ele, dificilmente o arquipélago estaria hoje preparado para enfrentar os desafios do século XXI.
Mas cada geração é chamada a responder aos desafios do seu tempo.
O primeiro grande desafio da Autonomia foi criar as condições para o desenvolvimento.
O próximo será transformá-las em prosperidade.
O Atlântico voltou ao centro das grandes transformações geopolíticas, científicas e económicas. A importância crescente do oceano, da economia dos dados, da observação da Terra, da proteção das infraestruturas críticas, da economia espacial e da investigação sobre as alterações climáticas devolveu aos Açores uma relevância estratégica que poucos antecipavam.
Os Açores continuam exatamente onde sempre estiveram.
O que mudou foi o mundo.
E, quando o mundo muda, muda também a forma como um território cria desenvolvimento.
Durante décadas, o grande desígnio coletivo foi reduzir os custos da distância. Hoje, sem abandonar esse caminho, o desafio é outro: transformar a nossa condição atlântica e ultraperiférica numa fonte de diferenciação competitiva.
Porque a História demonstra que a geografia, por si só, nunca garantiu prosperidade.
A diferença esteve sempre nas escolhas.
Nenhuma geração escolhe as circunstâncias que recebe. Mas todas escolhem o que fazem com elas.
A estratégia dos Açores assentou, durante muito tempo, na compensação das desvantagens estruturais da ultraperiferia. Essa opção produziu resultados decisivos e continua plenamente justificada. Mas seria um erro acreditar que continuará a ser, por si só, a principal alavanca do nosso desenvolvimento.
Os apoios públicos criam condições. Nunca substituem a criação de riqueza.
O maior risco que hoje enfrentamos já não é a distância. É a acomodação. A ideia de que o desenvolvimento depende, sobretudo, da capacidade de reivindicar mais recursos e não da capacidade de criar mais valor. Essa lógica foi decisiva para recuperar atrasos históricos. Mas não será suficiente para nos levar mais longe.
Talvez a mudança mais importante nem seja económica.
É cultural.
Habituámo-nos a medir o progresso pelas infraestruturas construídas, pelos investimentos captados ou pelos apoios obtidos.
No próximo nível seremos avaliados pela capacidade de criar empresas inovadoras, transformar conhecimento em atividade económica, atrair talento, internacionalizar a economia e gerar riqueza a partir dos ativos únicos que os Açores possuem.
O desenvolvimento depende, cada vez mais, da forma como conseguimos ligar conhecimento, empresas, investimento e instituições em torno de um objetivo comum.
O conhecimento só cria riqueza quando encontra empresas inovadoras, investimento disponível para crescer e instituições que favoreçam esse encontro.
É dessa interação que nasce a prosperidade.
Os Açores dispõem hoje de condições excecionais para construir esse ecossistema. A posição atlântica, a dimensão da zona económica exclusiva, a qualidade da investigação científica ligada ao oceano e à biodiversidade, bem como o potencial da economia azul, da observação da Terra e da economia espacial constituem ativos que poucos territórios europeus reúnem em simultâneo.
Mas nenhum destes ativos produzirá desenvolvimento por si só.
A prosperidade resulta da capacidade de todos se reforçarem mutuamente.
É essa ligação que distingue as economias que prosperam daquelas que permanecem dependentes.
Talvez este seja o maior desafio da nossa geração.
Até aqui perguntámos, legitimamente, como ultrapassar os custos da ultraperiferia.
Hoje devemos fazer uma pergunta diferente.
Como transformar essa condição numa vantagem competitiva?
Habituámo-nos a perguntar o que os Açores podiam esperar da Europa e do Estado. Talvez tenha chegado o momento de perguntar o que os Açores podem oferecer ao mundo.
Ao longo da nossa história recente aprendemos a defender aquilo a que os Açores têm direito.
Essa continuará a ser uma responsabilidade irrenunciável.
Mas o próximo nível exige uma ambição complementar: concentrar cada vez mais energia naquilo que depende de nós, reforçando a qualidade das instituições, a excelência da investigação, a competitividade das empresas, a formação dos jovens, a capacidade de atrair talento e a criação de riqueza.
Porque as sociedades que mais prosperaram nunca foram, necessariamente, aquelas que receberam mais oportunidades.
Foram aquelas que melhor souberam transformá-las em valor.
A Autonomia permitiu aos Açores criar as condições para dar o próximo passo no seu desenvolvimento.
Foi uma conquista extraordinária.
Mas nenhuma conquista dispensa a seguinte.
O sucesso do próximo nível será medido pela capacidade de transformar a nossa condição atlântica e ultraperiférica em conhecimento, inovação, investimento e prosperidade.
Continuaremos, naturalmente, a defender tudo aquilo a que temos direito.
Nenhuma sociedade constrói o seu futuro apenas com aquilo que recebe. Constrói-o pela capacidade de criar, inovar e gerar valor.
As próximas gerações herdarão os Açores exatamente onde sempre estiveram.
O Atlântico continuará no mesmo lugar.
O futuro dependerá, como sempre dependeu, das escolhas que tivermos feito.
Porque nenhuma geração escolhe as circunstâncias que recebe.
Mas todas escolhem o que fazem com elas.
Vítor Fraga