Tema do artigo: na primeira parte escrevi sobre a tese de doutoramento que mediu, nos ossos dos falecidos da Praia da Vitória, a marca da contaminação da Base das Lajes — o primeiro sinal objectivo de que aquela população foi exposta. Hoje trato da metade que verdadeiramente importa: o que fazer com essa descoberta. E faço-o sob a bandeira que devia orientar todo este debate — a de que a saúde é uma só.
“Uma Só Saúde” não é um slogan
Há um conceito que raramente aparece nestas discussões e que, no entanto, as organiza: chama-se One Health — Uma Só Saúde. Isto não é retórica de congressos de Saúde Pública: é hoje a doutrina comum das 4 grandes organizações internacionais que tratam da saúde — a Organização Mundial da Saúde, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a Organização Mundial da Saúde Animal e o Programa das Nações Unidas para o Ambiente —, que em 2021 adoptaram, através de um painel de peritos de alto nível, uma definição comum, e que renovaram o seu compromisso conjunto este ano. A ideia é simples e antiga: a saúde das pessoas, a dos animais e a dos ecossistemas não são 3 assuntos, são 1 só, indivisível. E poucos lugares no mundo a ilustram tão bem como a Praia da Vitória: um ambiente contaminado, uma paisagem agro-pecuária que se estende pela planície do Ramo Grande, e uma população humana — todos assentes exactamente no mesmo chão.
Do solo ao pasto, do pasto à mesa
É por isso que a leitura estritamente humana da tese, sendo correcta, fica a meio caminho. Os solos assinalados como contaminados são também solos de pasto. E os metais pesados ali presentes têm uma propriedade que os torna perigosos, exactamente à escala de uma comunidade: bioacumulam ao longo da cadeia alimentar. Do solo passam para a erva, da erva para o gado, do gado para o leite e para a carne, e daí para a nossa mesa. Não é uma conjectura: a própria Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) alerta que os ruminantes, expostos a cádmio nas pastagens durante toda a vida, o acumulam de forma indesejável, sobretudo nos rins, e que o consumo de vísceras de animais mais velhos contribui significativamente para a exposição humana. O chumbo, por seu lado, fixa-se no osso e no fígado do gado, tal como se fixa nos nossos. Numa ilha de vocação leiteira, este não é um risco abstracto — é um percurso concreto que pede vigilância.
Há, aliás, uma sabedoria antiquíssima da Saúde Pública, que a ciência formalizou há décadas na expressão «animais como sentinelas» (a monografia do National Research Council dos EUA, de 1991, é a nossa referência clássica): o canário na mina não era uma superstição, era epidemiologia rudimentar. Os animais que partilham o terreno, a água e a erva denunciam mais cedo, e são mais fáceis de amostrar, aquilo que ameaça as pessoas. A tese interrogou o osso humano; um programa à altura do problema perguntará também o que têm para nos dizer os rebanhos e as pastagens. Nesta história, o ambiente foi o primeiro doente — e há muito tempo.
As perguntas que a tese, com honestidade, deixa em aberto
Precisamente por ser honesta quanto aos seus limites, a tese deixa perguntas — e todas merecem resposta:
Primeira, a mais urgente: estarão os vivos expostos como estiveram os mortos? A tese mediu os falecidos; a pergunta que permite prevenir, em vez de lamentar, é a carga actual nos residentes vivos — plumbémia, doseamento urinário de cádmio e de arsénio. É a biomonitorização humana, e é, para mim, o passo número 1. Não se protege quem não se mede.
Segunda: a exposição traduz-se em doença? Só um estudo epidemiológico bem desenhado — incidência georreferenciada, análise de factores de risco — o poderá dizer. A tese reforça, com dados, a urgência de o fazer — e de garantir acesso pleno aos registos, porque investigações anteriores terão esbarrado em entraves de acesso, o que é, em si mesmo, um problema de Saúde Pública.
Terceira: a fonte ainda está activa? A monitorização da água de consumo há-de continuar e alargar o painel de parâmetros para além do mínimo legal, e a relocalização das captações de Agualva, já financiada, tem de ser concluída.
Quarta, quase sempre esquecida: e os animais e os alimentos? A vigilância de metais nas pastagens, na água dos animais, no leite e nas vísceras do gado da zona tem de existir — é a peça veterinária e de segurança alimentar da mesma equação.
Que a ciência é possível, diz o mundo
A quem de que vale a pena, dou um exemplo internacional. Em Camp Lejeune, uma base de fuzileiros dos EUA, a água de consumo esteve contaminada entre 1953 e 1987 por solventes e hidrocarbonetos — tricloroetileno, tetracloroetileno, benzeno, cloreto de vinilo. Durante anos foi suspeita; depois passou a ser ciência. A agência federal ATSDR reconstruiu a exposição e conduziu estudos epidemiológicos que ligaram aquela água a um conjunto de doenças — cancros do rim e do fígado, linfoma não-Hodgkin, leucemias, cancro da bexiga, mieloma múltiplo, entre outras —, ao ponto de o Congresso aprovar, em 2022, uma lei de reparação para as vítimas. A lição é clara: este tipo de problema é conhecido e estudável — e a demora, quando a há, paga-se com vidas humanas.
Não é preciso, para agir, afirmar o que a evidência ainda não permite. Basta o método de Bradford Hill, que desde 1965 nos ensina a passar da associação à causa por degraus (força, consistência, gradiente biológico, plausibilidade, temporalidade); e basta o Princípio da Precaução, consagrado na Declaração do Rio de 1992: perante um passivo confirmado, um sinal de exposição e incerteza quanto aos efeitos, a resposta proporcionada não é proclamar um nexo, é vigiar melhor e proteger já.
E agora, Açores…?
Temos tudo o que é preciso para o fazer bem: autoridade regional de saúde e Coordenação Regional de Saúde Pública empenhados na defesa da Saúde Pública, serviços veterinários, uma entidade reguladora das águas, universidades. Falta articulá-los numa verdadeira vigilância “Uma Só Saúde”, que junte à mesma mesa o humano, o animal, o alimentar e o ambiental. A questão da responsabilização e do financiamento — que compete ao Estado, no quadro do Acordo de 1995 com os EUA — é importante, mas não é o processo de quem tem defender a Saúde Pública. O nosso processo é mais humilde e mais nobre: medir, proteger e dizer a verdade. A Região que financiou (e bem) esta (fantástica) tese tem agora o dever de construir em cima dela.
Uma mão que não larga quem precisa — também aqui
Termino com o elogio que a evidência sustenta, e com uma nota que os leitores desta rubrica já me conhecem. Um único doutoramento, erguido a partir de ossos anónimos e não reclamados, fez o que 20 anos de manchetes não conseguiram: obrigou as perguntas certas a virem para cima da mesa. É este o rosto de uma ciência que serve — rigorosa, humilde quanto aos seus limites e moralmente séria. E há uma dignidade tocante no facto de terem sido os mais esquecidos — os mortos que ninguém reclamou — a dar-nos os meios de cuidar dos vivos. Devemos-lhes uma resposta. Escrevi há dias que a grandeza de uma sociedade se mede pela sua relação com o que sofre; mede-se também pela seriedade com que se recusa a olhar para o lado. Não olhar para o lado — eis, afinal, o primeiro acto de Saúde Pública.
*Médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É o Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT. Escreve semanalmente neste espaço sobre temas de Saúde Pública.
Mário Freitas*