Durante séculos, a teologia procurou Deus nos céus, nos sistemas metafísicos e na solenidade dos templos. Contudo, a tradição bíblica conserva a intuição, simples quanto exigente, que Deus não deseja ser adorado, pretende ser encontrado. E o lugar privilegiado desse encontro não é uma ideia ou um conceito religioso, mas a realidade concreta da pessoa humana, a quem chamamos próximo.
No cristianismo, Deus não é apresentado como uma força distante nem como um princípio abstrato que governa o universo. É uma presença que se aproxima do ser humano e o interpela. A autenticidade do vínculo que estabelecemos com Deus manifesta-se na forma como acolhemos, respeitamos e cuidamos dos outros. A Primeira Epístola de João exprime-o de forma inequívoca: «Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.»
Ao revelar que Deus é amor, o Evangelho desloca a experiência religiosa do plano da abstração para o terreno da vida concreta. Não se trata de um sentimento passageiro, mas de um compromisso com a dignidade humana. Foi esta convicção que levou Santo Agostinho a afirmar que o coração humano permanece inquieto enquanto não repousar em Deus. No entanto, esse encontro acontece frequentemente junto dos que sofrem, dos que carregam injustiças e dos que necessitam da nossa presença. Emmanuel Levinas (1906/1995) aprofundou esta intuição ao defender que a relação com o rosto do outro é, desde a sua origem, uma relação ética.
Na vulnerabilidade do outro descobre-se o apelo irrecusável à responsabilidade. A transcendência de Deus deixa, assim, de significar uma fuga ao mundo para se revelar no compromisso concreto com a dignidade humana e com a justiça. A fé perde a sua autenticidade quando se torna indiferente ao sofrimento dos outros. Sempre que se acomoda à injustiça ou se demite da defesa dos mais vulneráveis, a religião deixa de ser caminho de libertação e converte-se numa forma de idolatria, traindo o próprio Deus que afirma servir.
Paradoxalmente, nunca dispusemos de tantos meios para comunicar e nunca parecemos tão vulneráveis à indiferença. Assistimos ao sofrimento de povos inteiros em tempo real e, pouco depois, retomamos a rotina como se nada tivesse acontecido. A abundância de informação em vez de produzir consciência, torna-se habituação ao mal, à indiferença ao sofrimento dos outros.
Talvez o problema central do nosso tempo não seja a ausência de fé, mas a dificuldade em reconhecer a dignidade inviolável de cada pessoa. Quando a economia transforma seres humanos em números, quando a política reduz vidas a estatísticas e quando a cultura mede o valor das pessoas pela sua utilidade, algo de profundamente sagrado está a ser negado à Humanidade.
O teólogo jesuíta alemão Karl Rahner (1904/1984), uma das figuras mais influentes da teologia católica do século XX, afirmava que o cristão do futuro será um místico, a mística a que se refere deve nascer da capacidade de reconhecer a presença de Deus no coração da história, no quotidiano da existência e, sobretudo, no encontro com cada ser humano. A fé torna-se experiência viva quando descobre em cada pessoa a dignidade que transcende todas as classificações sociais, económicas ou ideológicas.
Amar o próximo, para além de uma obrigação moral, exige participação da dinâmica ideológica veiculada pelos Evangelhos. Cada gesto de hospitalidade, cada acto de justiça e todas as expressões de solidariedade tornam visíveis a presença de Deus entre nós.
Numa civilização construída sobre a competição e numa cultura que transforma tudo em mercadoria, o amor permanece um acto revolucionário. Deus revela-se no que somos capazes de fazer uns pelos outros. A presença de Cristo entre nós veio demonstrar que a Humanidade é o lugar onde o divino escolheu manifestar-se.
Encontrar no próximo o rosto de Deus significa compreender que nenhuma vida é descartável e que nenhum sofrimento pode ser considerado alheio, deixando a fé de ser apenas adesão a uma verdade filosófica, para se tornar numa forma solidária de habitar o mundo.
Henrique Levy*
*Poeta e ficcionista