A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA/BirdLife) apresentou um novo livro e uma plataforma digital dedicados às aves marinhas e costeiras que ocorrem em Portugal, reunindo informação científica actualizada sobre 76 espécies e evidenciando a necessidade de reforçar a monitorização das populações nidificantes nos Açores, onde os indicadores ambientais revelam uma situação menos favorável do que no continente e na Madeira.
As duas ferramentas, designadas Sentinelas do Oceano, foram lançadas na Terça-feira, no Oceanário de Lisboa, e resultam de dois anos de trabalho editorial que envolveu mais de 650 colaboradores, entre investigadores, equipas de campo, autores, revisores e entidades fornecedoras de dados.
O livro reúne informação detalhada sobre 66 espécies de aves marinhas e costeiras presentes em Portugal, incluindo mais de 160 mapas de distribuição organizados por período reprodutor e não reprodutor e por região — Continente, Açores e Madeira. A publicação integra ainda 81 gráficos sobre o estado ambiental das populações, permitindo uma leitura da evolução das espécies e dos ecossistemas marinhos e costeiros.
Já a plataforma digital actualiza e expande o anterior Atlas das Aves Marinhas, passando a disponibilizar informação sobre 76 espécies, mais oito do que na versão anterior. Disponibiliza cerca de 700 mapas de distribuição e abundância, inclui uma versão em inglês e incorpora novas funcionalidades de acessibilidade para pessoas com deficiência visual, através de textos alternativos compatíveis com leitores automáticos de ecrã.
Segundo a SPEA, as aves marinhas e costeiras constituem importantes indicadores da saúde dos oceanos, uma vez que a sua distribuição, abundância e evolução populacional permitem avaliar alterações ambientais, a disponibilidade de alimento, as pressões sobre os habitats costeiros e marinhos e os impactos das actividades humanas.
Os dados compilados mostram diferenças significativas entre regiões. Enquanto no continente e na Madeira mais de 75% das populações nidificantes avaliadas apresentam um Bom Estado Ambiental em pelo menos um dos indicadores utilizados, a situação é distinta nos Açores, onde as populações reprodutoras revelam um estado menos favorável, evidenciando desafios adicionais para a conservação da avifauna marinha do arquipélago.
Este resultado assume particular relevância para os Açores, que acolhem algumas das mais importantes colónias de aves marinhas do Atlântico Norte. Espécies como a cagarra (Calonectris borealis), o garajau-comum (Sterna hirundo), o garajau-rosado (Sterna dougallii), o painho-de-Monteiro (Hydrobates monteiroi), endémico dos Açores, e o painho-da-Madeira (Hydrobates castro) dependem dos habitats insulares para a sua reprodução, tornando o arquipélago uma região estratégica para a conservação destas espécies à escala europeia e mundial.
Citado pela organização, o coordenador do projeto Sentinelas do Oceano, Nuno Oliveira, refere que o trabalho demonstra “a dimensão do conhecimento acumulado sobre as aves marinhas e costeiras em Portugal”, mas sublinha igualmente “a importância de continuar a monitorizar estas espécies, que funcionam como verdadeiras sentinelas da saúde dos oceanos”.
O responsável acrescenta que a disponibilização deste conhecimento em formato aberto pretende apoiar a conservação da biodiversidade, a investigação científica, a educação ambiental e a tomada de decisões baseadas em evidência.
Com o lançamento destas ferramentas, a SPEA reforça o acesso público a informação destinada a investigadores, gestores de áreas protegidas, decisores políticos, professores, estudantes e cidadãos interessados na conservação dos ecossistemas marinhos.
O livro ficará disponível gratuitamente em formato digital e a plataforma poderá ser consultada online.
O projecto Sentinelas do Oceano foi desenvolvido pela SPEA/BirdLife, em parceria com o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e com a Estación Biológica de Doñana (EBD-CSIC).
A iniciativa foi co-financiada pela União Europeia através do programa LIFE e da Rede Natura 2000, contando ainda com o apoio do Fundo Ambiental, da Fundação MAVA, da Lush, do Oceanário de Lisboa e da Década das Nações Unidas das Ciências do Oceano para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030).
