Edit Template

Passamos tanto tempo a ganhar a vida que nos esquecemos de viver

Há uma expressão que repetimos desde sempre sem nunca lhe prestarmos grande atenção: ganhar a vida. Dizemo-la com a naturalidade de quem fala da chuva ou do estado do tempo. Vamos trabalhar para ganhar a vida. Fazemos horas extraordinárias para ganhar a vida. Aceitamos mais responsabilidades para ganhar a vida.
Mas talvez nunca nos tenhamos detido na ironia da expressão.
Passamos tanto tempo a ganhar a vida que, muitas vezes, deixamos de a viver.
Não acontece de um dia para o outro. Ninguém acorda numa manhã decidido a trocar os filhos por reuniões, os amigos por prazos ou os domingos por e-mails. A vida não se perde de repente. Vai-se gastando aos poucos, quase sempre com o nosso consentimento. Primeiro é “só esta semana”. Depois é “quando este projeto terminar”. Mais tarde é “quando pagar a casa”. E, sem darmos conta, chegamos à conclusão de que vivemos sempre à espera de um tempo que nunca chegou.
Talvez o maior engano da nossa geração tenha sido acreditar que viver começa depois.
Depois da promoção.
Depois da estabilidade.
Depois da reforma.
Depois de resolvermos todos os problemas.
O problema é que a vida nunca acontece depois. Acontece enquanto estamos ocupados a fazer planos para ela.
Vivemos numa época que transformou a ocupação numa virtude. Perguntar a alguém como está tornou-se um ritual previsível. A resposta é quase sempre a mesma: “Nem tenho tempo para respirar.” E, curiosamente, dizemo-lo com um certo orgulho. Como se o cansaço fosse uma medalha. Como se uma agenda cheia fosse a prova de uma vida bem vivida.
Mas não é.
Uma agenda cheia apenas prova que estivemos ocupados.
Nada nos garante que estivemos presentes.
Há momentos em que todos percebemos isto. Acontecem sem aviso. À saída de um funeral. Quando um filho nos pergunta porque é que nunca temos tempo. Quando encontramos um velho amigo e percebemos que passaram anos desde a última conversa. Ou quando, ao fim de um dia particularmente difícil, nos ouvimos dizer, quase em surdina: “Era capaz de largar tudo.”
Nesses instantes sabemos exatamente o que nos faria bem.
Sabemos que precisamos de mudar.
Mas depois…
Depois falta a coragem.
E sobra o medo das consequências.
Continuamos porque temos contas para pagar, responsabilidades para cumprir, pessoas que dependem de nós. Tudo isso é verdadeiro. O problema começa quando transformamos essas razões numa autorização permanente para adiar a vida. Porque há uma diferença entre assumir responsabilidades e entregar-lhes a existência inteira.
Não é o trabalho que nos rouba a vida.
É a ideia de que viver pode esperar.
E talvez seja essa a maior mentira que contamos a nós próprios.
Esperamos pelo momento certo para viajar, para mudar de emprego, para passar mais tempo com quem amamos, para aprender aquilo que sempre quisemos aprender ou, simplesmente, para descansar sem culpa. Esperamos tanto que um dia descobrimos que o momento certo nunca existiu. Existiam apenas dias. Dias que passaram. Dias que não voltam.
No fim, quase ninguém lamenta não ter respondido a mais um e-mail ou não ter aceite mais uma reunião. O que pesa são as conversas adiadas, os abraços que ficaram por dar, os almoços recusados, os fins de tarde perdidos e a estranha sensação de termos passado anos a preparar uma vida que nunca chegou verdadeiramente a começar.
Talvez ainda vamos a tempo.
Não de recuperar os dias que ficaram para trás. Esses pertencem à memória.
Mas de impedir que os próximos tenham o mesmo destino.
Porque trabalhar é uma forma de ganhar a vida.
Viver… continua a ser a única forma de lhe dar sentido.
Carlos Pinheiro

Edit Template
Notícias Recentes
EDA Renováveis recebe licenças para 3,6 MW de potência eólica em Santa Maria e nas Flores
Desembarque de passageiros nos aeroportos dos Açores cai 4,3% em Julho
Artur Lima defende uma reflexão profunda sobre desafios do envelhecimento populacional
UAc recebe verbas para monitorizar contaminantes e stocks prioritários dos mares dos Açores
Governo analisa queixas de assimetrias remuneratórias na enfermagem e aguarda informação adicional
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Diário dos Açores