Há derrotas que matam soldados e outras que trucidam povos por dentro. As primeiras vítimas repousam em solo consagrado pelo sacrifício, e as segundas permanecem na memória coletiva como testemunho do que não pode ser esquecido. Moldam em silêncio as escolhas políticas, os ressentimentos acumulados e a disposição psicológica de uma nação para aceitar, ou mesmo desejar, a mão forte de quem prometa restaurar a dignidade perdida. Numa manhã de abril de 1918, Portugal conheceu aquela segunda categoria de insucesso nas planícies da Flandres. As linhas portuguesas cederam sob o peso de uma ofensiva alemã que as tropas britânicas, em recuo precipitado, deixaram expostas sem aviso nem amparo. La Lys foi mais do que uma batalha perdida. Marcou o momento em que uma nação já ferida se viu a si própria no espelho e não reconheceu o rosto que encontrou.
Para entender o impacto de La Lys sobre Portugal, é preciso recuar no tempo e perceber em que estado de alma o país entrou na Grande Guerra. A memória do ultimato inglês de 1890ainda ardia no orgulho nacional. Proclamada em 1910, a jovem república prometera resgatar esta dignidade contundida, mas rapidamente se revelou um organismo político convulsivo, dividido entre fações e incapaz de governar com serenidade. O próprio Manuel de Arriaga, primeiro presidente da República, acabaria por se demitir num contexto de profunda crise política, agravada pelas tensões em torno da participação portuguesa na guerra. O país não entrava no conflito por consenso, mas por uma aposta arriscada, considerada necessária para afirmar, perante o mundo e perante si próprio, que continuava a ser uma potência com um império a defender e uma voz a fazer-se ouvir. Em termos psicológicos, tratava-se de um gesto de compensação como tentativa de reparar uma autoimagem deteriorada.
Foi neste estado de fragilidade interior que os soldados portugueses partiram para a Flandres. As linhas portuguesas ficaram expostas pelo recuo britânico e pela fadiga de tropas que, já em preparação para serem rendidas, não esperavam enfrentar naquela madrugada o peso da ofensiva alemã. Compreende-se a derrota numa perspetiva militar, mas numa dimensão psicológica foi um golpe devastador contra a dignidade nacional. Uma nação que entra na guerra para se provar ao mundo e a si mesma não podia absorver um desastre de tal magnitude como simples vicissitude de luta. A humilhação coletiva instalou-se com a força de um trauma.
O sociólogo Jeffrey Alexander, em Trauma: A Social Theoryi (2012), argumenta que os traumas culturais não são meros reflexos automáticos de eventos dolorosos, mas construções sociais que emergem quando uma comunidade decide — consciente ou inconscientemente — que determinado acontecimento feriu de forma irreparável a sua identidade. La Lys reuniu todas as condições para se transformar num trauma cultural que a república não elaborou e que os seus adversários souberam instrumentalizar. O psicanalista e investigador político Vamik Volkan, em 1997 introduziu o conceito de “trauma escolhido”, definindo-o como a incorporação, na identidade de um grupo, da memória de um revés ou humilhação ancestral que passa a funcionar como ferida aberta transmitida entre gerações. O trauma escolhido não é esquecido, mas ritualizado, reencenado, convocado sempre que o grupo sente a sua coesão ameaçada. La Lys exprime para Portugal aquela violenta experiência psicológica que a memória coletiva recusou cicatrizar porque dela se alimentava uma narrativa de decadência e de necessidade de redenção.
A psicologia da história revela aqui a sua função explicativa. Porque entre o desbarato de La Lys e a implantação do Estado Novo, além de uma sequência de factos políticos existe uma trajetória emocional. O descrédito da república parlamentar alimentou-se largamente da incapacidade desta dar resposta à ansiedade nacional gerada pela vergonha da guerra. Uma população que se sente vexada, traída e desorientada, torna-se psicologicamente recetiva a discursos de ordem, de autoridade e de restauração da grandeza nacional. Fenómenos políticos como o golpe militar de maio de 1926 e a subsequente ascensão de Salazar, foram sobretudo respostas a uma necessidade psíquica profunda de um povo que havia perdido a confiança em si mesmo. Num homem ou num regime, Portugal procurava a promessa de recuperar o que sentia ter sido roubado à sua dignidade.
A memória de La Lys funcionou, assim, como um espelho partido que Portugal guardou consigo durante décadas, sem coragem de juntar os cacos nem de deitar fora os fragmentos. Após o mapa cor-de-rosa rasgado em 1890, a república não cumpriu as suas promessas para com a nação e os soldados abandonados nas planícies da Flandres. Ficaram latentes — ferida a identidade nacional — o ressentimento e a saudade de uma grandeza que talvez nunca tivesse existido exatamente como a memória a pintava. A verdadeira questão para a psicologia da história talvez não seja saber porque Portugal caiu na ditadura, mas compreender porque um povo prefere, por vezes, a segurança de uma ferida conhecida à incerteza dolorosa de curá-la.
i Trauma: uma teoria social.
Manuel Leal