O Caravel já cumpriu cerca de 30% da travessia autónoma iniciada em 20 de Julho entre o Porto de Leixões e os Açores, anunciou a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).
A deslocação foi revelada esta Quinta-feira, 30 de Julho, numa informação publicada pela FLAD, segundo a qual a missão está a permitir validar a capacidade da plataforma para operar durante períodos prolongados em ambiente oceânico. A operação deverá testar, em condições reais, a autonomia do veículo, os sistemas de comunicação e supervisão remota e a recolha contínua de dados científicos.
O Caravel é um veículo autónomo de superfície desenvolvido no âmbito do projeto JUNO – Robotic Exploration of Atlantic Waters, concebido para realizar missões de longa duração no Atlântico sem tripulação a bordo. Embora navegue autonomamente, o veículo é acompanhado a partir de terra, através de sistemas que permitem supervisionar a deslocação, receber os dados recolhidos e ajustar o planeamento da missão.
O projeto é liderado por Renato Mendes, investigador do Instituto de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial (INEGI) e vencedor do FLAD Science Award Atlantic 2021. A distinção foi acompanhada por um financiamento de 300 mil euros, atribuído pela FLAD para o desenvolvimento do projecto durante três anos.
A iniciativa reúne o INEGI, o +ATLANTIC – Associação para um Laboratório Colaborativo do Atlântico, o Laboratório de Sistemas e Tecnologias Subaquáticas (LSTS) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e Pierre Lermusiaux, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT). O projecto combina conhecimentos de engenharia, robótica marítima, oceanografia, modelação oceânica e operação remota.
A travessia entre Leixões e os Açores constitui uma demonstração operacional da tecnologia desenvolvida. De acordo com a FEUP, o veículo é supervisionado a partir do Ocean Space Center, instalado no LSTS, onde são recebidos os dados, planeadas as operações e integradas informações provenientes de modelos oceânicos e de sistemas de observação remota.
O Caravel baseia-se numa plataforma AutoNaut, concebida para aproveitar a energia mecânica produzida pelo movimento das ondas. Os painéis solares fornecem electricidade aos sensores, equipamentos de comunicação e restantes sistemas instalados a bordo. A ausência de um motor convencional e de consumo de combustíveis fósseis permite uma operação silenciosa e prolongada, com reduzido impacto ambiental.
Estas características tornam a plataforma adequada para missões em zonas remotas, de difícil acesso ou ambientalmente sensíveis, incluindo áreas marinhas protegidas. A descrição científica do projecto publicada pelo LSTS destaca a possibilidade de manter o veículo no mar durante longos períodos, recolhendo informação em locais onde as campanhas oceanográficas convencionais são mais complexas e dispendiosas.
O equipamento científico inclui uma estação meteorológica, sensores de temperatura e salinidade e um perfilador acústico de correntes por efeito Doppler (ADCP, na sigla inglesa). Possui sensores para medir oxigénio dissolvido, turbidez, concentração de clorofila e matéria orgânica, além dos dispositivos necessários à navegação, comunicação e segurança.
A recolha simultânea destes parâmetros deverá permitir acompanhar a evolução das condições meteorológicas e oceanográficas ao longo da rota. O veículo foi preparado para estudar frentes oceânicas, alterações rápidas de temperatura e salinidade, vórtices de pequena escala, ondas internas e zonas de acumulação de materiais e detritos flutuantes.
Um dos objectivos científicos do JUNO é obter observações com elevada resolução espacial e temporal sobre fenómenos oceânicos transitórios, alguns dos quais se desenvolvem em áreas inferiores a 10 quilómetros ou persistem apenas durante alguns dias. A mobilidade e a permanência prolongada do Caravel permitem acompanhar esses processos de forma continuada, em vez de limitar a observação aos períodos em que existe um navio científico no local.
A informação recolhida poderá contribuir para o estudo das alterações climáticas, da poluição marinha, do funcionamento dos ecossistemas oceânicos e da gestão sustentável dos recursos do mar. O projecto prevê igualmente o desenvolvimento de programas informáticos para optimizar trajectórias, reduzir os riscos de navegação, acompanhar fenómenos em movimento e combinar as medições realizadas no mar com imagens de satélite e modelos numéricos.
A FLAD enquadra a missão nos objectivos da Década das Nações Unidas da Ciência do Oceano para o Desenvolvimento Sustentável, que decorre entre 2021 e 2030, salientando o contributo destas plataformas para complementar os métodos tradicionais de investigação e ampliar a recolha e partilha de dados sobre o Atlântico.
A operação conta ainda com a colaboração da Marinha Portuguesa, do Instituto Hidrográfico, da Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL), da Agência Espacial Portuguesa, da Escola do Mar dos Açores e do OKEANOS – Instituto de Investigação em Ciências do Mar, entre outras entidades nacionais e internacionais.
Segundo a FLAD, a posição do Caravel pode ser acompanhada em tempo real através da plataforma Ripples.
